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Com estratégia, solo raro e névoa excepcional, Amelia Chardonnay 2023 conquistou a pontuação mais alta do relatório de Tim Atkin para o Chile

Sucesso nem sempre cai do céu. Na maioria das vezes, o reconhecimento vem com consistência, conexões e decisões bem tomadas. Mas às vezes o céu dá uma boa ajuda, junto com o solo e o mar. E quando os fatores se encontram, acontece o excepcional, como é o caso dos vinhos Chardonnay do Vale do Limarí, no Chile – e especificamente do Amelia Chardonnay 2023, eleito Vinho Branco do Ano no Relatório Chile 2025 de Tim Atkin.
Com pontuação 97, o rótulo teve destacados seu "estilo salino, pedregoso", com "impressionante precisão e equilíbrio" na nona e mais recente edição do report anual. É um resultado para lá de satisfatório, vindo do jornalista e Master of Wine britânico, que há quase uma década dedica um estudo especificamente à produção chilena.
"Amelia é um Chardonnay do Chile, que, por características desse clima e desse solo, se expressa como um Chardonnay de Borgonha", diz Marcelo Papa, diretor técnico da Concha y Toro e responsável pela supervisão do Amelia. "Ou poderia dizer que Borgonha se expressa como Limarí. É questão de semântica [risos]."

Verdade seja dita, não é o primeiro Chardonnay do Vale do Limarí que leva a chancela de Atkin. Há apenas dois anos, outro branco com maior escore no report – o Bodegas Reta Quebrada Seca Chardonnay 2020 – veio precisamente de onde saiu o Amelia 2023.
O que se viu no vencedor deste ano foi a melhor expressão das decisões tomadas desde 2017 por Papa e sua equipe.
De um lado, havia Amelia. Produzido desde 1993 no Vale de Casablanca, a 100 quilômetros de Santiago, o vinho expressava o resultado de sua proximidade com um litoral ensolarado:
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"Amelia antes era um Chardonnay de frutas tropicais, mais doce no paladar. Mais comercial", conta Papa.
De outro lado, ficava o próprio Vale do Limarí. A 350 quilômetros ao norte de Santiago, o espaço nasce cravado em um hiato no bloqueio rochoso da Cordilheira da Costa, o que lhe proporciona influência direta da brisa fria vinda do Pacífico, a chamada Camanchaca.

Quando assume a operação do Amelia, em 2017, Marcelo Papa já tinha mais de uma década lidando com a produção vitivinícola do Limarí. E então veio o insight ousado: transportar a operação do Amelia, tanto de Chardonnay, quanto de Pinot Noir, para o recorte gelado entre rochas.
"Quando falamos de Chardonnay e Pinot Noir, são variedades que requerem clima mais fresco", diz Papa.
"Do mesmo modo, as duas variedades gostam de luz, mas não de luz extrema. E [o Vale do Limarí] é uma zona próxima à costa. Todas as manhãs são nubladas. O céu só se abre azul ao fim da tarde, o bastante para amadurecer, mas sem queimar a acidez natural da uva."
A boa adaptação atingiu seu pico na primavera de 2022, quando as uvas do vinhedo Quebrada Seca começaram a brotar. Naquele ano, a região lidava com os efeitos de um El Niño moderado, que aumentou em cerca de 1 °C a temperatura do Oceano Pacífico.
Quando a temperatura se eleva, uma maior evaporação gera mais nebulosidade e, portanto, menos horas de luz direta. "Quando há menos luz, a Chardonnay mostra mais austeridade, menos fruta tropical, fazendo com que o solo se expresse de forma mais clara", diz Papa.
E com o solo do Limarí, formado a partir de uma união rara entre base calcária com argila, o resultado vem expresso na salinidade moderada e na mineralidade sensível ao paladar. Uma tempestade perfeita, sem trocadilho, direto sobre a, posteriormente premiada, safra 2023.
Em um cenário que generaliza os vinhos brancos chilenos como mais frutados e adocicados, a vitória do Chardonnay do Limarí propõe um novo panorama para a produção do país. "É o que torna esse vinho ideal para competir perfeitamente com vinhos de alto nível de Borgonha, por exemplo", avalia Papa.
Questionado se o público local está pronto para assimilar um paladar mais mineral em vez da tradição mais tropical, que reflete sobre os ótimos Sauvigon Blancs do país, o enólogo é assertivo:
"Toda vez que alguém toma um vinho de alto nível, o paladar reconhece. Seja um vinho super caro de Napa Valley ou um Chardonnay de Borgonha."
A diferença, de acordo com ele, está nas possibilidades e fronteiras que a produção chilena passa a extrapolar com vitórias como essa. "Eu botaria o Amelia em um contexto mundial. Antes talvez houvesse um teto, em termos de uma produção nacional aspirar a um nível mais alto. Agora não há teto."
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