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Com Ré volução no País do Carnaval, livro iniciado na juventude, o neurocientista que colocou a ciência em campo na Copa de 2014 retoma as ironias de um Brasil surrealista

Miguel Nicolelis, médico e neurocientista, professor emérito da Duke University e divulgador científico, lança Ré volução no país do Carnaval (Planeta, R$ 62,90), seu novo livro de ficção. Nele, o neurocientista pioneiro no estudo da interação cérebro-máquina escreve uma sátira política em ritmo de desfile carnavalesco. Misturando humor e crítica, o resultado é um julgamento que espelha os problemas do Brasil.
Reconhecido como um dos 20 maiores cientistas da atualidade pela Scientific American, o cientista responsável pelo exoesqueleto utilizado por um atleta paraplégico no chute inicial da Copa do Mundo de 2014 estreou na ficção em 2024 com Nada mais será como antes (Planeta). No thriller de ficção científica que se passa em 2036, um matemático e uma neurocientista tentam evitar uma catástrofe global lutando contra uma conspiração mundial.

Ré volução no país do Carnaval é, na verdade, o primeiro livro escrito por Nicolelis, quando o neurocientista ainda tinha 16 anos. A sátira alegórica começou a ser elaborada em 1977 e só agora é publicada. Ao todo são quase 50 anos trabalhando num livro impublicável na época.
A premissa é simples: em meio ao carnaval, um juiz decide realizar o último tribunal do júri de um país sob ditadura. Numa crítica mordaz, o júri reúne diversos tipos sociais, uma ex-primeira-dama, um intelectual, um empresário — e transforma o julgamento em um grande espetáculo transmitido ao vivo, enquanto o regime e a população se perdem entre a festa e o caos.
Com inspirações que vão e Miguel Ángel Astúrias a Érico Veríssimo e Stanislaw Ponte-Preta, Nicolelis conta como e por que resolveu lançar apenas agora uma sátira iniciada há quase meio século: “ficou claro que algumas coisas escritas ali estavam acontecendo no mundo real”.
Miguel Nicolelis: Acho que tem um pouco disso tudo, mas a verdadeira inspiração é O Senhor Presidente, de Miguel Ángel Astúrias. Foi a fase em que estava fascinado pelo realismo mágico, pelo Érico Veríssimo de Incidente em Antares. E claro, a crônica brasileira é muito importante. Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte-Preta, frequentava a biblioteca da minha avó.
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Miguel Nicolelis: Então, eu vi blindados subindo a 23 de maio, os protestos na frente da PUC, e aquilo me marcou muito. Terminei o livro, mostrei para minha mãe e ela disse que naquele clima [político] era impublicável.
Miguel Nicolelis: Essa questão do e-mail é mais recente. Eu revisei esse livro em 1997 e terminei de escrevê-lo em 2006. Foram 48 anos, quase cinquenta, trabalhando com esse livro.
Miguel Nicolelis: Ano passado lancei meu livro de ficção científica e os editores se interessaram por esse. Depois de algumas leituras ficou claro que algumas coisas escritas ali estavam acontecendo no mundo real. Um amigo me ligou para falar “olha, você viu aquilo do seu livro essa semana?”

Miguel Nicolelis: Claro, eu chegava em casa e discutia esses tipos sociais. Essas mulheres como a Primeira-dama Kalker, por exemplo. Conversava sobre elas com a minha família, tentava entender.
Miguel Nicolelis: Com a minha mãe e minha avó. As mulheres da minha família eram as verdadeiras revolucionárias, elas encorajavam o debate. Não havia assunto tabu e eu tinha uma liberdade intelectual incrível. Com 11 anos a professora chamou meus pais na escola porque eu estava lendo O Crime do Padre Amaro… eu lia tudo o que me interessava. O sonho do meu pai – juiz de direito – era que eu o seguisse na carreira jurídica, foi uma decepção quando passei no vestibular para medicina.
Miguel Nicolelis: Com certeza! Ele me levava, eu ouvia as conversas em casa, a gente internaliza essa linguagem. Meu pai também era de uma coragem tremenda. Pouca gente sabe, mas ele julgou membros do esquadrão da morte.
Miguel Nicolelis: Aqui no Brasil o debate ainda é muito superficial, e com as redes e as ferramentas de inteligência artificial está acontecendo uma verdadeira erosão da verdade. O tempo todo você vê no Twitter alguém perguntando “Grok, isso é verdade?” Nós estamos abrindo mão da capacidade de raciocinar. Estamos relegando o pensamento crítico às máquinas. É preciso lutar contra a desinformação.
Estamos deixando nossas vidas nas mãos dos CEOs dessas big techs, que só querem saber de maximizar o lucro. O Elon Musk, por exemplo, diz ter criado uma inteligência artificial – o Grok – que diga só diga a verdade. Depois que o Grok criticou ele e o Trump fizeram uma mudança no sistema para que ele buscasse as opiniões do Musk antes de emitir um juízo.
Miguel Nicolelis: Eu ainda sou esse menino de 16 anos, com toda essa curiosidade e vontade de fazer as coisas. O Brasil era, e continua sendo, um país totalmente surreal.
Ré volução no país do Carnaval chega às livrarias no dia 27 de outubro.
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