Crise de liquidez, não fraude: a versão de Daniel Vorcaro sobre o colapso do Banco Master — e o impacto para o BRB
Em depoimento à PF, controlador diz que o banco sempre operou ancorado no FGC, com ciência do BC, e que a crise de liquidez começou “quando a regra do jogo mudou”

O Banco Master vivia uma crise de liquidez e operava com um plano de negócios “100% baseado no FGC”. Quem diz isso é do próprio controlador da instituição, Daniel Vorcaro, em depoimento prestado à Polícia Federal no fim de dezembro, no âmbito das investigações que apuram fraudes bilionárias envolvendo o banco e operações com o Banco de Brasília (BRB).
Segundo o banqueiro, o Master sempre operou amparado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com conhecimento do regulador. Porém, Vorcaro diz que a crise não nasceu de fraudes, e tampouco de insolvência.
Ainda assim, Vorcaro argumenta que a crise que levou à intervenção do Banco Central não nasceu de fraudes — tampouco de insolvência. Na sua versão, o problema começou quando “a regra do jogo mudou”.
A partir daí, o que até então era uma dificuldade de liquidez se transformou em uma liquidação extrajudicial, uma investigação criminal e um dos episódios mais caros da história do FGC.
Lembrando que o Banco Master entrou em liquidação extrajudicial em 18 de novembro, por decisão do Banco Central. No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi preso durante uma operação da Polícia Federal que investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo a instituição.
Posteriormente, o banqueiro foi solto, mas segue cumprindo medidas cautelares enquanto as investigações avançam.
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Banco Master 100% dependente do FGC
Em seu depoimento, Vorcaro argumenta que a dependência do FGC não era um desvio pontual, mas a base do modelo de negócios do Banco Master desde 2018. Segundo ele, essa estratégia sempre foi formalmente apresentada ao Banco Central e aceita pela supervisão.
Segundo Vorcaro, essa era a "regra do jogo" desde 2018 e o regulador saia disso.
Na visão do banqueiro, o banco funcionava dentro desse arranjo enquanto as regras do fundo permaneciam estáveis.
O problema, segundo ele, teria surgido quando o FGC passou por mudanças nas normas do fundo garantidor que restringiram a forma como instituições como o Master conseguiam captar recursos.
Essas alterações teriam ocorrido por “pressão dos grandes bancos”, sufocando a captação da instituição, ainda de acordo com o fundador do Master.
Questionado pela Polícia Federal sobre a situação financeira do Banco Master, Vorcaro reconheceu que havia uma crise de liquidez — e que ela não era recente. Mas afirmou que o banco “sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro”.
“Essa crise de liquidez foi criada por duas coisas, por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o mercado se julga dono ali do fundo que é criado justamente para criar competição no mercado. Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC”, disse.
Daniel Vorcaro: suspeita de fraudes e a disputa de versões
Ao longo do depoimento, Vorcaro negou reiteradamente a existência de uma fraude bancária estimada em cerca de R$ 12 bilhões, envolvendo operações de venda de créditos do Master ao BRB — justamente o foco principal da investigação da Polícia Federal.
Segundo os investigadores, o banco teria repassado ao BRB carteiras de crédito sem lastro ou com graves inconsistências, gerando prejuízos relevantes à instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.
Vorcaro, por sua vez, nega que essas operações tenham sido fraudulentas e diz que as transações ocorreram dentro de parâmetros técnicos e regulatórios.
A venda do Master ao BRB: solução técnica ou negócio mal avaliado?
Outro ponto do depoimento foi a tentativa de Vorcaro de caracterizar a venda do Banco Master ao BRB como uma alternativa técnica recomendada pela própria fiscalização do Banco Central.
Segundo o banqueiro, a Diretoria de Fiscalização do BC teria indicado a venda da instituição ao banco estatal do Distrito Federal como uma solução adequada para o sistema financeiro.
“Esse negócio foi recomendado por diversas auditorias e pela própria fiscalização do Banco Central”, afirmou. “Naquele momento, indicava-se como sendo um bom negócio para o sistema financeiro.”
A operação foi anunciada em março, mas acabou rejeitada pelo Banco Central em setembro, após a autoridade monetária concluir que o BRB não tinha capacidade financeira suficiente para absorver o negócio.
Contudo, o Banco Central contesta a versão apresentada por Vorcaro.
O diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, afirmou que sua área jamais recomendou a compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB. Pelo contrário: segundo ele, foi justamente a fiscalização que identificou as inconsistências e levou o caso ao Ministério Público Federal.
A declaração veio após uma coluna da jornalista Malu Gaspar relatar que Aquino teria pedido ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comprasse milhões de reais em créditos do Master — afirmação que o diretor nega.
A conta para o FGC
Enquanto o embate de versões continua a escalar, a conta chega para quem garante o sistema.
Até a última sexta-feira (23), o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) já tinha desembolsado R$ 26 bilhões para indenizar 521 mil credores do Banco Master — o equivalente a cerca de 66,4% do total previsto.
A estimativa é de que o custo final da liquidação do Master alcance R$ 40,6 bilhões.
E o impacto não termina aí. A liquidação do will bank, que passou a integrar o conglomerado do Master em agosto de 2024, deve adicionar outros R$ 6,3 bilhões à fatura do FGC.
O início desses pagamentos, no entanto, depende do envio da base de dados dos credores pelo liquidante nomeado pelo Banco Central — e ainda não há prazo definido para isso.
Somados, os resgates do grupo podem consumir cerca de um terço dos recursos disponíveis do fundo, segundo estimativas preliminares.
BRB sob pressão
Os efeitos da crise também atingiram em cheio o Banco de Brasília. Controlado pelo governo do Distrito Federal, o BRB se viu no centro da turbulência após adquirir carteiras de crédito do Master que, segundo as investigações, seriam fraudulentas ou não teriam lastro suficiente.
Desde então, a instituição tem tentado afastar a narrativa de que enfrenta riscos de liquidez.
O novo presidente do banco público, Nelson Antônio de Souza, que assumiu após a saída de Paulo Henrique Costa, tem adotado um discurso de contenção de danos.
Em declarações recentes, afirmou que “o BRB não vai quebrar” e afastou qualquer risco de intervenção ou liquidação pelo Banco Central.
“O BRB não vai quebrar, não vai ter intervenção, não vai ter liquidação”, disse, em entrevista à Folha de S. Paulo.
Souza também confirmou que o banco negocia uma linha de crédito emergencial com o FGC para atender às exigências do Banco Central. Para acessar os recursos, o governo do Distrito Federal terá de oferecer garantias ao fundo — incluindo ações de empresas estatais.
As negociações ocorrem em paralelo a uma nova determinação do BC: o provisionamento de R$ 2,6 bilhões no balanço do BRB, como forma de reduzir riscos e cobrir perdas potenciais associadas à compra das carteiras do Master, segundo o jornal Valor Econômico.
Em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o BRB afirmou que “possui plena capacidade de recompor seu capital” caso venham a ser confirmados prejuízos decorrentes de operações ligadas ao will bank e ao conglomerado Banco Master.
O banco público também destacou que mantém um “plano de capital estruturado para cenários de estresse”, que, segundo a instituição, não foi acionado até o momento.
*Com informações da Agência Brasil, Estadão, Folha de S. Paulo e Reuters.
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