Guerra no Irã e choque do petróleo: medo da inflação dá fim ao cenário de ‘emoção zero’ para o Copom
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset e ex-Secretário do Tesouro Nacional, conta como o choque externo chega na inflação, nos juros e no seu bolso
O conflito no Oriente Médio, deflagrado por ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã no final de fevereiro, transformou radicalmente o panorama econômico brasileiro para 2026. Se antes era dado como certo o início dos cortes na taxa de juros em março — com sinalização do próprio Banco Central —, agora não é mais.
E o motivo não é a guerra em si, mas o choque no preço internacional do petróleo. A cotação da commodity estava na faixa dos US$ 60 o barril Brent antes da guerra. No pior momento do conflito disparou para US$ 110.
Essa nova dinâmica de preços globais atinge diretamente o coração da política monetária do Banco Central. A incerteza sobre a duração da guerra e a possível reação do governo brasileiro aos preços dos combustíveis colocaram em xeque o ritmo de corte nos juros que o mercado esperava.
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O que antes era visto como um corte certo de 0,50 ponto percentual (p.p.), quiçá 0,75 p.p. na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em março, agora é motivo de debate cauteloso entre economistas.
É sobre isso que o convidado Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, debate no podcast Touros e Ursos nesta semana. Segundo o especialista, o mercado discutia apenas detalhes marginais da velocidade de queda dos juros, algo que mudou completamente com o início das hostilidades.
“Antes [da guerra] você tinha uma variação muito pequena de cenários possíveis de trajetória de juros. Agora, não vou falar que tem infinitas, mas você tem muitas trajetórias, muitos cenários possíveis. E provavelmente vai ter mais com o decorrer do conflito”, disse Funchal.
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Por que o preço do petróleo importa?
A disparada do preço global do petróleo tem um efeito cascata imediato que pesa no orçamento das famílias brasileiras e nos custos de produção de toda a economia.
O impacto não se resume apenas ao posto de gasolina. Estamos falando de aumento no custo do frete como um todo, desde o diesel que abastece o caminho até o querosene de aviões e navios que trazem bens e matérias-primas internacionais.
Na prática, o aumento do custo da energia e dos combustíveis funciona como um redutor do poder de compra da população. Funchal estima que essa pressão inflacionária, se duradoura, pode reduzir o consumo das famílias em cerca de 0,4% do Produto Interno Bruto neste ano, provocando uma desaceleração no crescimento do país.
A projeção para o PIB em 2026, antes da guerra, era de 1,8%. Agora, após revisão, está na faixa de 1,5% a 1,6%.
Atualmente, Funchal observa que a defasagem dos preços domésticos dos combustíveis em relação ao mercado internacional é alta: 35% na gasolina e superando os 50% no diesel. Esse descompasso torna o repasse para as bombas quase inevitável se o conflito persistir, o que pesará rapidamente no bolso dos brasileiros.
Problema para o Copom resolver
A nova realidade geopolítica alterou a projeção de inflação para o final de 2026. Funchal afirma que a estimativa de 3,8% tende a subir para 4,4%, no cenário base da Bradesco Asset.
Se a guerra se estender e o petróleo ficar estacionado acima de US$ 100, o IPCA pode chegar próximo a 6%.
Esse desvio da meta exige que o Banco Central adote uma postura mais conservadora na gestão da taxa Selic, de modo a evitar que os preços saiam totalmente de controle no médio prazo. Diante desse aumento expressivo na incerteza, Funchal defende que o Copom deve ser mais prudente em sua próxima reunião de março.
O consenso de mercado, que antes apontava para um corte de 0,50 p.p., agora está dividido, e o CEO sugere que um corte menor, de 0,25 p.p., seria um sinal importante de cautela.
Touros e Ursos da semana
No bloco de encerramento do podcast, apresentadores e convidados escolherem seus destaques negativos e positivos que movimentaram o país para além do setor de petróleo.
O grande urso (destaque negativo) da semana foi novamente o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso pela segunda vez pela Polícia Federal por tentativa de obstrução à Justiça. As investigações sobre crimes de lavagem de dinheiro e corrupção ganharam novos contornos com a quebra de sigilos de conversas de WhatsApp, expondo relações próximas do investigado com figuras do Judiciário e gerando forte repercussão política em Brasília.
No lado positivo, a petroleira Prio se destacou como o touro do mercado financeiro, registrando uma alta de 15% em suas ações desde o início do conflito no Irã. Além de se beneficiar da valorização do preço do petróleo, a empresa recebeu a aguardada licença do Ibama para operar o campo de Wahoo, o que é visto por analistas como o maior gatilho de valor para a companhia em 2026.
O touro especial da edição foi para o esporte, celebrando um marco histórico no futebol nacional. O técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, tornou-se o treinador com o maior número de títulos na história do clube ao conquistar o Campeonato Paulista, acumulando 11 troféus desde sua chegada em 2020.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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