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Camille Lima

Camille Lima

Repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap.

REPORTAGEM ESPECIAL

Como a Braskem (BRKM5) foi do céu ao inferno astral em apenas alguns anos — e ainda há salvação para a petroquímica?

Com prejuízo, queima de caixa ininterrupta e alavancagem elevada, a Braskem vivencia uma turbulência sem precedentes. Mas o que levou a petroquímica para uma situação tão extrema?

Camille Lima
Camille Lima
15 de setembro de 2025
6:34 - atualizado às 9:05
Vista da então nova unidade da Braskem Petroquímica, em Paulínia, São Paulo. Petrobras (PETR3 e PETR4) e Novonor são as principais acionistas da Braskem (BRKM5) | Dividendos
Braskem (BRKM5) - Imagem: Estadão Conteúdo/Alex Silva

Quem vê a situação financeira da Braskem (BRKM5) hoje — estrangulada por prejuízos, alavancagem elevada e por uma ininterrupta queima de caixa — mal consegue imaginar que há apenas alguns anos a petroquímica vivenciava recorde atrás de recorde na bolsa. Lá em 2021, as ações chegaram a ser negociadas próximas dos R$ 70. Hoje, meros quatro anos após os picos históricos, os papéis lutam para manter o suporte dos R$ 9.

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A mudança é tão drástica que é até difícil explicar o que fez a Braskem ir do céu ao inferno astral em uma janela de tempo tão comprimida. Foi apenas uma maré de azar para o setor de petroquímicos global? A gestão da petroquímica tomou decisões de negócio erradas? Ou foi a crise ambiental em Alagoas que ajudou a derrubar as ações? O Seu Dinheiro foi atrás de especialistas do ramo para entender essa história.

Braskem (BRKM5): do céu ao inferno

Antes de explicar o que causou a tumultuada virada de cenário na Braskem (BRKM5) nos últimos anos, é preciso destacar que a indústria na qual a companhia está inserida passa por ciclos. 

E, até então, os ciclos do setor eram como estações bem definidas: anos de baixa, média e alta que costumavam se revezar aproximadamente a cada dois ou três anos. Esses ciclos impactam diretamente o preço dos spreads petroquímicos — a diferença entre o preço da matéria-prima e o dos produtos finais — para cima ou para baixo. 

Bem como toda a indústria petroquímica mundial, a Braskem (BRKM5) viveu tempos de muita fartura durante a pandemia do novo coronavírus, num ciclo de alta que perdurou até o final de 2021. A crise sanitária, que paralisou o mundo, trouxe uma vantagem inesperada para o setor: a demanda por insumos para máscaras, seringas para vacinas e outros produtos de PVC explodiu, mantendo a indústria operando a todo vapor.

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No entanto, a bonança não durou para sempre. Quando o mundo começou a voltar ao normal, em 2022, o cenário mudou drasticamente. O fervor por insumos petroquímicos começou a cair, e a Braskem se viu, junto com toda a indústria global, inserida em um superciclo de baixa. Isso porque havia uma sobreoferta de resinas plásticas para uma demanda que já não correspondia. 

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Quem contribuiu para o cenário de sobreoferta massiva foi a China, que buscava autossuficiência na produção de polietileno e polipropileno, inundando o mercado global. A demanda não conseguiu acompanhar o volume de produtos ofertados, quebrando o equilíbrio que outrora existia. 

Isso causou uma disrupção no mercado global, transformando o mercado curto em um mercado longo de margens comprimidas. Acontece que este ciclo ruim já se estende há anos — e os analistas seguem revisitando as perspectivas, adiando cada vez mais as previsões de recuperação. 

“O ciclo de baixa pode ser o novo normal na petroquímica, porque temos um cenário em que a demanda talvez nunca se recupere da mesma forma e a oferta já cresceu num patamar muito maior. Pode ser que os ciclos petroquímicos tenham se tornado muito mais longos de forma permanente”, disse Daniel Cobucci, analista do BB Investimentos (BB-BI).

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O próprio CEO da Braskem, Roberto Prisco Ramos, afirmou no início de 2025 que o atual ciclo de baixa da indústria petroquímica global deveria se estender pelos próximos cinco anos. 

Na avaliação da Fitch Ratings, é possível que um ponto de inflexão na indústria petroquímica venha apenas entre o fim de 2028 e o início de 2029. “Não vemos o mercado deteriorando; achamos que talvez já tenha atingido o fundo do poço. Mas as racionalizações no setor demoram para acontecer, o que deve sustentar os spreads um pouco mais comprimidos por alguns anos”, disse o analista Marcelo Pappiani.

Vale destacar que, em agosto, a Fitch cortou novamente a nota de crédito da Braskem em escala global. Trata-se da segunda revisão de rating da petroquímica pela agência de classificação de risco desde o começo de 2025.

A situação atual da Braskem (BRKM5): o que causou a “tempestade perfeita”?

Além de estar presa no meio de um ciclo global ruim, a Braskem também enfrenta problemas no cenário doméstico que pressionam diretamente as finanças. Há trimestres, a petroquímica trava uma verdadeira luta para estancar a queima de caixa e reduzir o endividamento. 

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No segundo trimestre de 2025, a empresa apresentou um aumento substancial da alavancagem. A relação entre a dívida líquida ajustada sobre o Ebitda recorrente subiu para 10,6 vezes no 2T25, um aumento de 33% em relação ao 1T25 e de 56% em relação ao 2T24. 

A companhia também queimou caixa no período, com um consumo de cerca de R$ 1,4 bilhão entre abril e junho, contra uma cifra negativa de R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre e de R$ 74 milhões no mesmo intervalo de 2024. 

Na visão de Daniel Cobucci, do BB Investimentos, o que aconteceu com a Braskem não foi resultado de uma "gestão negligente”. Segundo ele, a empresa tem feito a lição de casa, com controle de custos e otimização dos investimentos (capex). 

É, na verdade, uma "tempestade perfeita", na qual a empresa, que já não estava totalmente preparada e operava com custos mais elevados que pares globais e uma alavancagem crescente, foi atingida por uma "chuva pior do que o esperado". 

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Quanto ao peso dos custos, a companhia tem a nafta como principal insumo — uma matéria-prima mais cara do que gás, que é mais barato e mais rentável e é muito usado por produtores no exterior, como os Estados Unidos. 

Com isso, a petroquímica perdeu as condições de competitividade frente aos produtores estrangeiros, que já trabalhavam com menores custos e preferiam vender os produtos mais barato para diluir seus custos fixos, reduzindo margem e afetando toda a cadeia.

O impacto foi tamanho que, pela primeira vez na história, as vendas de polietileno importado no Brasil entre janeiro e julho superaram as vendas da Braskem, que historicamente detinha cerca de 70% do mercado nacional.

O problema socioambiental de Alagoas

Além disso, há ainda o passivo de Alagoas a ser resolvido. A título de recordação, o problema socioambiental em Maceió teve início em 2018, quando a mineração de sal-gema pela Braskem provocou o afundamento do solo em bairros da capital alagoana. Já em 2023, houve um novo afundamento, após desgaste do solo provocado ao longo dos anos pela exploração, em jazidas abertas pela Braskem.

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Até o momento, já foram provisionados mais de R$ 15 bilhões para a crise ambiental em Maceió. Porém, o mercado teme que sejam necessários mais aportes. Um especialista inclusive receia que, em caso de novos desembolsos, há o risco de que o montante deva seguir na mesma dimensão do que já foi pago até agora.

“É uma situação difícil que eles se colocaram. A questão de Alagoas acabou sendo uma dor de cabeça realmente muito grande para a Braskem e desequilibrou as contas da empresa. A companhia está trabalhando para trocar executivos e melhorar a operacionalidade, mudando a matéria-prima, mas está com uma carga enorme lá atrás tendo que puxar. Enquanto eles não resolverem isso, vai ser bastante complicado”, disse um especialista no setor de petroquímicos.

Outro analista, porém, afirmou que não vê mais como cenário-base novos desembolsos para Alagoas para o futuro. “Se esse valor vier, não deveria ser algo material, que impacte tanto a tese de investimentos.”

Na visão do mercado, enquanto a crise em Alagoas não for completamente resolvida, a Braskem inclusive terá dificuldades em encontrar novos sócios dispostos a aportar dinheiro na companhia. 

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Inclusive, uma fonte no Fundo Petroquímica Verde, do empresário Nelson Tanure, afirmou que, enquanto não tiver segurança que o passivo ambiental do desastre de Maceió não será transferido para os novos sócios e credores, “o fundo não irá assinar nada”.

A Braskem ainda tem salvação?

Diante do dilema, a Braskem iniciou no ano passado uma série de movimentos para tentar reverter a maré de azar. A petroquímica realizou uma verdadeira dança das cadeiras corporativa no alto escalão, com Roberto Prisco Ramos retornando à companhia com a missão de recuperá-la. 

Uma das ações mais estratégicas da petroquímica foi o anúncio da busca pela troca de matérias-primas (feedstock), substituindo a cara nafta petroquímica por gás natural. Na visão de Frederico Fernandes, especialista em petroquímica da Argus, esta mudança levará pelo menos 10 anos para ser 100% efetiva, mas é vista como um "golaço" da Braskem para reduzir custos e aumentar a competitividade no mercado global.

“No final desses 10 anos, esperamos que esse ciclo global petroquímico saia da baixa e já esteja em alta. Então, a Braskem teria uma competitividade bem maior. A questão é: será que eles chegarão lá? A Braskem consegue se manter de pé até passarem esses 10 anos?”, disse o especialista.

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No cenário doméstico, o mercado cita dois potenciais catalisadores mais setoriais que poderiam auxiliar a Braskem na recuperação da participação de mercado (market share) no Brasil.

O primeiro deles é a tarifa antidumping preliminar sobre as importações de polietileno dos EUA e do Canadá. A medida foi aprovada pelo comitê executivo da Câmara Brasileira de Operações de Câmbio no fim de agosto. As tarifas preliminares terão duração de seis meses, com a decisão final sobre a tarifa definitiva prevista para o primeiro trimestre de 2026.

Basicamente, as medidas antidumping são adotadas quando o governo entende que os exportadores estão vendendo seus produtos para o Brasil a preços mais baixos do que os cobrados em seus mercados internos, passando a cobrar e uma sobretaxa na importação. 

Na visão da XP Investimentos, embora preliminar, a decisão é positiva para a Braskem, já que deve combinar maior market share e margens mais altas. A corretora prevê um impacto positivo no Ebitda (indicador usado para mensurar a geração de caixa operacional potencial) da empresa de até US$ 200 milhões a US$ 250 milhões anualizados, mas o “impacto real dependerá da dinâmica competitiva”, segundo os analistas.

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Além disso, a política pública do Presiq (Programa de Estímulo à Competitividade da Indústria Química) também pode adicionar até US$ 500 milhões no Ebitda da Braskem anualmente até 2026, segundo a corretora.

Porém, o analista do BB Investimentos vê as medidas de incentivo recentes apenas como mitigadores do problema, oferecendo um alívio de curto prazo, mas não como catalisadores para uma virada radical nos próximos meses.

“Não é um trigger que fará a ação disparar. É esperado mesmo que haja algum tipo de incentivo, mas também não é essa salvação toda. Ela só vai talvez atenuar essa condição, de repente, para deixar a operação não tão negativa ou marginalmente positiva”, disse Cobucci.

O longo caminho para a recuperação

Além disso, é consenso entre os analistas que a verdadeira salvação — ou pelo menos um caminho para a recuperação — da Braskem (BRKM5) necessariamente dependerá de uma melhora dos spreads petroquímicos.

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“Faz muito sentido todo o processo de gestão que estão fazendo para trazer essa resiliência de curto prazo para a companhia, mas tem que vir essa melhora de spreads no futuro para tirar a companhia dessa posição um pouco mais frágil de estrutura de capital”, disse um especialista.

De acordo com a ICIS, uma plataforma global de dados de “Serviços Independentes de Inteligência de Commodities”, os fundamentos globais de oferta e demanda de produtos petroquímicos podem “apertar materialmente” se ocorrerem fechamentos significativos de fábricas no mundo inteiro, acelerando a racionalização da indústria global e melhorando as condições para os spreads.

É por isso que um analista de ações prevê que, apesar das dificuldades no curto prazo, a Braskem se recupere e comece a ver uma melhora nos resultados a partir de 2026 ou de 2027.

“Com o antidumping, o Presiq, o spread petroquímico melhorando, a companhia racionalizando os investimentos e com os juros no Brasil caindo, todas as condições melhoram. A Braskem está muito perto do ‘break-even’ de geração de caixa e teria tudo para sair dessa posição em um ou dois anos, a partir de 2026”, afirmou ele.

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Braskem (BRKM5) precisa de sócio endinheirado 

Na análise de Cobucci, do BB Investimentos, uma recomposição societária também seria um catalisador relevante — e necessário — para a Braskem. Para ele, a saída da Novonor (antiga Odebrecht) permitiria que a Petrobras (PETR4), que já demonstrou insatisfação com seu papel de sócia sem controle efetivo, injetasse dinheiro e buscasse investimentos estratégicos. 

Segundo o analista, a Braskem precisa de um sócio com "bolso fundo" para investir em competitividade, como a modernização de plantas. E, hoje, tomada por dívidas bilionárias, a Novonor não teria capacidade para acompanhar eventuais aportes junto à Petrobras. 

Na visão do especialista da Argus, a principal possibilidade para o comando da Braskem é um acordo entre a Petrobras e os bancos credores da Novonor — que detêm ações da Braskem como garantia a cerca de R$ 15 bilhões em dívidas contra a antiga Odebrecht — para assumirem o controle da petroquímica, por meio da gestora IG4.

“Eu acho muito difícil você tirar essas ações das mãos dos bancos. O que valia R$ 15 bilhões antes, agora vale em torno de R$ 3 bilhões. Mas banco nenhum gosta de perder dinheiro. Eu colocaria as minhas fichas que a saída da Braskem será via bancos.”

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Segundo Fernandes, seria justamente essa troca de controle, para debaixo do guarda-chuva dos bancos, que ajudaria a Braskem a resolver o problema da alavancagem no curto prazo. “Porque, nesse caso, eles passariam a ter acesso a outros níveis de financiamento.”

Embora o endividamento elevado pressione as finanças da companhia, as dívidas da Braskem hoje são de longo prazo, com concentração de vencimentos a partir de 2028 e 2029. 

Isso confere à petroquímica tempo para buscar essas soluções, sem precisar se desfazer de bons ativos a preços pouco atrativos para liquidar débitos, de acordo com os analistas. 

“Uma das forças da Braskem é justamente a diversificação. Abrir mão disso sem uma estratégia clara poderia significar abrir mão de um ativo que, se bem trabalhado, poderia ter uma boa rentabilidade. Além disso, se vender agora no ciclo de baixa, você vai entregar no pior preço possível. Eles têm que ter um olhar cauteloso para não entregar a galinha dos ovos de ouro para pagar uma dívida que nem seria totalmente quitada. É preciso uma solução mais estrutural”, disse Cobucci, do BB Investimentos.

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É hora de comprar a ação da Braskem (BRKM5)?

Quanto à ação da Braskem (BRKM5), as perspectivas também não são lá muito encorajadoras. De acordo com a plataforma TradeMap, das oito recomendações compiladas, sete são neutras e uma é de venda.

O BB Investimentos é uma das casas mais pessimistas com a petroquímica, hoje com recomendação de venda para as ações BRKM5. Embora já acumule desvalorização da ordem de 50% em 12 meses, ainda há chances de que o papel vivencie novas rodadas de queda na B3.

Segundo o analista do BB-BI, a análise gráfica da Braskem supõe que faixas anteriores de preço formam pontos de atração para compradores e vendedores. Dessa forma, como hoje a ação está negociada a uma relação de R$ 1,67 por dólar — e já chegou a rodar a R$ 1,30 o dólar após a crise de 2008 —, haveria espaço para desvalorizações adicionais na bolsa.

“A situação é diferente, mas normalmente há uma faixa de atração de preço. Por um lado, pode ser que esses R$ 1,40 o dólar já tenha sido o fundo do poço, mas ainda poderia ter espaço para buscar essas mínimas de 2009 se a ação seguir caindo”, disse Cobucci.

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“Mas são possibilidades. Não é que o papel deva chegar em tal patamar. A referência ser em dólar é mais para isolar um pouco o efeito da inflação, e refletir dinâmicas mais setoriais do que de câmbio”, acrescentou.

Na contramão do restante do mercado, o Citi recentemente manteve recomendação de “compra/alto risco” para a Braskem, argumentando que o baixo valuation e as expectativas de melhorias operacionais nos próximos trimestres sustentam a tese de investimento.

Procurada, a Braskem não havia retornado o contato até o momento de publicação desta reportagem.

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