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Muito antes do chocolate, ovos e coelhos já eram símbolos de fertilidade e renovação — e têm raízes que vão além da tradição cristã

A Páscoa é uma das datas mais importantes do calendário cristão. Mas, para muita gente, ela também vem acompanhada de símbolos que vão além da história de ressurreição narrada no Novo Testamento. Ovos, coelhos e chocolate fazem parte da celebração, mesmo que suas origens passem longe da tradição bíblica.
E, enquanto repetimos costumes todos os anos, poucos sabem que muitos deles carregam histórias curiosas que atravessam séculos.
Se a dúvida sobre quem veio primeiro — o ovo ou a galinha — ainda permanece sem resposta, na Páscoa há uma certeza: o ovo veio muito antes do coelho.
O ovo já era símbolo de vida e renovação em diversas civilizações antigas. Povos como os egípcios, persas e fenícios costumavam tingir ovos de galinha durante o equinócio de primavera para celebrar o fim do inverno e o início de um novo ciclo.
Séculos depois, na Idade Média, a tradição ganhou um novo significado dentro do cristianismo.
Durante a Quaresma, a Igreja proibiu o consumo de ovos, carnes e laticínios. Como as galinhas continuavam botando ovos, os fiéis passaram a cozinhá-los e decorá-los para serem consumidos no Domingo de Páscoa, simbolizando o “túmulo vazio” de Cristo.
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Assim, o ovo acabou unindo dois significados: o renascimento e a renovação, tornando-o um ícone para comemorar a ressurreição de Jesus, bem como a chegada da primavera.
Se o ovo é antigo, o coelho — ou, originalmente, a lebre — entrou na história bem mais tarde.
Sua origem está na Alemanha do século XVII, e não tem relação direta com a história bíblica da Páscoa.
Na tradição popular, a deusa da primavera e renovação, Eostre (que deu origem às palavras Ostern, em alemão e Easter, em inglês), tinha a lebre como animal preferido, principalmente por sua alta fertilidade.
Com a expansão do cristianismo pela Europa, as festividades da primavera foram sendo incorporadas e ressignificadas, passando a coincidir com a celebração religiosa.
Assim, a lebre, já associada à renovação, foi absorvida pela tradição cristã e permanece até hoje no imaginário do feriado.
Junto disso, surgiu a figura da Osterhase, uma “lebre mágica” que escondia ovos decorados para que crianças bem-comportadas encontrassem.
Com o tempo, essa tradição foi levada pelos imigrantes alemães para países como o Brasil e os Estados Unidos, onde ganhou força e se transformou na popular “caça aos ovos”, brincadeira que permanece viva até hoje.
Mas o coelhinho da Páscoa não trabalha sozinho: na Suíça, a lenda diz que os ovos são entregues por um cuco e, em partes da Alemanha, a tarefa fica com uma raposa.
Embora ovos de galinha decorados ainda sejam comuns, principalmente em países como Polônia e Ucrânia, hoje é difícil pensar em Páscoa sem chocolate.
Mas essa associação é relativamente recente.
Foi apenas no século XVIII que confeiteiros franceses e alemães começaram a esvaziar ovos de galinha e recheá-los com chocolate. Na época era um produto raro e caro, considerado um verdadeiro artigo de luxo.
Já no século XIX, com a Revolução Industrial e o avanço tecnológico da fabricação do chocolate, surgiram os primeiros ovos de chocolate maciço e, posteriormente, os modelos ocos que conhecemos hoje.
A popularização foi rápida, e o chocolate transformou o símbolo tradicional em um presente apreciado por religiosos e não religiosos.
O que começou com lendas e rituais ligados à natureza passou a incorporar significados religiosos e, mais tarde, ganhou também um caráter cultural e comercial.
Mas, no fim das contas, pouco importa o que veio primeiro — o ovo ou o coelho.
O que permanece é a ideia de renovação, de novos ciclos e de celebração. E talvez seja justamente isso que mantém essas tradições vivas até hoje, mesmo que seus significados tenham mudado ao longo do tempo.
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