O Brasil pode ser atingido pelas tarifas de Trump? Veja os riscos que o País corre após o Dia da Libertação dos EUA
O presidente norte-americano deve anunciar nesta quarta-feira (2) as taxas contra parceiros comerciais; entenda os riscos que o Brasil corre com o tarifaço do republicano

Quem olha para a balança comercial brasileira vê déficit na relação com os EUA: há 15 anos consecutivos, o Brasil importa mais do que exporta para os norte-americanos. Ainda assim, não estamos a salvo do tarifaço que Donald Trump deve anunciar nesta quarta-feira (2) — o chamado Dia da Libertação.
Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, as exportações brasileiras para o país totalizaram US$ 40,3 bilhões, correspondendo a 12% do total embarcado, enquanto as importações de produtos norte-americanos atingiram US$ 40,6 bilhões, ou 15,5% das nossas compras totais.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que desde 1997, início da série histórica, o saldo comercial é negativo para o Brasil em 19 dos últimos 28 anos. Isso quer dizer que importamos mais dos EUA do que exportamos.
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Esse cenário só se inverteu entre 2000 e 2008, quando o saldo comercial foi favorável ao Brasil, com um pico de superávit em 2005 — US$ 10 bilhões, resultado de US$ 22,6 bilhões em exportações e US$ 12,6 bilhões em importações.
Ainda que o placar seja bastante favorável aos norte-americanos, Trump insiste em dizer que o Brasil é um dos países que trata mal os EUA no comércio, ao lado de China e Índia. Por isso, o republicano diz que a resposta deve ser a sobretaxa às importações oriundas dessas nações.
Boa parte desse tarifaço deve ser anunciado nesta quarta-feira (2), às 17h (de Brasília).
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Além de taxas de 25% sobre o setor automotivo entrarem em vigor, impostos sobre Canadá e México também devem passar a valer integralmente, além das chamadas tarifas recíprocas — que, como o próprio nome diz, implicam na imposição de tarifas pelos EUA na mesma proporção em que são taxados pelos parceiros comerciais.
O Seu Dinheiro conta aqui tudo o que você precisa saber sobre o que pode acontecer hoje nos EUA.
“Caso as medidas anunciadas hoje sejam direcionadas apenas aos países com os quais os EUA têm grandes déficits comerciais ou que tenham participação relevante no comércio norte-americano, o Brasil provavelmente não seria impactado inicialmente”, dizem analistas do BTG Pactual liderados por Iana Ferrão.
- Vale lembrar que, quando Trump tomou posse em janeiro, ordenou que as agências federais investigassem praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA para avaliar qual tarifa recíproca aplicar em cada caso — o foco eram parceiros com grandes desequilíbrios comerciais.
A equipe do BTG reforça porém que, se forem aplicadas tarifas generalizadas a setores específicos ou se os critérios incluírem países com barreiras comerciais superiores às norte-americanas, o Brasil será diretamente afetado.
Até a publicação dessa matéria, a Casa Branca não havia detalhado as tarifas e os países que estarão sujeitos a elas.
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Brasil na mira de Trump
Trump já afirmou algumas vezes que considera as tarifas brasileiras excessivas sobre os produtos norte-americanos. Por isso, à medida que o chamado Dia da Libertação foi se aproximando, o Brasil acendeu a luz amarela para possíveis cobranças adicionais.
A preocupação não é à toa. Embora a balança comercial tenha saldo positivo para os norte-americanos, o Brasil aplica uma tarifa média de 5,8% sobre produtos importados de lá. Os EUA, por sua vez, aplicam uma taxa de 1,3% sobre itens brasileiros, de acordo com dados do World Integrated Traded Solutions (WITS).
“O patamar de tarifas aplicado pelo Brasil aos EUA é similar ao da China e ao da Índia, de 5,8%, mas superior ao do Canadá e da União Europeia, o que tem levado a críticas de Trump”, dizem analistas do BTG.
Em relação às barreiras não tarifárias (BNT), a discrepância é ainda maior: o Brasil tem um índice de BNT de 86%, acima dos EUA (77%) e da média internacional (72%).
“O protecionismo brasileiro decorre sobretudo do uso de barreiras não tarifárias, mais do que das tarifas”, afirmam os analistas do BTG.
Estudos indicam que barreiras sanitárias e fitossanitárias do Brasil equivalem a tarifas médias de 20% a 40%, dependendo do setor. Embora faltem cálculos consolidados, os EUA podem impor tarifas muito acima da média tarifária brasileira (5,8%) para compensar barreiras regulatórias.
Uma pista sobre as áreas em que o Brasil seria alvo das tarifas de Trump veio na segunda-feira (31), quando o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) divulgou um relatório que faz críticas ao modelo de tarifas que o Brasil impõe às importações.
O texto critica tarifas brasileiras sobre etanol, filmes norte-americanos, bebidas alcoólicas, produtos de telecomunicações, máquinas e equipamentos e carne suína, além de reclamar da preferência dada pela legislação e normas do Brasil aos produtores nacionais.
O escritório de Washington cita o Imposto de Produtos Industrializados (IPI) sobre bebidas alcoólicas de 19,5%, enquanto a cachaça tem IPI menor de 16,25% por ser um produto nacional.
- Vale lembrar que o governo Trump já ameaçou a Europa com tarifas de 200% sobre bebidas alcoólicas.
O USTR manifesta ainda preocupação com as normas de proteção à propriedade intelectual no Brasil e com a discussão de taxação de plataformas digitais realizada pela Anatel, que consideram uma “barreira ao comércio digital”.
Especialistas dizem que o documento de 400 páginas — e que cita o Brasil em seis delas — deve servir de base ao novo tarifaço que Trump deve anunciar hoje.
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Onde Trump pode taxar o Brasil?
O principal produto exportado pelo Brasil para os EUA é o petróleo. Em 2024, foram US$ 5,8 bilhões — valor que só fica abaixo dos US$ 20 bilhões vendidos pela China no mesmo período.
Em segundo lugar estão os produtos semimanufaturados de ferro ou aço, com US$ 2,8 bilhões. O Brasil só perde para o Canadá como maior mercado exportador de aço para os EUA e, por isso, foi alvo das tarifas de 25% anunciadas por Trump em fevereiro.
Os aviões foram em 2024 o terceiro produto mais comprado do Brasil: US$ 2,4 bilhões. A lista ainda conta com carne bovina, café, pastas químicas de madeira e sumo de frutas.
Do lado da importação, o produto mais vendido pelos norte-americanos para o Brasil em 2024 foram turborreatores — motores de reação que usam uma turbina a gás para propulsar aviões — a US$ 6,2 bilhões. O principal destino delas foi a cidade de Petrópolis, no Rio, que abriga a unidade da GE, e o município de Gavião Peixoto, em São Paulo, uma das bases da Embraer.
Óleo diesel e nafta para a indústria petroquímica e o gás natural liquefeito também estão entre as maiores vendas dos EUA para o Brasil no ano passado.
De acordo com o BTG, os setores brasileiros com alta exposição ao mercado norte-americano tendem a ser mais prejudicados, a exemplo de aeronaves, materiais de construção, etanol e madeira e derivados.
“A diversificação da pauta de exportação do Brasil limita o impacto geral sobre a balança comercial caso as tarifas sejam impostas apenas em determinados setores. No entanto, segmentos altamente dependentes do mercado americano poderão sofrer efeitos significativos”, dizem os analistas.
Uma das saídas, segundo eles, é a redução de barreiras internas. Mas a medida teria um custo: a pressão sobre a indústria nacional.
“Caso o Brasil venha a ser obrigado a reduzir barreiras não tarifárias, setores intensivos em uso de insumos básicos e aqueles relacionados ao vestuário, maquinário e produtos semimanufaturados seriam os mais pressionados e potencialmente prejudicados”, afirma a equipe do BTG.
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O Brasil tem chance de se safar?
Mas nem tudo está perdido para o Brasil, caso o País seja alvo das tarifas anunciadas por Trump nesta quarta-feira (2).
Segundo a Moody’s, o Brasil é um dos países que têm maior resiliência na América Latina para suportar os efeitos da taxação do republicano.
“Na América Latina, o México é um dos mais vulneráveis devido à forte dependência comercial com os EUA, enquanto o Brasil tem maior resiliência, com mercado interno robusto e menor vulnerabilidade externa”, diz a Moody’s em relatório.
A agência de classificação de risco afirma ainda que países com reservas cambiais sólidas, como é o caso do Brasil, estão mais bem posicionados para resistir aos choques advindos das tarifas que Trump deve anunciar hoje.
Do lado do governo brasileiro, a ideia é esperar para ver. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deu ordem para usar a diplomacia nas negociações com Trump em vez de partir para a retaliação como já sinalizaram União Europeia e Canadá, por exemplo.
Falando ontem sobre o assunto, o vice-presidente e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, voltou a dizer que o Brasil não é um problema para os norte-americanos e que o caminho e a disposição são sempre pelo diálogo.
"O comércio foi o que estimulou as civilizações, o comércio é civilizatório, ele traz desenvolvimento, aproxima povos; é extremamente positivo, e a disposição do Brasil é aberta ao diálogo e a fortalecer o comércio exterior", disse.
Sobre o relatório divulgado na segunda-feira (31) pelo governo Trump sobre barreiras comerciais, que citou o Brasil, Alckmin afirmou que o documento repete questões que já são antigas para a pauta norte-americana.
No caso do etanol, por exemplo, Alckmin reconheceu que a tarifa cobrada pelo Brasil é mais alta, mas ponderou que os produtores brasileiros não conseguem "entrar tanto" nos EUA com a venda de açúcar.
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