“Dia D” resgata um Steven Spielberg romântico que ainda acredita em nós
Diretor revisita carreira de ficção científica alienígena em filme que estreia hoje; o que filme diz sobre Spielberg hoje?

Há algo de cósmico no timing de Dia D (Disclosure Day). Semanas antes da estreia, que acontece hoje no Brasil, o governo americano liberou um arquivo de documentos sobre fenômenos aéreos não identificados, os UAPs, sigla que aposentou o velho e desgastado OVNI. Já por aqui, um influenciador de Campo Largo, no Paraná, viralizou ao registrar luzes e sons estranhos no sítio onde vive, no começo do mês. Mayk Leão saltou de 40 mil para mais de 2 milhões de seguidores, teve a propriedade supostamente invadida por curiosos e parte do país virou detetive amador, esmiuçando coordenadas no Google Maps atrás de uma resposta.

É exatamente sobre essa pulsão humana, essa necessidade tátil de entender, de investigar, de tocar o inexplicável, que Steven Spielberg construiu seu novo filme. A vida real fez a campanha de marketing que dinheiro nenhum compraria em uma coincidência quase paranormal. E talvez seja por isso que Dia D (Disclosure Day) começa nos desorientando de propósito com uma premissa básica: “nós merecemos saber”.
A resposta e a pergunta
A trama, escrita por David Koepp a partir de histórias do próprio diretor, acompanha Daniel Kellner (Josh O'Connor), ex-funcionário de uma corporação-sombra que guarda, desde os anos 1970, as provas de que não estamos sozinhos… e que decide entregá-las ao mundo. Do outro lado do país, a meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt) acorda falando línguas que nunca aprendeu e emitindo, ao vivo na TV, cliques que só Daniel compreende. Entre os dois, Noah Scanlon (Colin Firth) comanda uma caçada como o burocrata convicto de que a verdade dos fatos destruiria a humanidade.

O filme exige do espectador certo tempo até situar o enredo. Mas, longe de ser defeito, esse "quê" de confusão inicial é o que nos coloca no mesmo lugar de quem assiste a um vídeo tremido de luzes no céu. Precisamos investigar não só o tema, mas o filme em si. Spielberg nos transforma em ufólogos da sua própria narrativa por pouco mais de uma hora.
E aqui, aliás, mora a primeira camada do longa-metragem: o ocultamento como sintoma. Dia D (Disclosure Day) entende que o segredo de Estado não nasce da maldade, mas do medo. O receio do pânico generalizado, a desconfiança no outro, os conflitos antinaturais de uma espécie que estranha a si mesma antes de estranhar qualquer visitante. Como nos comportaríamos se soubéssemos que não estamos mais sozinhos no universo?
O filme faz a pergunta e tem inclusive a audácia de respondê-la: curiosamente, pelo avesso. É o medo e a dúvida, mas também a fé e a esperança, esses sentimentos mais humanos que existem, que revelam, no fim, que nunca estivemos sozinhos. Porque dividimos exatamente as mesmas convicções.

Spielberg de volta para casa
O que vemos na telona é um Spielberg romântico, que depõe contra tudo o que o cinema convencionou chamar de "invasão extraterrestre”. Um Spielberg que volta a E.T. O Extraterrestre, por exemplo, que reencontra o deslumbramento de Jurassic Park, aquele de olhar de boca aberta, fixado, como quem se esquece de que o punhado de pipoca na mão tinha destino certo.
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Um dos diretores mais aclamados da história do cinema segue sendo essencialmente visual. Trabalhando o fantástico não como espetáculo de destruição, mas como conexão além do humano. A aposta de Spielberg não está no que vemos, mas no que sentimos diante do que não conseguimos enxergar. Aliás, um trabalho bem sinestésico, vale mencionar. Tato, audição, intuição: está tudo ali.
Perto dos 80 anos, Spielberg mostra forma máxima em uma construção marcada pela ação dosada e a contemplação desconcertante. E aqui vale o registro da experiência mais reveladora, em peno 2026: uma sala de cinema em silêncio absoluto. Atenta, inerte, sem que se ouvisse um mastigar ou respiração. Não por choque, diga-se, mas por, talvez, uma projeção coletiva de um "e agora?" quase audível. Uma plateia inteira suspensa dentro desta e potencialmente de muitas outras perguntas próprias.

As atuações sustentam esse peso. Emily Blunt entrega o melhor trabalho de sua carreira recente. Sua personagem é arrastada por instintos que não controla e encontra propósito num caos interno quase traumático. Não à toa, vem dela a íris azul-claro que carrega o pôster e também o filme. E Hugo Wakefield (Colman Domingo), como o desertor que guia os protagonistas, é a bússola moral da história: clareza, ternura, esperança e humanidade.
Em um cenário onde a perspectiva de guerra assombra mundialmente, Dia D (Disclosure Day) não se importa em chocar com a possibilidade de discos voadores existirem. Para Spielberg, não há dúvida. Este é, na verdade, um filme que convida à escuta. E que aposta, com um romantismo que só o diretor ainda se permite, que a resposta passa menos pelo céu e mais pela janela de nossa alma.
Dia D (Disclosure Day) - Universal Pictures | Direção: Steven Spielberg | Roteiro: David Koepp | Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Eve Hewson | 145 min | Em cartaz
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