A Estrela Verde está apagando? Mudanças no Guia Michelin lançam dúvidas sobre selo sustentável
Selo concedido desde 2020 reconhece os restaurantes com práticas sustentáveis. No entanto, movimentos recentes apontam para seu desaparecimento nas plataformas do Guia Michelin, que se posiciona: 'a Estrela Verde continua existindo'

Em 2026, o Guia Michelin completa 100 anos de seu sistema de ranking estrelado, que desde o princípio tornou-se sinônimo de prestígio e excelência gastronômica. Por um século, restaurantes de todo o mundo têm elevado sua operação aos altos padrões técnicos da publicação. São critérios como qualidade, consistência e valor, que inspetores anônimos e profissionais avaliam para eleger os melhores entre os melhores.
Em 2020, essa história ganhou um novo capítulo, com a concessão das Estrelas Verdes, um reconhecimento aos lugares que adotam práticas sustentáveis relevantes e inovadoras. A implementação, que começou em 2021, já premiou mais de 500 restaurantes, acompanha uma preocupação crescente com a redução do impacto ambiental da gastronomia global.
No Brasil, restaurantes laureados pelo selo incluem A Casa do Porco, de Jefferson Rueda, reconhecido pela filosofia "do campo à mesa"; o Corrutela, de César Costa, que monitora a procedência das carnes e peixes servidos no espaço; e o Tuju, de Ivan Ralston, que avançou sobre a pesquisa de práticas de compostagem e otimização energética, além de dar visibilidade a produtores com manejo ético e sustentável.
No entanto, uma série de movimentos recentes parecem apontar, se não para a supressão, ao menos para uma aparente revisão na importância das Estrelas Verdes no universo do Guia Michelin. O anúncio de edições recentes do guia na Suíça e em Abu Dhabi sem qualquer menção ao selo parecem corroborar as suspeitas.
Um "desaparecimento silencioso"
A movimentação ganhou atenção de Nicholas Gill, jornalista e autor especializado em gastronomia, com passagens por títulos como o The New York Times e a revista Food & Wine. Em um texto publicado essa semana em seu Substack, Gill aponta para dois critérios que indicam que o Guia estaria silenciosamente removendo a categoria de Estrela Verde de suas plataformas e premiações.
Começando pelo portal do Guia Michelin, a categoria de Estrelas Verdes desapareceu dos filtros de busca por restaurantes. O site ainda inclui as distinções de três, duas e uma Estrelas Vermelhas, além do selo Bib Gourmand e de restaurantes selecionados. A procura por Green Stars, entretanto, não está mais disponível.
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Existe outro indício, porém, que parece reforçar ainda mais a teoria. Na última semana, o anúncio do Guia Michelin na Suíça levantou dúvidas sobre o posicionamento das Estrelas Verdes na cerimônia de premiação.
Tradicionalmente anunciadas antes das categorias de uma, duas e três Estrelas Vermelhas, a divisão das Estrelas Verdes foi relegada ao início da cerimônia, que ocorreu no último dia 20, na Lausana.
Na publicação com os vencedores da cerimônia suíça, um novo silêncio: ao todo, seis restaurantes foram laureados com o reconhecimento sustentável. No entanto, o texto com o resumo da premiação, não lista nenhum deles. Tampouco há qualquer menção às Estrelas Verdes, apesar do material distinguir todos os 544 espaços listados com uma, duas ou três Estrelas Vermelhas, além do selo Bib Gourmand.
Algo parecido ocorreu com Abu Dhabi, que recebeu a quarta edição da premiação essa semana, no hotel Emirates Palace Mandarin Oriental. No resumo dos premiados, no portal do guia, os principais vencedores são listados, bem como quatro outros reconhecimentos individuais, de coquetelaria excepcional, jovem chef, prêmio de serviço e abertura do ano. Ainda assim, não há sinal, menção ou reconhecimento às Estrelas Verdes no material.

A Estrela Verde continua existindo, diz o guia
Apesar das movimentações recentes, no entanto, a organização da premiação afirma que a Estrela Verde continua existindo. Procurado pela redação do Seu Dinheiro, o Guia Michelin enviou uma nota, reafirmando o compromisso do reconhecimento sustentável através do selo.
Sem detalhar as mudanças no portal ou nos anúncios das premiações recentes, a organização afirma que a Estrela Verde segue como "reconhecimento complementar" às distinções culinárias, as Estrelas Vermelhas. Confira a íntegra do posicionamento oficial abaixo:
O Guia MICHELIN é comprometido em promover uma comunidade de chefs dedicados e alinhados com os desafios da gastronomia do futuro. A Estrela Verde continua existindo: é um reconhecimento complementar às distinções culinárias (Estrelas Vermelhas).
Desde sua criação em 2020, a Estrela Verde MICHELIN reconheceu mais de 500 chefs pioneiros na liderança de práticas inovadoras que inspiram colegas, clientes e impulsionam uma gastronomia mais sustentável.
ATUALIZAÇÃO: nesta segunda-feira (27), a organização do Guia Michelin enviou uma declaração complementar ao posicionamento oficial realizado anteriormente, referente à disponibilidade do filtro de buscas pela Estrela Verde no site.
O Guia MICHELIN informa que, em seu site oficial, as iniciativas para uma gastronomia do futuro continuam destacadas nas páginas dos estabelecimentos selecionados.
Diversos recursos do site estão sendo redesenhados para melhorar a experiência do usuário — como acontece com qualquer produto digital em constante evolução.
Em breve, tanto o site quanto o aplicativo destacarão essa comunidade de chefs e seus compromissos, dando continuidade ao impulso do Guia MICHELIN na promoção de transições gastronômicas.
Um reconhecimento sustentável, afinal?
Seja como for, a mudança recente na exposição da Estrela Verde abre espaços para o debate e para críticas sobre a própria validade do reconhecimento em si. No artigo em que expõe a supressão silenciosa da premiação, Nicholas Gill pondera sobre a coerência em avaliar as práticas sustentáveis de um restaurante apenas pela comida servida a um inspetor anônimo em um prato:
"Como os inspetores podem saber? Sustentabilidade requer transparência. Virou conhecimento comum entre os restaurantes que eles podem conquistar uma Estrela Verde somente por publicarem um relatório vago sobre sustentabilidade todo ano, e estes [relatórios] são trocados e adaptados individualmente por cada restaurante. São proclamações ambíguas sobre agricultura regenerativa, redução de desperdício e licença remunerada. Mais que planilhas e gráficos técnicos, são listas de buzzwords feitas para planos de marketing. [O guia teria de] enviar inspetores independentes para observar a execução de cada prato, autorizados a inspecionar o equipamento e visitar as origens da maior parte dos ingredientes para que essas estrelas possuíssem qualquer peso real."
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