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Maria Eduarda Nogueira

Maria Eduarda Nogueira

Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Comunicação e Marketing Digital na ESPM. Atualmente, está baseada em Paris, onde faz mestrado em comunicação e mídias digitais na Sorbonne e cobre temas como luxo, turismo e arte.

TERROIR (INTER)NACIONAL

Vinho sem síndrome de vira-lata: como três gringos querem encantar o paladar francês com vinhos brasileiros

O recém-criado projeto Vin du Brésil quer conquistar os exigentes paladares da França, considerado o “templo do vinho”

Maria Eduarda Nogueira
Maria Eduarda Nogueira
27 de janeiro de 2026
8:16 - atualizado às 9:05
Da esquerda para a direita: Xavier Vankerrebrouck, Giovanni Montoneri, Benoit Mathurin e Guilherme França, do projeto Vin du Brésil
Da esquerda para a direita: Xavier Vankerrebrouck, Giovanni Montoneri, Benoit Mathurin e Guilherme França, do projeto Vin du Brésil - Imagem: Reprodução/Instagram

A tal “síndrome de vira-lata” do brasileiro se espalha pelos mais diversos universos. Mas, enquanto o cinema está saindo desse marasmo da síndrome de inferioridade com as vitórias recentes de Wagner Moura e Fernanda Torres no circuito americano, a viticultura brasileira parece ainda precisar do tal reconhecimento internacional para se livrar do preconceito que “o que vem de fora é melhor”.

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E se o objetivo é ter um selo de aprovação estrangeiro no universo dos vinhos, o destino não é Hollywood, e sim a França, considerada como o “templo do vinho”.

Os idealizadores do recém-criado projeto Vin du Brésil sabem bem disso. É por isso que desde o final de 2025, eles estão promovendo uma série de eventos em território francês cujo único objetivo é “fazer conhecer o vinho brasileiro” pelos exigentes paladares de sommeliers, jornalistas e personalidades francesas.

São 29 rótulos apresentados para degustação com preços que variam de R$ 37 a R$ 120. Eles vêm de seis vinícolas nacionais, que toparam o investimento neste marketing internacional. Ao todo, foram 30 convidadas, mas nem todas embarcaram no projeto por questões financeiras. Financiar uma expansão “na gringa”, sem garantia de retorno imediato em vendas, afinal, não é uma decisão trivial.

Compondo uma equipe multidisciplinar, há o empresário italiano Giovanni Montoneri cuida do business da empreitada, através da sua companhia especializada na internacionalização de marcas brasileiras. Fazendo as vezes de sommelier, o chef Benoit Mathurin, do Esther Rooftop, entra com o know how dos rótulos. Por fim, o jornalista e influenciador francês Xavier Vankerrebrouck é responsável por ativar a rede de contatos e fazer uma espécie de assessoria de imprensa no meio dos formadores de opinião franceses. 

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Apesar de falarem português fluente, todos os idealizadores do Vin du Brésil são gringos. Curiosamente, eles mesmos parecem provar o próprio ponto: o vinho brasileiro agrada, sim, o paladar estrangeiro.

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Chance para experimentar

Mas é claro que internacionalizar a cultura do vinho do Brasil — um país que não tem tradição no setor, diferentemente dos vizinhos Chile e Argentina — não é tão simples assim. A primeira barreira para internacionalização do vinho nacional começa, ironicamente, com os brasileiros.

O próprio chef Benoit sentiu isso quando tomou a decisão de ter apenas vinhos nacionais na adega do seu renomado Esther Rooftop, em São Paulo. A princípio, alguns clientes não ficaram nada satisfeitos com a mudança, até se darem a chance de experimentar os rótulos de casa — algo que o próprio francês incentivou, dizendo que não era preciso pagar pela garrafa caso não gostassem.

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Essa abertura à experimentação tem rendido bons frutos para a viticultura nacional mundo afora. Entre várias anedotas de pessoas que foram positivamente surpreendidas pelo vinho brasileiro, Benoit conta de uma degustação às cegas que colocou lado a lado um vinho de Saint Emilion, terroir francês tradicional e apreciado pelos brasileiros, e um de Caxias do Sul.

O rótulo gaúcho não deixou a desejar.

“Ao contrário do que todo mundo pode pensar, um vinho brasileiro pode competir plena e tranquilamente com vinhos internacionais”, confirma o chef do Esther Rooftop.

Nesse sentido, há de se reconhecer o esforço das vinícolas brasileiras, que se aperfeiçoam com técnicas melhores, inspiradas em viagens para a Itália, a Espanha, Portugal e, claro, para a França. Em um ritmo à la JK, “os vinhos brasileiros ganham quatro anos em um, em termos de qualidade”, diz Benoit.

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Apesar disso, o empresário Giovanni Montoneri conta que ainda existe uma certa deficiência no que diz respeito à maturidade empresarial das vinícolas brasileiras. Em outras palavras, ainda é preciso investir em comunicação e criar mais força de marca para se fazerem conhecidas fora do território nacional.

Um futuro “bem lindo” para o vinho brasileiro

Enquanto os espumantes brasileiros já receberam um crivo de aprovação internacional há algum tempo — até pelo número de premiações já recebidas, principalmente para os rótulos da Serra Gaúcha — e os tintos também começam a trilhar seu caminho de reconhecimento, os brancos ainda engatinham, sendo vistos como “vinhos de segunda zona”.

Ainda assim, nos eventos promovidos até o momento pelo Vin du Brésil, nenhum vinho entre os 29 selecionados desagradou. Na verdade, a recepção foi até mais calorosa do que o esperado.

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Para 2026, a internacionalização do vinho brasileiro continua, começando por uma participação em uma feira especializada do setor viticultor, a Paris Wine. Além disso, a Vin du Brésil já prevê novos eventos para a primavera europeia com convidados franceses.

Além de conquistar o país “templo do vinho”, o projeto também tem ambições para levar os rótulos nacionais para a Itália e para a Suíça.

“O vinho brasileiro está crescendo em qualidade muito rapidamente. Eu acho que temos um futuro bem lindo, para dizer a verdade”, diz o chef Benoit.

De taça em taça, o vinho brasileiro vai deixando a síndrome de vira-lata para lá.

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