Como vive uma bailarina da Ópera de Paris? A rotina de Luciana Sagioro, primeira brasileira a chegar lá
Luciana Sagioro fala sobre carreira na dança, vida fora dos palcos e posição como CEO da sua empresa, LS Groupe

Luciana Sagioro começou a dançar ballet aos três anos. Aos oito, decidiu que seria bailarina profissional. Se mudou do interior de Minas Gerais para o Rio de Janeiro para ter acesso às melhores escolas dança. E até os 15 anos, encarava sete horas de treino por dia, de segunda a sábado (conciliando com os estudos na parte da manhã).
O sonho se tornou realidade aos 16 anos, quando a bailarina conquistou algo até então impossível para um brasileiro: o convite para integrar o Ballet da Ópera de Paris – uma das companhias de dança mais prestigiadas do mundo e a mais antiga em atividade –, com direito a um contrato vitalício.
Hoje, aos 20 anos, Luciana Sagioro já foi promovida dentro da Ópera. E em meio a jornadas de trabalho que podem ocupar todos os sete dias da semana, ela ainda arruma tempo para exercer o papel de CEO de sua própria empresa de suplementos, a LS Groupe.

Como é ser bailarina profissional no Ópera de Paris, companhia de ballet mais antiga do mundo?
O suntuoso Palais Garnier, teatro de 1875 cuja arquitetura neobarroca inspirou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e de São Paulo, é a principal casa e local de ensaios do Ballet da Ópera de Paris. No entanto, a rotina dos bailarinos que trabalham ali está longe de ser glamurosa.

“Quando a companhia está em temporada, trabalhamos todos os dias, de domingo a domingo. A carga horária é extremamente intensa: começo às 9h, com aula na parte da manhã, ensaio na parte da tarde e espetáculo na parte da noite. Então eu não saio de lá: almoço, janto, tomo banho, faço tudo lá dentro. Eu passo mais tempo na Ópera do que na minha própria casa”, conta Luciana Sagioro, que em entrevista ao Seu Dinheiro, estava em temporada com o espetáculo La Dame aux camélias.
Atualmente no posto de “Corifeu” (ou em francês, Coryphée), Luciana é responsável por liderar o corpo de baile, e precisa estar preparada para substituir papéis solistas a qualquer momento.
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Mesmo no segundo nível da hierarquia da companhia, a brasileira já conquistou papéis como solista, isto é, coreografias em que dança sozinha. Foi o caso, por exemplo, de sua participação no espetáculo de Paquita e Bela Adormecida, em 2025.
A hierarquia do Ballet da Ópera de Paris
A companhia francesa é formada por 154 bailarinos (sendo a maioria deles graduados pela Escola do Ballet da Ópera). A média de idade, em torno de 25 anos, faz dela uma das cias mais jovens da atualidade.
A instituição possui uma hierarquia composta por cinco cargos. O primeiro deles é o “Quadrille”, equivalente ao corpo de baile. Depois vem o “Coryphée”, cargo atual da brasileira, seguido por “Sujet”, reservado aos solistas. Em seguida, aparecem os “Premiers Danseurs”, isto é, os principais solistas.

O cargo mais alto é o de “Étoile” (estrela, em português), dedicado aos bailarinos que executam os papéis mais importantes do espetáculo.
O título máximo, hoje composto por 15 artistas, é o único concedido por nomeação da direção da Ópera. De resto, para ter a chance de ser promovido na companhia francesa, é obrigatório participar de um concurso interno em que cada bailarino deve apresentar duas variações clássicas para uma banca de jurados.
“Todo ano você tem o direito de participar do concurso e buscar uma promoção. Diferente de outras companhias, onde o cargo é definido pela escolha pessoal do diretor, na Ópera, a decisão é feita em consenso entre a banca, formada por diretores, professores e ensaiadores da casa”, explica a brasileira.
Preparação física e mental
Em uma carreira na qual o corpo funciona como instrumento de trabalho, a disciplina física e autocuidado ocupam papel central na rotina de Luciana.
“Para mim, é fundamental trabalhar para prevenir lesões. Por isso, tenho toda uma equipe de nutricionista, ortopedista, fisioterapeuta e coach. E não se trata só do físico, mas do mental também: quando o atleta está bem emocionalmente, o corpo funciona junto”, explica.
Além do esforço físico, há também o controle psicológico para lidar diariamente com um meio marcado pela alta performance e busca da perfeição.
“A dança é um dos ambientes mais vaidosos e competitivos que eu já vivi. Afinal, todo mundo está buscando o mesmo objetivo final, a mesma vaga. Por outro lado, a competição de uma companhia profissional é saudável. As pessoas não desejam que o outro piore, mas sim que elas mesmas melhorem”, compartilha Luciana.

Os bônus (e ônus) da profissão
No Ballet da Ópera de Paris, é possível manter uma boa qualidade de vida sendo bailarina profissional. Ao Seu Dinheiro Lifestyle, Luciana Sagioro revela que seu salário atual a permite manter uma vida confortável na capital da França, sem ajuda financeira da família. A brasileira conta que também investe financeiramente no Brasil e na Europa.
A companhia francesa garante uma série de benefícios aos bailarinos, especialmente aos que possuem contrato vitalício, como é o caso de Luciana. Além do plano de saúde oferecido pela Ópera, há incentivos ligados à mobilidade e moradia, facilidades financeiras comuns ao sistema francês.
No entanto, nem tudo são flores. Para chegar à companhia francesa, Luciana abriu mão desde cedo de uma infância convencional. Mudou-se sozinha para o Rio aos oito anos, viveu longe da família durante a adolescência e cresceu em uma rotina marcada por treinos diários, pressão constante e tempo livre limitado – realidade que se estende até hoje.

Fora dos palcos, ainda há tempo para empreender
Em paralelo com a dança, Luciana Sagioro se dedica ao universo do empreendedorismo e do wellness. A bailarina é sócia majoritária da LS Groupe, sua marca de suplementos lançada em julho de 2025.
“Eu sempre precisei de energia no meu dia a dia, e as pessoas perguntavam o que eu consumia para ter tanta disposição”, conta a artista. Foi assim que nasceu a ideia para o primeiro produto da marca: a Vitalité, bala de caramelo com taurina e cafeína pensada para funcionar como uma fonte rápida de energia.

Presente sobretudo no e-commerce, a LS Groupe já prepara um segundo lançamento ainda neste semestre.
Mesmo vivendo em Paris, Luciana participa ativamente das decisões estratégicas da empresa ao lado da mãe, Ana Livia Delgado, também sócia-fundadora do negócio — e de Handrey Schaeffer, um terceiro parceiro de negócios. Além deles, a empresa conta com cinco funcionários fixos, além de uma rede de colaboradores freelancers.
A rotina empresarial acontece nos intervalos da vida na Ópera: reuniões remotas durante folgas, alinhamentos mensais e acompanhamento das operações da marca.
Quando sobra um tempinho livre, Luciana aproveita para se desconectar do trabalho. “Amo ler, correr e passar tempo com as pessoas que eu amo”, conta.
E os planos não param por aí
Entre a carreira de bailarina profissional na Ópera de Paris e de empresária no LS Groupe, Luciana Sagioro ainda sonha em concretizar outros planos no futuro.
Ao Seu Dinheiro Lifestyle, dividiu um deles: a criação de um projeto social voltado à formação de jovens bailarinos brasileiros. Ela explica:
“Quero ajudar pessoas que têm os mesmos sonhos que eu tive, mas não os mesmos privilégios. Talvez esse seja um dos meus propósitos: mostrar que sonhos que parecem impossíveis podem, sim, acontecer”.
“Me falavam que era impossível”: a trajetória de Luciana Sagioro para chegar até a Ópera de Paris

Natural de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, Luciana sabia que dificilmente conseguiria construir uma carreira internacional permanecendo na cidade onde nasceu. Foi então que começou a pesquisar escolas de formação profissional em dança pelo Brasil.
Entre elas, encontrou a Petite Danse, no Rio de Janeiro, responsável por formar nomes como Mayara Magri, hoje primeira bailarina do Royal Ballet de Londres.
Depois de meses de negociação familiar, os pais a deixaram se mudar para a capital carioca, com a condição de que suas notas continuassem boas na escola. A partir daí, aulas, ensaios, competições: tudo foi pensado de forma estratégica.
“Junto dos meus pais e dos meus professores de dança, estruturamos um planejamento de carreira dos meus oito aos 15 anos, sabendo exatamente por quais concursos eu passaria até chegar no objetivo final: o Prix de Lausanne”, revela a artista.
Considerado a “Copa do Mundo” para os bailarinos, trata-se da principal competição de ballet juvenil do mundo, funcionando como a porta de entrada para grandes companhias internacionais.
A estratégia funcionou
Aos 15 anos, Luciana conquistou o terceiro lugar mundial no concurso suíço (prêmio de Jovem Promessa/Bourse Jeune Espoir) e ainda recebeu o Prêmio de Favorita do Público.
“Ganhei mais de oito ofertas de bolsas de estudo e contratos no mundo inteiro. Mas a Ópera de Paris era meu sonho pela tradição, pelo peso histórico e pelos bailarinos que passaram por lá”, conta Luciana.
A companhia escolhida pela mineira é uma das mais disputadas do mundo. A instituição funciona quase como um sistema fechado: crianças entram ainda muito novas na Escola da Ópera de Paris, passam anos sendo treinadas na técnica francesa para, depois, disputarem vagas para o corpo de baile da companhia. Não à toa, cerca de 90% dos bailarinos da Ópera são franceses.
Em setembro de 2022, a brasileira entrou na escola de formação da Ópera. Menos de um ano depois, aos 16 anos, foi contratada pela companhia com um contrato vitalício, vínculo que garante o direito de permanecer na instituição até a aposentadoria, prevista aos 42 anos. E em meio a tudo isso, ainda terminou o ensino médio da França (porque os estudos, afinal, eram inegociáveis).
“Me falavam que a Ópera de Paris era impossível para alguém do Brasil porque ninguém tinha chegado antes”, diz. “Mas eu cheguei, e é como se todo aquele esforço valesse a pena.”

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