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A indústria do vinho tem enfrentado uma crise há tempos pela redução do consumo, tensões geopolíticas e mudanças climáticas; medida do país que é um dos maiores produtores da bebida no mundo visa combater esse cenário

Arrancar vinícolas foi a solução que a França encontrou para salvar sua indústria de vinhos de uma crise. No entanto, o que parece ser resolução também pode ser causador de outros problemas. Na última semana, o Ministério da Agricultura francês confirmou ter destinado 130 milhões de euros (em torno de R$ 715 milhões) para financiar um plano permanente de “arranque” (remoção) em vinhedos.
De acordo com o governo, a medida tem o objetivo de “reequilibrar a oferta” e “restaurar a viabilidade” de fazendas em dificuldade nas regiões mais vulneráveis. Esse processo envolve cortar e retirar as videiras e suas raízes do solo. Isso ocorre, geralmente, com o uso de equipamentos especializados, como arados profundos, e pode custar cerca de 1.000 euros (cerca de R$ 5.500) por hectare.
“O setor está sofrendo com uma situação cada vez mais delicada, marcada pelos efeitos das mudanças climáticas, que têm afetado repetidamente as colheitas há vários anos, pelo declínio contínuo no consumo de vinho – particularmente de vinhos tintos – e por grandes tensões geopolíticas”, afirmou o Ministério da Agricultura francês em comunicado.
“Este novo e significativo esforço financeiro, apesar de um contexto orçamentário particularmente difícil e sujeito à aprovação de um projeto de lei orçamentária, demonstra a determinação do governo em salvar nossa indústria vitivinícola a longo prazo e permitir sua recuperação”, complementou a Ministra da Agricultura, Annie Genevard.
Segundo Genevard, a França vem enfrentando uma crise “de forma consistente” há vários anos. O país é um dos maiores produtores de vinho do mundo e detentor de 11% dos vinhedos globais.
Como mencionado por ela no comunicado, os motivos incluem tensões geopolíticas, queda contínua no consumo de vinho e efeitos das mudanças climáticas.
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As tarifas de Donald Trump complicaram ainda mais esse cenário. A ameaça de taxação de 200% sobre bebidas alcoólicas europeias no início feita por ele no início do ano, não se concretizou.
No entanto, alguns meses depois foi anunciada uma tarifa de 15% sobre exportações para os EUA. O país é um mercado crucial para o vinho francês, segundo a Federação Francesa de Exportadores de Vinhos e Destilados.

De acordo com o Euronews, especialistas temem que as tarifas, somadas às variações cambiais, possam cortar cerca de 1 bilhão de euros (em torno de R$ 5,5 bilhões) da receita anual das vendas francesas de vinhos e destilados.
O grande desafio deste cenário é a sobreprodução, ou seja, produzir mais vinho do que o mercado consome. Essa dinâmica pressiona os preços para baixo, o que reduz os rendimentos dos produtores.
Manter uma vinha sem produzir, no entanto, continua a gerar custos (manutenção, controle de doenças, etc.). Assim, a operação torna-se inviável quando o preço do vinho cai demais.
Segundo o Le Monde, neste verão, várias regiões da França entraram em alerta de calor, com temperaturas chegando a 43°C em partes de Charente e Aude. O calor extremo está entre os principais fatores por trás de um grande incêndio que queimou 160 quilômetros quadrados em Aude.
“Essa sucessão de ondas de calor também cria problemas de abastecimento de água, já que chove menos e as reservas subterrâneas diminuem a cada ano”, explica Pierre Metz, sócio do vinhedo Domaine Alain Chabanon, em Terrasse du Larzac, no sul da França, ao Euronews. “Algumas regiões de grande produção só conseguem sobreviver com irrigação, que se torna cada vez mais cara com a falta de água.”
Em junho, a Agência Europeia de Secas classificou um terço da Europa em condições de seca, com 10% do continente em estado de crise. Na França, mais de 30 mil habitantes tiveram seu fornecimento de água interrompido.
Esse plano consiste em oferecer subsídios a produtores que aceitem arrancar definitivamente suas videiras, ou seja, remover vinhas e raízes do solo, com o objetivo de reduzir a área total de vinhedos no país.
A quantia de 130 milhões de euros representam o orçamento total do programa, que será dividido entre os produtores que arrancarem suas videiras. O subsídio cobrirá custos de erradicação das vinhas e compensará parcialmente a perda de renda futura naquele terreno.

De acordo com o Agroview, sistema de inteligência de dados para empresas do agronegócio, o plano é voluntário: cada viticultor pode aderir ou não. Quem aderir, se compromete a tirar aquela área da produção de uvas para vinho de forma duradoura.
Já o 365Economist indica que o plano não visa eliminar globalmente as vinhas francesas. Isto é, envolve só uma parte da área total plantada, focando em partes consideradas excedentárias ou inviáveis economicamente. Segundo a revista Vitisphere, o setor aponta que há 100 mil hectares de vinhas “excedentários” no país.
Além disso, não substitui políticas de adaptação climática (como pesquisa e replantio de castas mais resistentes), mas funciona como uma medida de “saída” para produtores e zonas onde a crise de mercado e de clima tornou a viticultura estruturalmente pouco viável.
Como Pierre Metz, sócio do vinhedo Domaine Alain Chabanon, explica ao Euronews, com a redução dos preços por parte dos vendedores, como resultado da queda no consumo, há também uma diminuição no valor pago aos produtores.
Metz afirma que eles recebem hoje apenas cerca de 0,80 de euros (em torno de R$ 4,40) por litro de vinho Bordeaux genérico. “A solução proposta pelos grupos de lobby [associações] dos produtores é reduzir a produção”, acrescenta.
Isso porque, de acordo com o executivo, um vinhedo improdutivo ainda gera custos de manutenção para evitar a disseminação de doenças — “e há multas a pagar caso ele não seja mantido”, acrescenta.
De acordo com o veículo, a ideia de arrancar vinhedos não é nova. Acredita-se que tenha surgido no século 1, quando o imperador romano Domiciano ordenou o arrancamento de 50% das videiras da Gália (região que hoje corresponde aproximadamente à França), temendo que competissem com o vinho romano.
Desde então, subsídios para arrancamento já foram implementados outras vezes, e hoje a prática é considerada mais econômica do que destilar ou armazenar o excedente.
De acordo com o Euronews, arrancar vinhedos permanentemente traz riscos específicos como perturbação da fauna e a redução de áreas que ajudam a prevenir incêndios.
A Europa enfrenta um dos períodos mais críticos em relação a esses desastres. Isso porque as secas e altas temperaturas impulsionadas pelas mudanças climáticas tornam várias regiões mais vulneráveis. Segundo a Comissão Europeia, a área sob risco de incêndios na França deve crescer 17% até 2040.

No entanto, vinhedos bem conservados podem fazer parte da solução. De acordo com o departamento de agricultura e desenvolvimento da Comissão Europeia, parcelas de videiras “bem cuidadas” podem funcionar como barreiras contra incêndios. Elas interrompem a continuidade de vegetação inflamável e, assim, retardam o avanço das chamas.
Metz explica ao Euronews que o risco de incêndios florestais pode ser mitigado com o plantio de sebes, a aração de terrenos com vegetação rasteira e a manutenção geral do solo. No entanto, isso acarretaria custos elevados, que os vinhedos que optam por arrancar suas videiras podem não ter condições de arcar.
As videiras arrancadas também podem abrir espaço para o cultivo de hortaliças e cereais, mas a maioria dos agricultores opta por deixar a terra nua, pois isso também exige investimentos iniciais.
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