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Lais Costa, analista da Empiricus Research, explica por que tantos fundos sofreram com o conflito e mostra que outra classe corre risco em um cenário de juros altos
Após um início de ano positivo para a bolsa brasileira, os fundos de investimento que apostavam em um ciclo mais agressivo de queda da Selic viram o cenário mudar rapidamente. O chamado “risco Trump”, somado à escalada das tensões no Oriente Médio trouxe de volta a busca por segurança.
O efeito foi imediato: reprecificação dos juros globais, fortalecimento do dólar e perdas relevantes em carteiras que estavam posicionadas para um ambiente mais benigno.
Alguns fundos multimercados chegaram a cair mais de 10% em apenas um mês — um tombo expressivo para uma classe que, historicamente, busca justamente navegar diferentes cenários com mais proteção.
Para Lais Costa, analista da Empiricus Research, o principal erro foi de posicionamento.
“Temos essa quebra estrutural nos mercados por causa do início da guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel. E o tipo de guerra, a natureza dela, foi diametralmente oposta a todos esses posicionamentos. Tivemos uma aversão a risco muito forte”, afirma ela durante o podcast Touros e Ursos desta semana.
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Segundo Lais Costa, a crise trouxe uma dinâmica inflacionária inesperada, especialmente via petróleo, o que alterou o fluxo global de capitais.
“Essa aversão a risco veio principalmente por causa de uma quebra na expectativa de inflação para baixo, por conta da questão do petróleo. Tivemos um fluxo voltando para os Estados Unidos, quando antes víamos o contrário, com um DXY mais forte. Isso quebra essa estrutura mais favorável a moedas emergentes”, acrescenta.
Em outras palavras, o que antes era o principal pilar dos multimercados, a aposta em queda de juros, perdeu força.
O pano de fundo dessa mudança está na inflação — e mercado já começou a revisar projeções para cima.
Segundo o Boletim Focus divulgado na segunda-feira (6), a expectativa para o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA) subiu de 4,31% para 4,36% neste ano, a quarta alta consecutiva.
Para Lais Costa, porém, o risco é de uma inflação ainda mais alta. “Sinceramente, acho que a inflação está mais próxima de 5% do que de 4,5% neste ano”, diz.
O cenário pressiona diretamente a política monetária.
Com a Selic em 14,75% ao ano, o mercado passou a projetar cortes mais cautelosos em meio à guerra no Irã. A expectativa agora é de reduções de 0,25 ponto percentual (pp) por reunião — metade do ritmo que era esperado antes da piora do cenário externo.
A analista projeta a taxa básica em 13% no fim do ano, mas não descarta uma pausa no ciclo.
“Tecnicamente, vejo espaço para o Banco Central até pausar o ciclo em alguma reunião. Mas, pelas falas recentes, os diretores parecem inclinados a continuar os cortes, ainda que de forma mais gradual”, afirma.
A próxima reunião Comitê de Política Monetária (Copom) está marcada para os dias 28 e 29 de abril.
Se os multimercados já sentiram o impacto, o alerta agora começa a piscar em outra frente: o crédito privado.
Embora juros altos beneficiem a renda fixa tradicional, o efeito sobre empresas endividadas tende a ser negativo.
“Os spreads estão muito baixos, as empresas já começam a dar sinais de dificuldade e os juros não têm mais a mesma perspectiva de queda. O cenário de crédito está estranho”, afirma.
Segundo a analista, o impacto tende a ser mais lento, mas persistente.
“O crédito é como um transatlântico. Para mudar de direção, leva tempo. Mesmo que a guerra acabe, o efeito sobre essa classe demora mais para ser absorvido”, diz.
No bloco final do programa, em que os apresentadores e convidado escolhem os destaques positivos e negativos da semana, a Hapvida (HAPV3) ganhou o troféu de urso (destaque negativo).
Na semana passada, a gestora Squadra Investimentos, que tem posição acionária de 6,98% na Hapvida, publicou uma carta em que pede mudanças no conselho de administração, questiona as decisões tomadas nos últimos anos e propõe desinvestimentos para redução do endividamento.
Do lado dos touros (destaques positivos), os títulos indexados à inflação de longo prazo ganharam destaque. Segundo Lais Costa, as taxas atuais representam uma oportunidade relevante para investidores com horizonte mais longo.
Na mesma linha, ela cita o ETF de renda fixa PACB11, da BTG Pactual Asset Management, como uma alternativa para exposição a juros reais de longo prazo.
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