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O mundo se divide entre defensores ferrenhos da gestão ativa e da passiva, cada um com seu lobby poderoso – e mais sobre a forma como o tema tem sido explorado: o ETF é o investimento do amador, como diz a Economist?
Não pega bem contestar elogio a quem acabou de falecer, nem é o meu objetivo aqui, que fique claro. John Bogle, que acaba de nos deixar, aos 89 anos, tem um valor inestimável para a história do mercado de fundos global. Ponto.
Dito isso, não vou resistir a relativizar o título do obituário da revista britânica The Economist: “Em memória de John Bogle, santo padroeiro do investidor amador”.
Bogle recebe essa alcunha por ter sido o pai dos fundos que replicam índices, os chamados ETFs (Exchange Traded Funds), negociados em Bolsa, em meados dos anos 1970. O produto, responsável pelo sucesso da hoje gigante Vanguard, foi inspirado em um artigo de 1974 em que o Prêmio Nobel Paul Samuelson defendia que nenhum gestor, com ações escolhidas a dedo e cobrando preços altos por essa seleção, seria capaz de bater a média do mercado.
ETF ainda é uma sigla praticamente desconhecida no Brasil. Os produtos do tipo somam aqui um patrimônio de 12 bilhões de reais e representam apenas 0,26 por cento da nossa indústria de fundos. No mundo, esse mercado hoje é enorme, com mais de 5 trilhões de dólares, e crescente – mais do que o de fundos não indexados.
No Brasil, esse mercado tem dois competidores principais: a americana BlackRock e o Itaú. A primeira, apesar de ser uma gigante global, trabalha pouco a marca localmente e praticamente vira as costas para o varejo.
Já o Itaú é cada vez mais ativo, mas há dúvidas sobre o real interesse do banco em fazer crescer esse mercado, que concorre diretamente com os fundos que buscam superar o índice, muito mais caros e, portanto, mais rentáveis. Eu pelo menos nunca vi uma propaganda de ETF por aí.
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Meu ponto principal hoje é menos sobre o que é melhor – o mundo se divide entre defensores ferrenhos da gestão ativa e da passiva, cada um com seu lobby poderoso – e mais sobre a forma como o tema tem sido explorado: o ETF é o investimento do amador, como diz a Economist?
Queremos nós, pessoas físicas, nos assumir como investidores amadores e colar no nosso santo protetor? Ou queremos nos aproximar do investidor profissional, que não precisa de reza brava?
As referências a Bogle me lembram um debate que já trouxe aqui, sobre a maior referência global em alocação em fundos, o americano David Swensen, que administra o fundo patrimonial da Universidade Yale. E que, sim, tem fundos ativos no portfólio – aqueles em que o gestor escolhe ações em que vê mais oportunidade no lugar de replicar o índice.
Swensen faz a mesma distinção. Meu livro favorito dele é voltado para o investidor institucional. Nele, Swensen comenta o fato de poucos investidores institucionais aplicarem exclusivamente em produtos passivos e defende que a gestão ativa gera valor para quem é disciplinado e tem horizonte de investimento longo.
O alocador de Yale também publicou um livro para o investidor individual em que defende o uso de fundos passivos. Nesse ele dedica mais de 300 páginas a apontar os conflitos da indústria e sugerir que o investidor pessoa física deveria investir passivamente.
Quem está disposto a ler tal tratado não estaria também pronto para aprender a diferenciar minimante as características de gestores com maior probabilidade de sucesso sobre o referencial no longo prazo? Cito alguns indicadores: histórico longo, equipes que trabalham juntas há muito tempo, bons retornos em diferentes janelas, taxas apropriadas para a categoria, benchmarks apropriados para cobrança de performance, carência apropriada para o produto.
Veja bem: meu ponto hoje nem é tanto entrar no debate se a gestão ativa é capaz de bater os referenciais, ainda que, no Brasil, o histórico penda a favor dos gestores, mesmo quando considerado o “viés de sobrevivência”, como já trouxe neste espaço (há as questões sobre a metodologia do índice – que certamente ficou mais difícil de ser batido desde a reforma metodológica do Ibovespa).
O passado não é necessariamente um bom guia para o futuro. Certo. Dada a necessidade, porém, de tomar uma decisão hoje e tendo somente o histórico à mão, prefiro gestores ativos bem escolhidos. E pondero mais um ponto: é preciso observar a taxa dos produtos passivos, que, no Brasil, é consideravelmente mais alta do que no exterior.
O ativo é sempre melhor? Não necessariamente. Quando o investidor tem pouco dinheiro para aplicar em Bolsa, fica difícil fugir do ETF do Ibovespa (o principal índice da Bolsa brasileira). São praticamente inexistentes os fundos ativos com tíquete mínimo inferior a 1 mil reais, e a maior parte deles exige 10 mil reais para cima. Melhor o ETF do que concentrar em uma única ação.
Para small caps, uma indústria praticamente dizimada no Brasil, o ETF também tem seu valor, especialmente pela diversificação em uma categoria de alto risco: você pode correr o risco de perder 100 por cento do dinheiro investido em algumas das empresas do índice, com potencial de ganhos exponenciais em outras.
Para um brasileiro aplicar na Bolsa americana, por exemplo, o ETF do S&P 500 (índice das principais ações americanas) também parece um bom instrumento, dado que, em um mercado mais eficiente, é teoricamente mais difícil bater o índice.
Enfim, o que me incomoda realmente é o rumo que toma essa discussão. Vale a pena debater gestão ativa contra gestão passiva? Sim. Mas seja qual for a conclusão, se é que ela é possível, deve valer para todos os investidores.
Carece o investidor pessoa física de um santo padroeiro? Ou de informação?
Tem fundo novo na praça: Estratégia Genial FIC FIA. A Genial, que herdou os antigos fundos de Bolsa da Geração Futuro em 2012, com aplicação mensal via boleto e taxas salgadinhas, acaba de fazer uma nova aposta no mundo da renda variável – ao que parece, promissora.
Para isso, levou para casa gente com estrada: as gestoras Paola Bonoldi e Magali Blim, que têm mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro.
Elas trabalham juntas desde 2011, quando eram cogestoras do fundo de ações da Gávea Investimentos, no Rio. Posteriormente, migraram para o JP Morgan, em virtude da integração das operações de renda variável com a asset estrangeira, em 2016.
O fundo ficou no JP Morgan quando a operação foi desfeita. E, mais recentemente, o banco desistiu de ter gestão própria no Brasil – em mais um capítulo do vaivém histórico dos bancos globais aqui. Foi a deixa para a Genial levar a dupla em 2017, juntamente com o histórico do fundo que tocavam há quase uma década.
O Estratégia Genial – como passou a se chamar o produto na casa nova – é um fundo comprado em ações dividido em duas “caixinhas”.
A maior delas, que corresponde a 80 por cento da alocação, é a carteira estrutural, composta por um total de dez a 15 papéis de alta convicção da equipe de análise fundamentalista. Hoje, por exemplo, é o caso de Bradesco e Magazine Luiza. Aqui, o horizonte médio de investimento é de um a três anos e cada ação pode chegar a até 20 por cento da carteira.
Já a outra parte do portfólio destina-se às posições táticas, ou oportunidades de curto prazo. Estamos falando aqui de empresas que podem até não ser atrativas do ponto de vista estrutural, mas que tendem a se beneficiar do momento de mercado. Seria o caso de uma varejista, por exemplo, candidata a surfar a melhora do ciclo econômico.
O giro da segunda caixinha é mais rápido; subiu, vendeu. Como definiu Paola, é uma espécie de “piscina de ideias”, boa para oxigenar a carteira.
As decisões de investimento são tomadas com base em trabalho de campo e as teses são levadas ao comitê interno, para serem questionadas e validadas por um segundo analista. A união de empresas de qualidade com oportunidades pontuais resulta em um portfólio mais dinâmico, defendem as gestoras.
Um atrativo do fundo é sua baixa aplicação inicial, de 100 reais, enquanto a categoria costuma trabalhar com aporte mínimo de pelo menos 1 mil reais, sendo que o mais comum é algo acima de 10 mil reais.
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