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O republicano toma posse nesta segunda-feira (20). O Seu Dinheiro conversou com o cientista político e presidente da Eurasia, Ian Bremmer, sobre essa volta à Casa Branca, e ele deu pistas do que vem por aí.
A Associação Cristã de Moços (YMCA, na sigla em inglês) foi criada pelo inglês George Williams em 1844 para ser um local que não levasse os jovens ao pecado. Mais de 180 anos depois, é ao som da canção homônima do grupo Village People que acontece nesta segunda-feira (20) a posse de Donald Trump como o 47° presidente dos EUA.
O uso do emblemático hino da comunidade LGBTQIAPN+ na cerimônia gerou tamanha controvérsia — como tudo que ronda Donald Trump — que um dos membros originais do Village People e coautor da canção, Victor Willis, precisou se manifestar publicamente para defender a participação da banda na posse.
“Ele trouxe muita alegria ao povo americano usando o Y.M.C.A. E você quer que o Village People deixe tudo isso de lado e não se apresente em sua posse? Negativo! Estamos fazendo a coisa certa ao nos apresentar e manter as visões políticas fora disso. Então, por favor, pare de empurrar suas visões políticas para o Village People”, disse Willis no Facebook.
Se o segundo mandato de Trump será, como diz a música, “divertido” (It's fun to stay at the Y-M-C-A…), só o tempo dirá, mas o Seu Dinheiro conversou com Ian Bremmer, presidente da Eurasia e cientista político, e ele nos dá uma ideia do que pode estar por vir.
Na entrevista, Bremmer diz que Trump será praticamente imparável e joga uma luz sobre o que, de fato, será cumprido das promessas de campanha. Ele ainda fala da relação do republicano com o governo Lula e sobre as guerras — comerciais e geopolíticas — em que o novo presidente dos EUA pode se meter (ou das quais pode correr).
Confira, a partir de agora, os melhores momentos do bate-papo com o presidente da Eurasia.
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Ian Bremmer: A principal diferença entre Trump 1.0 e Trump 2.0 é que ele é agora o mestre indiscutível do Partido Republicano. Em 2017, os principais republicanos estavam dispostos a trabalhar com Trump, mas não estavam convencidos ideologicamente; os líderes republicanos de hoje são todos claramente subservientes a Trump. E a equipe que o cerca — tanto na Casa Branca quanto no Gabinete — está mais alinhada a ele e, no geral, mais competente na implementação de políticas. Isso significa que Trump será mais bem-sucedido em efetuar mudanças desta vez. Esta também é a principal diferença para o mundo.
Ian Bremmer: Trump vê sua vitória eleitoral como uma reivindicação de sua visão de mundo, e isso o tornou mais inclinado a pressionar duramente sobre tarifas e áreas sensíveis antes mesmo de assumir o cargo. Comparado a Trump 1.0, Trump agora estará menos limitado, mais disposto a ultrapassar os limites. Espere mais na linha das disputas sobre a Groenlândia e o Canal do Panamá — poucas pessoas em Washington dirão "não" para ele.
Ian Bremmer: As ações decepcionarão a retórica da campanha, mas Trump cumprirá mais promessas do que as pessoas esperam. Tarifas e deportações aumentarão; cortes de impostos serão estendidos; regulamentações serão cortadas. Algumas das ideias mais utópicas, como reservas de bitcoin, provavelmente não se concretizarão, mas, na maior parte de sua retórica de campanha, Trump cumprirá.
Ian Bremmer: O governo Trump enfrentará três grandes desafios. O primeiro é encurralar a maioria republicana fragmentada no Congresso. O presidente [da Câmara dos Deputados dos EUA], Mike Johnson, tem uma maioria extremamente estreita, e um grupo recalcitrante de conservadores ameaça atrapalhar o progresso da legislação sobre as prioridades do Partido Republicano. Provavelmente passará, mas não será um processo agradável.
Outro desafio é aumentar as deportações da maneira que Trump prometeu. Há enormes impedimentos logísticos aqui, e será preciso tanto inteligência política quanto burocrática para superá-los.
Finalmente, há a questão dos cortes de gastos. Não está claro o quanto Trump está pessoalmente comprometido com os cortes, mas figuras em sua órbita, como Elon Musk, estão buscando grandes reduções nos gastos do governo — algo politicamente quase impossível de passar e que pode exacerbar os problemas de Trump com os conservadores da Câmara — que exigirão cortes em troca de seus votos em questões-chave.
Ian Bremmer: Trump quer um Fed que corte os juros e os mantenha baixos. Mas suas próprias políticas — tarifas, deportações, expansão fiscal — tornarão a vida do banco central norte-americano mais difícil. E é aí que as grandes tensões podem surgir. Por isso, acredito que as críticas de Trump a Powell aumentarão em comparação ao que vimos no último mandato. Mas Trump provavelmente não vai demitir Powell, com medo de uma reação adversa do mercado. Ele simplesmente deixará o mandato de Powell expirar em maio de 2026 e nomeará um substituto flexível.
Ian Bremmer: O relacionamento entre uma potencial administração Trump e o governo do presidente Lula provavelmente será muito ruim. Enquanto Brasília está se esforçando para construir pontes para um relacionamento produtivo, desafios significativos permanecem. A abordagem pragmática de Lula poderia teoricamente se alinhar ao estilo transacional de Trump, mas várias “cascas de banana” no caminho dificultam isso.
Se o Brasil esticar muito a corda, isso pode colocar o país no centro das atenções de Trump, aumentando o risco de tarifas injustificadas, apesar do comércio bilateral robusto. Um exemplo disso é o envolvimento de Elon Musk com X no Brasil, com o judiciário brasileiro, que não mostra sinais de ceder, exacerbando as tensões.
Outro ponto envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro. Se ele for preso, algo que não parece improvável, Trump e seus aliados podem considerar a detenção como perseguição política — algo semelhante a como Trump percebe seus próprios problemas legais. Além disso, a liderança do Brasil no Brics, formado pelos países emergentes, e sua parceria estratégica com a China adicionam complexidade ao relacionamento Brasil-EUA.
Ian Bremmer: Trump vai pressionar bastante na questão das tarifas da China. Seu gabinete está cheio de falcões da China, especialmente o indicado para secretário de Estado, Marco Rubio. Ele também provavelmente está menos interessado em um acordo do que estava em seu primeiro mandato. Então o cenário está pronto para um momento tumultuado no relacionamento. A crise econômica da China também fará Trump acreditar que ele tem mais influência sobre a China do que tinha em 2017-2019.
Ian Bremmer: Trump não vai cessar o apoio norte-americano à Ucrânia imediatamente. Em vez disso, ele vai alavancar esse apoio para forçar a Ucrânia e a Rússia à mesa de negociações para entregar um cessar-fogo em 2025. Então, não é errado dizer que o novo governo Trump não é uma bênção para Putin — o presidente russo não emergiu como um vencedor do primeiro governo de Trump, e é duvidoso que Trump alivie as sanções atuais à Rússia.
A retórica de Trump sobre anexar partes de outros países, no entanto, fará dele um defensor menos confiável do direito da Ucrânia de manter reivindicações sobre a Crimeia e partes do leste do país.
Ian Bremmer: Imparável. Em uma extensão maior do que nunca vimos antes, Trump vai agir como quiser — não como seus conselheiros, o mercado ou o "establishment" estão dizendo a ele para fazer.
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