O Engraxate que Escalou o Everest, Rosier Alexandre fala de documentário: “Minha história é sobre não desistir”
Documentário “O Engraxate que Escalou o Everest”, que venceu recentemente o prêmio de Melhor Filme no Rio Mountain Festival, resgata a jornada inspiradora de um cearense que superou a pobreza para chegar ao topo do planeta

Do sertão cearense ao topo do mundo, Rosier Alexandre viveu uma trajetória que desafia qualquer estatística. Nascido em um casebre de taipa, em Monsenhor Tabosa, Ceará, o ex-engraxate tornou-se o primeiro nordestino a chegar ao cume do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Agora, sua história inspiradora ganhou nova vida no documentário O Engraxate que Escalou o Everest, dirigido por Ian Ruas.

Produzido de forma independente, o filme contou com o envolvimento direto de Rosier durante os 12 anos de filmagens. “Disse desde o início: não quero ficção. Quero contar minha história do jeito que vivi, com verdade, suor e emoção. A câmera acompanhou minha vida real, as vitórias e as dores”, explica.
A parceria com o diretor Ian Ruas, porém, foi essencial para o resultado. “O Ian acreditou nessa história quando ela ainda era só um sonho. Ele entendeu que o filme não era sobre escalada, mas sobre transformação. É um retrato fiel da minha alma, isso é raro no cinema.”

A obra, aliás, foi vencedora do prêmio de Melhor Filme, pelo voto do júri popular, no Rio Mountain Festival, realizado no CCBB Rio, realizado em outubro, um dos principais eventos de cinema de montanha da América Latina.
Autoconhecimento e superação
O filme acompanha a jornada de Rosier desde a infância no sertão, marcada pela seca, pela pobreza e pela persistência, até a conquista do cume do Everest, em 20 de maio de 2016, às 8h15 no Tibete (21h15 no horário de Brasília). Com cenas filmadas no Nepal, Bolívia e Ceará, e narrativa conduzida em primeira pessoa, o documentário é um retrato profundo sobre autoconhecimento e superação.

“Eu nasci num lugar onde as pessoas achavam que o mundo terminava na curva da estrada. Mas eu queria ver o que havia depois. Eu queria mudar o meu destino”, relembra Rosier, em uma das falas mais emocionantes do filme.
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De acordo com ele, a decisão de transformar a própria vida veio quando percebeu que vivia no automático. “Ou eu me mexia, ou ia me ferrar a vida inteira. Eu estava preso numa vida confortável, mas sem sentido. A montanha apareceu como um espelho: ela me mostrou quem eu era e quem eu ainda podia ser". Atualmente, Rosier é consultor organizacional e palestrante brasileiro, que se dedica ao alpinismo como hobby.

Projeto Sete Cumes e a conquista do Everest
A partir daí, nasceu o Projeto Sete Cumes, com o objetivo de escalar a montanha mais alta de cada continente. O caminho até o Everest foi longo e árduo: doze anos de preparação e três expedições até atingir o cume, em 2016.
“O dinheiro que o pobre não tem não pode ser desculpa pra ele não sonhar. Eu nunca pedi ajuda, eu oferecia valor. Dizia: posso dar palestras, cursos, fazer parcerias. O sonho precisa ter trabalho por trás”, afirma.
A trajetória, inclusive, foi marcada por momentos de extremo risco. “No Everest, o ar some. Cada passo é uma luta. Você sente o coração batendo devagar, o corpo pedindo pra parar. E mesmo assim, você precisa continuar. A montanha não perdoa quem vacila”, conta Rosier.

No topo do mundo
Quando finalmente alcançou o topo do mundo, o sentimento não foi de euforia, mas de reflexão. “As pessoas acham que chegar ao cume é um momento de alegria. Mas eu senti calma. Eu só pensava: preciso descer vivo. O cume não é o fim, porque 80% das mortes acontecem na descida. A montanha não quer ser conquistada, ela quer ser respeitada.”
Durante as expedições, ele presenciou as tragédias que marcaram o Everest e viu inclusive companheiros ficarem pelo caminho. “Ver corpos congelados muda tudo. Você se vê ali. É uma dor profunda, mas também um lembrete do quanto a vida é frágil. A montanha te coloca frente a frente com a morte e te faz entender o que realmente importa.”
Rosier faz questão de lembrar que o documentário não é sobre conquistas, mas sobre propósito. “A minha história não é sobre montanha. É sobre não desistir. É sobre o poder da fé, da disciplina, do trabalho. A montanha é só o cenário, mas o que ela ensina é o que fica pra sempre.”

O encontro com Oswaldo Montenegro
A trilha sonora também tem papel especial no documentário. A música-tema é assinada por Oswaldo Montenegro, que compôs uma nova versão de “O Condor”, lançada pela primeira vez como trilha de cinema.
Além disso, o filme apresenta uma trilha organizada pelo próprio diretor Ian Ruas e por Felipe Hostins, que ajuda a traduzir em som o contraste entre o silêncio das montanhas e a força do sertão. “A música conversa com o que eu vivi. Ela traduz o silêncio da montanha e o grito do sertão dentro de mim”, resume Rosier.
Como grande fã de Montenegro, Rosier conta com brilhos nos olhos e sorriso estampado na cara sobre como o famoso cantor e compositor brasileiro entra em sua história, algo inclusive impensável no início do processo: “Eu disse: me dá uma oportunidade de contar minha história para ele ou conta para ele, fala um pouquinho. Dois meses depois eu estava batendo papo com o Oswaldo."
O novo Everest de Rosier
A vitória no Rio Mountain Festival coroou um projeto que ele considera maior do que uma realização pessoal. “Ganhar esse prêmio foi como chegar ao cume outra vez. É o reconhecimento de uma história feita com verdade e persistência. Eu fiz esse filme para inspirar pessoas. Quero mostrar que o impossível é só o que ainda não tentamos.”

Finalmente, Rosier busca levar a obra a mais públicos pelo Brasil e pelo mundo, com exibições e debates sobre inspiração e resiliência. “Meu novo Everest é outro. Quero que essa história chegue a quem precisa ouvir. Porque todo mundo tem um Everest pra escalar, seja ele qual for.”
Com o olhar sereno de quem já enfrentou o frio, a solidão e o medo, Rosier resume sua jornada com simplicidade:
“O sertão me ensinou a resistir. A montanha me ensinou a persistir. E a vida me ensinou que não existe sonho impossível, só gente que desiste antes de tentar.”
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