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Na véspera da quinta edição, Paulo Werneck detalha a estratégia de guerrilha que transformou o Pacaembu em ponto de encontro de leitores, livreiros e editoras independentes

A Feira do Livro, realizada anualmente na Praça Charles Miller, ao lado do Pacaembu, chega a sua quinta edição. Organizada desde 2022 pela Associação 451, responsável pela revista Quatro Cinco Um, a feira conta com mais de cem atividades gratuitas ao longo de nove dias. Entre 30 de maio e 7 de junho, centenas de livreiros e autores se reúnem aos pés do Estádio do Pacaembu. No roteiro, entram lançamentos, debates e sessões de autógrafos. Além de aproximar leitores e autores, a feira também funciona como uma feira de mercado, conectando empreendedores e profissionais do livro.

Paulo Werneck, idealizador da feira e coordenador do evento, junto de Maria Clara Villas, conversou com Seu Dinheiro sobre A Feira do Livro. A seguir, ele detalha como o evento adota uma estratégia de guerrilha para levar o mercado editorial para o espaço público. Como propósito, cita a formação de leitores e sustentabilidade de pequenas editoras durante uma crise de leitura no país.
Além de jornalista e tradutor, Werneck também foi editor na Cosac Naify e na Companhia das Letras, o maior grupo editorial brasileiro. Como editor foi o criador e responsável pelo caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo. Lançou em 2017 Quatro Cinco Um, especializada na cobertura de livros e literatura. Atualmente, a revista conta com mais de cinco mil assinantes e vende sete mil exemplares físicos mensalmente.
Werneck também foi o responsável pela organização da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, entre 2014 e 2016. A experiência lhe ajudaria a formular o projeto da feira paulistana.
“A FLIP é especial, nunca teremos aquele céu, o mar e a arquitetura de Paraty em São Paulo, mas temos a arquitetura do Pacaembu. E a feira não seria a mesma se fosse no estacionamento de um shopping.”

O espaço escolhido por Werneck remete imediatamente ao binômio inesperado entre futebol e livros, coisas que normalmente não se misturam, fato confirmado pelo próprio Werneck:
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“Acho um assunto obrigatório no Brasil, mas ao mesmo tempo, temos grandes autores que falam de futebol. Como o Chico Buarque, que morava ao lado do estádio e assistia aos jogos por cima do muro de casa.”
O Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, conhecido apenas pelo nome do bairro que ajudou a fundar, o Pacaembu, foi inaugurado em abril de 1940. Construído no estilo Art Déco característico da Era Vargas, o estádio foi palco de eventos históricos do futebol e da política no Brasil. Caso da Copa do Mundo de 1950, por exemplo, e do comício pelas Diretas Já realizado em novembro de 1983. O comício, inclusive, ilustra a abertura do último livro publicado por Fernando Morais, o segundo volume da biografia de Lula, lançado em março pela Companhia das Letras.

O Estádio hoje, depois de anos desativado e em reforma, opera como Mercado Livre Arena Pacaembu e abriga, além do Restaurante Bubu, o Museu do Futebol.
A Feira do Livro procura trazer em sua programação livros que relacionem a vida intelectual e literária do Brasil com o esporte. No intervalo, se encontram nomes que vão de Nelson Rodrigues ao cronista Armando Nogueira, patrono do auditório do Museu do Futebol. Há ainda José Miguel Wisnik, o intelectual e músico que discute o lugar do esporte na formação da identidade Brasileira em Veneno Remédio (Companhia das Letras, 2008, esgotado).
Ano passado a feira realizou uma mesa sobre futebol com o cronista Mário Prata e o cineasta Ugo Giorgetti, que à época lançava Era uma vez o futebol (Imprimatur, 2025, R$ 89,00). Esse ano a feira conta com a presença de Daniel Furlan e Caito Mainier na bancada ao vivo de Falha de Cobertura. Na mesa, eles falam sobre a história da Copa Libertadores e da América Latina.
Para Werneck, essa mistura inesperada está no DNA da feira, “uma feira tem que ser misturada, precisa ter esse ambiente de mistura cultural e de produtos.”
É a esse ambiente de mistura ainda que Paulo Werneck atribui a riqueza cultural de São Paulo. Riqueza que permite que a cidade opere inclusive como uma capital editorial de nível internacional. “São poucas as cidades do mundo que têm tantas editoras, tradutores e leitores. Temos tradutores do alemão, do russo, do japonês, é uma cidade muito rica para se editar livros. É essa a riqueza cultural, por exemplo, que construiu a vida editorial de Nova York, uma cidade, assim como São Paulo, feita por imigrantes”.
A pandemia atrasou os planos de organização da feira, que se concretizou pela primeira vez em 2022, num momento em que o setor cultural estava paralisado. Paulo propôs, então, “um feirão editores e livreiros no meio da cidade”, que ele apelidou de “festival da iniciativa privada”.

Para o organizador, a parceria com a Prefeitura de São Paulo, anfitriã da feira, impulsionou tanto a formalização do evento como a profissionalização dos expositores. Diz também que conquistar um espaço disputado por outros eventos é “um exercício de negociação – diria até de política – que nós não esperávamos, mas que tem se revelado muito interessante”.
Durante a feira desse ano, o espaço sediará onze eventos ao mesmo tempo, entre eles a luta de MMA de Whindersson Nunes contra Popó e um congresso de pastores. Para o organizador, a disputa de espaços é a vitória de um projeto que quer propor o compartilhamento do espaço urbano em vez da privatização de espaços públicos em uma metrópole como São Paulo, que “além de ser uma capital editorial,” lembra Werneck, “tem atrativos especiais como a gastronomia, a hotelaria, vida noturna e a escala logística única que São Paulo oferece”.
Werneck comenta que hoje A Feira do Livro recebe visitantes de outros estados e, apesar de não ter dados concretos, pois muitos livreiros não declaram a renda na feira, estima os impactos a partir de um estudo realizado pela FGV em 2018. Apesquisa encomendada pelo Governo Federal mostra que cada real investido na FLIP através da lei Rouanet resultou em R$ 13,42 reais revertidos para a sociedade, fomentando restaurantes e pousadas de Paraty.
Werneck diz que uma pesquisa de impacto econômico está em planos, “mas os dados da pesquisa da FGV já mostram que há um retorno grande. Por isso mesmo, quando recebemos uma emenda parlamentar para fazer a segunda edição da feira, insistimos para que essa verba entrasse pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, e não pela Secretaria de Cultura, porque queríamos sublinhar o papel econômico do livro, que é uma indústria como qualquer outra.”
O mercado editorial paulista e nacional conta há décadas com feiras universitárias, como a tradicional Festa do Livro da USP, realizada no campus da Cidade Universitária e a Feira do Livro da UNESP, sediada na Barra Funda. Como essas feiras são organizadas para os editores, e não livreiros, são oferecidos descontos de 50% sobre o preço final do livro, o chamado preço de capa, que é o valor final sugerido às livrarias e marketplaces digitais.
Paulo Werneck acredita que esse tipo de evento, apesar de favorecer estudantes com seus descontos e possibilitar que editores reduzam o passivo representado por títulos encalhados do catálogo, é prejudicial à cultura e ao mercado do livro no Brasil:
“O livro não é mais caro que um hambúrguer de uma lanchonete bacana, e nós não fazemos com desconto porque é preciso enfatizar o valor do livro, o investimento intelectual que existe ali. Um tradutor estudou alemão por muitos anos, comprou centenas de livros para traduzir Nietzsche, por exemplo. Ele tem que ser remunerado por esse trabalho. Essa cultura da pirataria, de dizer que ‘conhecimento não se cobra’, está errada”.
Para Werneck, o trabalho editorial é visto “quando se abre a página de créditos de um livro, onde constam os nomes de dezenas de pessoas, editores, tradutores, revisores, capistas e diagramadores”, e precisa ser mostrado ao público como o valor de trabalho acumulado que existe dentro de um livro. E segue comparando o mercado editorial com outras indústrias, “que negócio dá descontos de 50%? Acho que esse é um vício que precisa ser combatido pelo nosso mercado, porque você não compra um carro com 50% de desconto, seu banco não dá 50% de desconto na fatura. As feiras universitárias são muito importantes, mas distorcem a percepção de que o livro tem um preço justo e isso desvaloriza o trabalho intelectual, que passa a ser visto apenas como um hobby.”
A falta de descontos como atrativo para esse público acostumado com as feiras universitárias é compensada pela qualidade da programação oferecida:
“Poderíamos fazer um ‘programa premium’, cobrando um passaporte de R$ 300 para acesso às mesas, mas essa não é a proposta. Não cobramos entrada porque queremos que as pessoas venham e assistam, às vezes meio que sem querer, uma palestra. A pessoa vem interessada em alguém conhecido e acaba conhecendo outro autor de surpresa. Também nos preocupamos muito em selecionar fornecedores com preços variados para a praça de alimentação, acessibilizando a feira, mas é claro que é sempre mais caro vender algo ali, numa estrutura montada para o evento do que em uma cozinha já pronta”.

Paulo Werneck acredita que a concentração editorial internacional chegou ao Brasil atrasada e só o constituiu muito recentemente, apontando para a singularidade do nosso mercado editorial:
“Esses grandes conglomerados compraram editoras ao redor do mundo e dominaram os mercados locais. Isso demorou a acontecer no Brasil, porque nosso mercado era caracterizado por negócios familiares. Além disso, o português é uma língua periférica em que o mercado editorial português não consegue penetração, diferente do que acontece na Espanha em relação ao mercado editorial latino-americano”.
O organizador aponta 2011, quando a Companhia das Letras, até então administrada pela família Schwarcz, vendeu 45% de seu capital ao grupo Penguin Random-House, o maior símbolo de mercado editorial global e detentora, desde 2018, de 75% do capital da empresa brasileira, como o momento em que o capital editorial internacional chegou de fato ao Brasil, forçando editores e livreiros a se reinventarem em meio a ondas seguidas de revezes econômicos.
“Ao mesmo tempo, o governo parou de comprar livros, uma das principais fontes de faturamento das grandes editoras. Isso aconteceu ainda durante os governos Dilma e até hoje nenhum governo voltou ao ritmo anterior. Tivemos também a recuperação judicial das líderes de mercado, Livraria Cultura, Saraiva e Americanas. Além disso, pesquisas mostram que os índices de leitura vêm piorando. Então, estamos nos tornando, ao mesmo tempo, a Alemanha e a Argentina.”
“A Alemanha porque os caras mais feras do mundo vieram para cá, constituindo de fato o nosso mercado como parte de um business importante; e a Argentina porque as políticas públicas não avançam, os editores independentes não têm proteção pública e as livrarias deram calote nos editores. Não há linha de financiamento para editor, é preciso pagar antecipadamente por um produto cuja demanda você não conhece. O livro, nesse sentido, é um produto imponderável.”
Dentro dessa perspectiva, Werneck caracteriza os pequenos e médios editores como o coração da feira. De acordo com ele, são “os empreendedores mais versáteis, dinâmicos, inventivos e amigos de riscos” que conhece. “São esses empreendedores que colocam todas as suas economias num investimento em que não há certeza de retorno. A nossa feira também é uma grande oportunidade de negócios para eles."
A Feira do Livro foi responsável por encabeçar iniciativas que ocupam outros espaços da cidade. O Mapa das Livrarias de Rua cataloga e divulga livrarias independentes espalhadas pela cidade. A partir dele nasceu A Noite das Livrarias, realizada em 23 de abril, Dia Mundial do Livro, mobilizando livrarias independentes ao redor do país. Além disso, há a recém-criada Feira do Livro da Rocha, organizada pela Livraria Simples no tradicional Bixiga.
Werneck conclui a entrevista dizendo acreditar, “sem modéstia,” que A Feira do Livro encorajou o mercado editorial a “botar o bloco na rua”. Para ele, essa ainda será vista como “a era de ouro do mercado editorial brasileiro”.

31/05 (domingo) – 14h30 – Palco da Praça
Natalia Timerman é psiquiatra e escritora. Seu novo romance, Antes que apague (Companhia das Letras, R$ 79,90), acompanha uma filha diante da mãe com Alzheimer, investigando memória e laço familiar. Camila Appel é jornalista e criadora do blog Morte Sem Tabu na Folha. Seu Enquanto você está aqui (Fósforo, R$ 79,90) investiga como a sociedade lida com o fim da vida. As duas conversam com Beatriz Muylaert, editora da Quatro Cinco Um, sobre envelhecimento e morte.
01/06 (segunda) – 19h – Palco da Praça
Charles Duhigg autor de O poder do hábito (Objetiva, R$79,90) vem ao Brasil e conversa com público paulistano. Na pauta, entram o comportamento humano e os mecanismos que governam nossas escolhas.
03/06 (quarta) – 17h15 – Palco da Praça
A editora e livreira Cecilia Arbolave e as livreiras Julia Souto Araújo, Monica Carvalho e Tereza Grimaldi são algumas das vozes do movimento que cartografou as livrarias independentes em São Paulo. Debatem o projeto e o que ele diz sobre a cena editorial paulistana.
03/06 (quarta) – 19h30 – Palco da Praça
Gregorio Duvivier é escritor, humorista e dramaturgo. Agora, ele apresenta uma versão de bolso do seu espetáculo sobre curiosidades e esquisitices da língua portuguesa. Aos pés da letra (Companhia das Letras, R$ 69,90) é o nome do livro que nasce do espetáculo.
06/06 (sábado) – 18h – Palco da Praça
O jornalista Fernando Morais, um dos maiores biógrafos brasileiros, e Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo conversam sobre Lula volume 2 (Companhia das Letras, R$ 89,90). O livro reconstitui a vida do presidente dos anos finais da ditadura até a vitória de 2002.
07/06 (domingo) – 12h45 – Palco da Praça
Caito Mainier e Daniel Furlan são a dupla do programa esportivo-humorístico Falha de Cobertura, do grupo TV Quase. Lançam Guia da Copa Falha de Cobertura: Jornalismo Sem Medo da Verdade (Record, R$ 69,90), um manual sobre o Mundial 2026 com análises duvidosas feitas com confiança absoluta. A programação completa pode ser encontrada no site da Quatro Cinco Um, que também oferece uma cobertura especial do evento.
LARANJA MECÂNICA
FALTOU LUCE
EM XEQUE
MENOS É MAIS
ESTEROIDES LIBERADOS
‘UGLY SHOES’
UM NOVO EIXO
QUAM DÁ MAIS?
O VINHO DO TENOR
DIA NACIONAL DO CAFÉ
DEIXA A VIDA ME LEVAR
O LIVRO PELA CAPA
ESTILO KILL BILL
RIVIERA FRANCESA
SEU ROBOTAXI CHEGOU
A ESTRELA APAGOU
TEM FAMA DE "POVO FRIO"
RUMO AO HEXA?
SOUVENIR FRANCÊS