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Biblioteca fica na Livraria Lello, no Porto, e reúne 100 obras sobre poder, censura, memória e liberdade

Quem acompanha Dua Lipa nas redes sociais já sabe que a cantora é uma leitora voraz. Agora, a britânica acaba de abrir sua própria biblioteca em Portugal, com um acervo permanente de 100 obras que já foram proibidas, censuradas ou que desafiaram estruturas de poder.
Trata-se da Biblioteca Manifesto, nova coleção permanente localizada no auditório da centenária Livraria Lello, a principal do Porto.
Nas palavras de Dua Lipa, a biblioteca é “um santuário dedicado aos livros que desapareceram, aos autores cuja coragem desmascara as estruturas de poder e controle, e aos leitores que se recusam a que lhes digam que livros podem ler”.

O projeto conversa com o posicionamento da britânica de ir além da música pop. Isso porque, nos últimos anos, a cantora britânica transformou a leitura em uma extensão de seu trabalho. Primeiro com o Service95, sua plataforma dedicada a lifestyle, e depois com o Service95 Book Club, clube de leitura em que recomenda um livro por mês e entrevista autores contemporâneos.

Mais do que reunir livros que foram oficialmente “proibidos”, o acervo olha para obras que incomodaram governos, foram alvo de debate público, saíram de currículos escolares ou foram retiradas de bibliotecas, por exemplo. Nesse sentido, a Biblioteca Manifesto divide sua coleção em quatro eixos:
Na seção dedicada ao poder, entram obras que discutem quem tem influência, quem desafia essa influência e quem define as histórias que chegam até nós. Entre os títulos estão O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e 1984, de George Orwell.
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Já a seção de controle olha para os mecanismos que limitam a liberdade de pensamento — da vigilância à propaganda, passando por formas mais sutis de pressão institucional. É ali que aparecem livros como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, O Processo, de Franz Kafka, e A Polícia da Memória, de Yoko Ogawa.
Em voz, o foco está em perspectivas historicamente excluídas ou deixadas à margem. A lista inclui A Cor Púrpura”, de Alice Walker, Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, e Brevemente Somos Lindos, de Ocean Vuong.
Por fim, a seção de memória reúne livros que lidam com história, apagamento, guerra, ditadura, exílio e injustiça. Entre os nomes escolhidos estão Pachinko, de Min Jin Lee, Patriota, de Alexei Navalny, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.
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Para inaugurar a coleção, a Dua Lipa escolheu Olhos d’Água, de Conceição Evaristo, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea.

Publicado em 2014, o livro reúne contos que abordam questões como racismo, pobreza, violência, maternidade, ancestralidade e vida cotidiana de mulheres negras no Brasil. Em 2021, a obra ganhou os holofotes depois que uma professora que o utilizava em aula foi afastada da escola em que lecionava em Salvador.
Como a Biblioteca Manifesto fica dentro Livraria Lello, é preciso adquirir um ingresso na plataforma da livraria portuguesa para visitação, que custa a partir de 15,95 euros (cerca de R$ 94). O valor, porém, funciona integralmente como voucher, que pode ser abatido na compra de um livro na própria livraria (desde que seja um título da editora da casa).

Se ler é uma forma de acessar novas ideias e versões da realidade, muitos livros eram vistos como “ameaça” a instituições, regimes ou governos. Não à toa, a proibição de obras é uma prática comum ao longo da história.
Na Europa, um dos exemplos mais conhecidos foi o Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos da Igreja Católica. Criado no século 16, o índice reunia obras consideradas heréticas ou contrárias à fé e à moral católica, como Os Miseráveis, de Victor Hugo, e “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin. Para se ter ideia, a lista só foi abolida oficialmente em 1966, depois de cerca de quatro séculos de existência.
Já no século 20, o controle sobre livros também apareceu em regimes autoritários, como é o caso da queima públicas de livros durante a Alemanha nazista.
No Brasil, a censura literária era comum durante a Ditadura Militar. Entre 1964 e 1985, cerca de 140 livros de autores brasileiros foram oficialmente vetados pelo Estado. Entre eles, Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, censurado em 1976.
Nos Estados Unidos, o debate sobre livros banidos ganhou força nos últimos anos, especialmente em escolas e bibliotecas públicas. Em 2025, a American Library Association registrou tentativas de censura em 4.235 títulos, o segundo maior volume já documentado pela entidade. Do total, 39% tratavam de experiências de pessoas LGBTQIA+ e pessoas racializadas.
Já no Brasil, casos de livros que incomodam escolas ou secretarias de educação também não são raros. Já chegaram a ser retirados de escolas tanto livros nacionais, como vencedor do Prêmio Jabuti de 2021 O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, quanto clássicos como Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.
“Você está convidado a nos visitar e a decidir por si mesmo o que deve estar nestas prateleiras”, afirmou a cantora. “Por vezes, a coisa mais subversiva que se pode fazer é ler um livro e, depois, falar sobre ele.”
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