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Ex-presidente do Banco Central afirma que mensagens pouco claras podem prejudicar a credibilidade da autoridade monetária e influenciar as expectativas do mercado

A comunicação do Banco Central voltou ao centro das atenções após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Realizada na semana passada, a autoridade monetária decidiu reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano. Para o ex-presidente da instituição, Henrique Meirelles, a forma como o Copom apresentou sua decisão sobre a taxa de juros deixou margem para interpretações que podem afetar a confiança do mercado.
Em entrevista ao Money Times, portal parceiro do Seu Dinheiro, Meirelles afirmou que o comunicado e a ata do Copom foram considerados pouco claros em relação ao horizonte relevante da política monetária — ou seja, o período em que o Banco Central espera trazer a inflação de volta à meta.
Segundo o economista, parte dos investidores passou a interpretar que a convergência dos preços estaria sendo adiada para 2028, reduzindo a importância da meta de inflação de 2027 no processo de decisão.
"O ponto aqui é que a comunicação ficou confusa. Se o mercado entende que o horizonte da meta foi empurrado para frente, isso muda as expectativas."
Na avaliação de Meirelles, comunicar com clareza faz parte da própria política monetária, já que as decisões do Banco Central não afetam apenas os juros de hoje, mas também as expectativas de inflação para os próximos anos.
Quando o mercado interpreta que a autoridade monetária pode aceitar uma inflação acima da meta por mais tempo, investidores, empresas e consumidores tendem a rever suas projeções, o que acaba tornando o controle dos preços mais difícil.
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"A preocupação é quando isso passa a ser interpretado como uma disposição a aceitar inflação acima da meta por mais tempo."
O ex-presidente do Banco Central reconhece que parte da pressão inflacionária atual decorre de fatores internacionais, como a alta dos preços da energia e do petróleo, que acabam elevando custos de transporte e produção em diversos setores da economia.
Ainda assim, ele afirma que esses choques não devem servir de justificativa para uma tolerância maior com a inflação.
"O aumento de custos se espalha pela economia e torna mais difícil o controle da inflação depois", afirmou.
Para Meirelles, o maior risco de uma comunicação ambígua não aparece imediatamente nos indicadores econômicos, mas na confiança do mercado na atuação da autoridade monetária.
"O custo maior é sempre a credibilidade. Se o mercado passa a duvidar da reação do Banco Central, isso se reflete nas expectativas futuras e na inflação", esclarece o economista.
Ao comentar discussões recentes sobre uma possível redução da comunicação entre bancos centrais e o mercado financeiro, Meirelles defendeu justamente o caminho contrário:
"É importante ter um comunicado claro, uma ata clara, explicando as razões das decisões e o que se espera à frente."
"Não está totalmente claro qual será o próximo movimento. E isso naturalmente afeta as expectativas", avalia Meirelles.
Na visão dele, a combinação de inflação ainda acima da meta, riscos fiscais e um cenário internacional desafiador exige cautela por parte da autoridade monetária.
Apesar do cenário mais desafiador, Meirelles não acredita que a solução seja elevar a meta de inflação, atualmente fixada em 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Segundo ele, mudar o objetivo oficial teria pouco efeito prático sobre a inflação e poderia reduzir ainda mais a confiança na política monetária.
"Se você revê a meta para cima, o mercado se ajusta e você só fica com mais inflação", disse o ex-presidente do BC.
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