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Estudo revisita os dados que consagraram as zonas azuis e levanta dúvidas sobre os registros de idade por trás dos chamados “paraísos da longevidade”

A ideia de verdadeiros paraísos da longevidade, as chamadas zonas azuis, sempre despertou fascínio. Uma ilha japonesa, uma região montanhosa da Itália, uma península grega, uma área rural da Costa Rica. Lugares onde, aparentemente, as pessoas vivem além da média global. Não só vivem mais, mas envelhecem melhor: chegam aos 90, aos 100 anos, com autonomia, saúde e vida ativa.
O conceito ganhou nome no início dos anos 2000: Blue Zones. Em pouco tempo, virou um fenômeno global. Documentários, livros best-sellers, palestras, consultorias, programas de saúde pública e turismo de bem-estar ajudaram a transformar a longevidade em um mercado bilionário. Segundo estimativas da Data Bridge, a chamada economia da longevidade deve movimentar US$ 27 trilhões (R$ 135,15 trilhões) até 2030.
Agora, porém, pesquisadores passaram a questionar essa narrativa. Um estudo demográfico recente revisitou os dados que ajudaram a consagrar essas regiões e levantou dúvidas sobre a precisão dos registros de idade que sustentam parte da fama das zonas azuis.
O termo “Zona Azul” surgiu no início dos anos 2000, quando pesquisadores passaram a mapear regiões do mundo com concentração incomum de centenários (pessoas que vivem 100 anos ou mais). A expressão foi popularizada pelo jornalista e explorador Dan Buettner, em parceria com a National Geographic, após uma série de reportagens e estudos sobre longevidade.
No mapa original, Buettner circulava essas áreas com uma caneta azul, daí o nome Blue Zones (“Zonas Azuis”). Com o tempo, cinco regiões passaram a formar a lista mais conhecida: Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Icária, na Grécia; Península de Nicoya, na Costa Rica; e Loma Linda, nos Estados Unidos.

Esses locais passaram a ser estudados por compartilharem hábitos considerados favoráveis ao envelhecimento saudável: alimentação majoritariamente baseada em vegetais, forte senso de comunidade, rotina com movimento diário, vínculos familiares próximos, menor nível de estresse crônico e propósito de vida bem definido.
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Em 2024, no entanto, o demógrafo Saul Justin Newman, pesquisador do Instituto de Envelhecimento Populacional da Universidade de Oxford, levou esse debate ao centro da comunidade científica ao publicar um estudo questionando as bases estatísticas por trás das blue zones. O trabalho ganhou repercussão internacional e acabou rendendo a ele o Prêmio Ig Nobel, conhecido por destacar pesquisas provocativas e fora do convencional.
Newman, no entanto, não está direcionado a crítica aos hábitos de vida associados às blue zones. O alvo são os registros que sustentam a fama dessas regiões como territórios de longevidade. Ao revisar bases de dados envolvendo supercentenários ele encontrou uma série de inconsistências documentais.
Entre elas estavam certidões ausentes, datas improváveis, excesso de aniversários registrados no primeiro dia do mês, duplicidade documental e indivíduos oficialmente contabilizados como vivos décadas após a morte.
Em alguns casos, chamou atenção uma coincidência difícil de ignorar: áreas com grande concentração de centenários também estavam entre as mais marcadas por pobreza, documentação precária e estruturas burocráticas frágeis.
Newman levanta a hipótese de que erros administrativos podem explicar parte da longevidade extrema registrada nessas populações. Em termos mais simples, muitos dos centenários celebrados nesses mapas talvez nunca tenham realmente alcançado as idades que lhes foram atribuídas.
Entre todos os casos, nenhum se tornou tão simbólico quanto Okinawa, no Japão. Por décadas, a ilha é tratada como referência mundial em envelhecimento saudável. A região entrou para o imaginário coletivo como exemplo de longevidade associada à dieta rica em vegetais, consumo reduzido de alimentos processados, vida comunitária intensa e atividade física incorporada ao cotidiano.
Mas os próprios registros japoneses acabaram levantando dúvidas. Em 2010, uma investigação do governo japonês revelou que mais de 230 mil pessoas registradas como tendo 100 anos ou mais não puderam ser localizadas. Parte delas já havia morrido há muito tempo. Outras simplesmente desapareceram dos registros reais, embora continuassem existindo no papel.
O episódio abriu um debate nacional sobre a confiabilidade histórica dos registros de idade, especialmente em documentos anteriores ao pós-guerra. Isso não significa que Okinawa não tenha centenários reais, ou que sua longevidade seja fictícia.

De acordo com Newman, taxas expressivas de erro vêm sendo identificadas nessas regiões. No estudo, ele cita o caso da Itália, onde, em 1997, autoridades descobriram que cerca de 30 mil pessoas já mortas ainda constavam como beneficiárias de pensão.
Já na Costa Rica, uma revisão do censo revelou, em 2008, que 42% dos habitantes com mais de 99 anos haviam informado a idade incorretamente. Após a correção parcial desses registros, a região de Nicoya, frequentemente citada como uma das principais Zonas Azuis do planeta, encolheu cerca de 90% em número de centenários, enquanto seus índices de longevidade avançada despencaram do topo do ranking mundial para perto das últimas posições.
A Grécia, por exemplo, revisou seus próprios números e constatou que ao menos 72% dos centenários registrados no censo já haviam morrido ou permaneciam nos registros ligados a pagamentos de pensão indevidos. Nos Estados Unidos, uma análise publicada em 2019 encontrou inconsistências em pelo menos 17% dos registros de centenários: bastou cruzar dois arquivos públicos de texto para perceber que as datas simplesmente não coincidiam.
A discussão ganha ainda mais força porque a longevidade nunca coube perfeitamente em fórmulas. Quando María Branyas Morera morreu, em agosto de 2024, era considerada a pessoa mais velha do mundo, com 117 anos. A espanhola, nascida nos EUA, atribuía sua longevidade a uma rotina disciplinada: dieta mediterrânea, boas noites de sono, estabilidade emocional e convívio familiar constante.
No extremo oposto da narrativa está Winston Churchill. Ele fumava charutos diariamente, consumia álcool com frequência e evitava exercícios físicos. Ainda assim, morreu aos 90 anos, em uma época em que a expectativa de vida era significativamente mais baixa do que nos dias atuais.

Os dois casos, frequentemente lembrados nesse debate, ajudam a expor uma contradição conhecida da ciência do envelhecimento, a de que hábitos importam, mas não explicam tudo. Genética, ambiente, renda, acesso à saúde, sorte estatística e fatores ainda pouco compreendidos pela medicina também entram nessa conta.
Críticos, inclusive, afirmam que a literatura científica publicada sobre as Zonas Azuis é relativamente pequena em comparação com a atenção que o conceito recebe. Além disso, há questionamentos sobre possíveis interesses econômicos envolvidos na consolidação da ideia dessas zonas.
A origem das Zonas Azuis também divide opiniões. No fim dos anos 1990, pesquisadores italianos lançaram um estudo sobre longevidade na Sardenha. O que chamou atenção foi a concentração de centenários na região montanhosa de Ogliastra, onde havia uma proporção incomum de homens que chegavam aos 100 anos, algo raro nas estatísticas de envelhecimento.
Quando o médico Gianni Pes apresentou os dados, em 1999, parte da comunidade científica reagiu com desconfiança, suspeitando de erros nos registros. Para verificar os números, Pes se uniu ao demógrafo belga Michel Poulain e os dois passaram meses cruzando documentos e visitando municípios da ilha.
O conceito ganhou projeção global poucos anos depois com o jornalista Dan Buettner, que levou a ideia para uma reportagem de capa da National Geographic. A partir daí, outras regiões como Okinawa, Península de Nicoya e Icária passaram a integrar a lista.

Com o tempo, porém, o que começou como pesquisa acadêmica virou também marca e negócio. Buettner registrou a marca “Blue Zones” nos Estados Unidos, criou uma empresa de consultoria e expandiu o conceito para cidades interessadas em promover envelhecimento saudável.
Segundo a revista Science, Poulain não ficou satisfeito com o rumo comercial que as Zonas Azuis estavam tomando e, por isso, decidiu romper o vínculo com Dan Buettner. Hoje, existem duas listas “oficiais” de Zonas Azuis: uma associada ao projeto de Buettner e outra vinculada ao trabalho científico de Michel Poulain. Em comum, ambas incluem quatro territórios: Sardenha, Okinawa, Península de Nicoya e Icária. No entanto, elas divergem em alguns: Buettner inclui Loma Linda e, mais recentemente, Singapura, enquanto Poulain acrescenta a ilha caribenha de Martinica.
Essas diferenças, inclusive, alimentam um debate ainda em aberto sobre até que ponto as Zonas Azuis dizem respeito à ciência da longevidade ou à indústria da longevidade.
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