Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC, explica por que o Copom não vai antecipar seus próximos passos na reunião de hoje
O executivo, que hoje é chairman da JiveMauá, acredita em um aumento de meio ponto percentual nesta reunião do Copom, sem nenhuma sinalização no comunicado
“É aquela frase: quem sabe o que vai acontecer está muito mal informado”, disse o ex-diretor do Banco Central e presidente do conselho de administração da JiveMauá, Luiz Fernando Figueiredo, quando questionado sobre o que esperar da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (7).
Para Figueiredo, a incerteza é a marca preponderante do cenário internacional neste momento, em meio às tarifas de importação de Donald Trump — que ainda estão em negociação —, de modo que quaisquer medidas locais de política monetária neste momento são um risco.
No ano passado, quando Roberto Campos Neto e demais diretores do comitê optaram por voltar a elevar os juros em novembro, após dois cortes e alguns meses de pausa, a medida foi considerada preventiva, no sentido de se antecipar ao aumento da inflação esperada para os meses seguintes.
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Agora, Figueiredo argumenta que a estratégia deve ser outra, não mais de antecipação e, sim, de reação.
“Você olha o ambiente agora e parece uma coisa, mas pode mudar muito em um mês. Nessa situação de incerteza, o Banco Central não deve mais se antecipar aos fatos, mas reagir na direção certa”, disse o ex-diretor em entrevista ao Seu Dinheiro.
E o ex-diretor do BC espera a mesma atitude do banco central norte-americano, o Federal Reserve, que deverá anunciar o resultado da sua reunião de política monetária antes do Copom, às 15h (horário de Brasília), e está no olho do furacão da incerteza global.
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“Enquanto não se tem noção dos impactos que as tarifas devem causar, o Fed deve continuar parado, até ter menos incertezas e mais dados para tomar decisões”, afirma.
Copom deve buscar os 15%?
Na última semana, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou diversas vezes que a autarquia foi muito feliz em seu último comunicado ao expressar suas preocupações com as tarifas de Donald Trump, o impacto da política monetária já restritiva no Brasil e a persistência da inflação.
Conforme anunciado em março, Galípolo confirmou que a Selic deve aumentar de novo nesta quarta, embora não tenha antecipado em quanto.
Figueiredo e a maior parte dos agentes de mercado esperam um aumento de 0,50 ponto percentual.
Mas, o mais importante para o ex-diretor é o comunicado do Copom que deve acompanhar esse ajuste. Ele acredita que é crucial que a autarquia deixe os próximos passos em aberto e não dê uma direção como fez na última vez.
“Acho que tem que deixar em aberto mesmo. Não com uma sugestão disso ou daquilo, mas em aberto por que não se sabe o que pode acontecer no curto prazo”, argumenta. “Estamos em um momento em que a cautela é o mais importante. O Copom precisa tomar cuidado para não se comprometer lá na frente.”
A expectativa em relação à Selic terminal, que era de 15% no início do ano, Figueiredo não acredita que seja um valor para bater o martelo.
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Ele vê algo nessa direção, mas afirma que pode ser 14,75% ou 15,25%, por exemplo. “Pode ser 15% ou algo ao redor disso, com alguma diferença pequena”, disse ao Seu Dinheiro.
O ex-diretor afirma que mais do que buscar um valor de Selic terminal, os sinais de queda na atividade, inflação mais comportada e economia direcionada são o foco.
Além do aumento previsto para hoje, Figueiredo vê a possibilidade de apenas mais um aumento futuro, que pode não chegar a se concretizar. “Acho pouco provável que tenha mais do que duas altas. Acho possível que pare em uma só, inclusive.”
Na segunda-feira (5), depois de 16 semanas estável em 15,00%, a mediana das projeções do relatório Focus para a Selic ao fim de 2025 caiu para 14,75% ao ano.
Tinha um Trump no meio do caminho
A mudança no Focus dois dias antes da definição do juro pelo Copom foi considerada um recado do mercado para Galípolo. Uma sinalização de que os investidores acreditam que uma política monetária menos restritiva pode ser suficiente neste momento.
Não graças ao Brasil, claro. Graças ao Trump.
O Focus indicou agora o que as taxas projetadas no mercado secundário já vinham mostrando há dias, com os investidores acompanhando os impactos que as tarifas de importação já tiveram sobre as projeções globais.
Dólar fraco globalmente e recuperação do real, paralisação nas expectativas de inflação, sinais de desaceleração da atividade econômica nos EUA e em outros países — Brasil, inclusive.
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“Todos são motivos para o BC não precisar mais aumentar tanto assim os juros. Mas são movimentos atrelados à mudança no cenário externo. Isso não pode ser desconsiderado também”, diz Figueiredo.
Ele pondera que o “cenário Brasil” continua no radar do BC e dos investidores, ainda que agora esteja encoberto pela fumaça das tarifas.
“A predominância dos fatores externos aos locais depende da resposta do governo a esse ambiente de mais incerteza. Se demonstrar um ímpeto menor de ir na contramão do trabalho que o BC está fazendo, legal, então esse assunto vai ficar para o segundo plano. Mas se pisar no acelerador dos gastos pode reverter tudo”, diz Figueiredo.
Confira a seguir trechos da entrevista do Seu Dinheiro com Luiz Fernando Figueiredo:
[Seu Dinheiro]: Como o cenário local e internacional mudou da última reunião do Copom para a desta semana? Isso deve impactar na decisão dos diretores?
[Luiz Fernando Figueiredo]: O que aconteceu foi uma enorme confusão por causa do [Donald] Trump e de tudo que aconteceu nos EUA. O Trump foi muito duro nas tarifas e brigou com o mundo. Na prática, gerou uma enorme incerteza sobre o que vem pela frente. Ninguém sabe o que esperar. Em momentos assim, é preciso ter muito cuidado com as decisões.
O saldo que ficou para o Brasil foi a incerteza e a taxa de câmbio, porque vimos o dólar se depreciar globalmente, inclusive em relação ao real. A incerteza deve fazer o Copom agir com cautela, já a situação do dólar é um alívio para a inflação e pode ajudar na política monetária local.
Vamos ter uma decisão com base nesse novo ambiente e vejo duas possibilidades.
A primeira é na esteira desse ambiente mais racional que vimos ao fim de abril. Com o Trump disposto a negociar. Ainda é esperada uma desaceleração da atividade no mundo, depreciação do dólar, mas em níveis razoáveis. Isso pode ajudar o Brasil a direcionar sua inflação e subir menos o juros.
A segunda possibilidade é uma nova onda Trump, com tarifas ou outra coisa, mas que piora o cenário de recessão e de inflação global. Nesse caso, nada escapa.
No momento, a versão branda prevalece como meu cenário base. Mas você olha o ambiente agora e parece uma coisa, que pode mudar muito em um mês. Nessa situação de incerteza, o Banco Central não deve mais se antecipar aos fatos, mas reagir na direção certa.
E qual seria a reação certa do Copom neste momento?
Acredito que vai ter mais um aumento dos juros, não muito grande. Um aumento de 0,50 ponto percentual parece um bom número, mas, mais do que isso, deixar as próximas decisões em aberto. Em aberto mesmo. Não com uma sugestão disso ou daquilo, mas em aberto por que não se sabe o que pode acontecer no curto prazo.
Há alguns meses, uma sugestão ou outra deu a entender que os diretores estavam discutindo se paravam de subir os juros ou não, mas, agora, não saber o que fazer deve prevalecer. É aquela frase: quem sabe está mal informado.
O BC tem que tomar cuidado para não se comprometer lá na frente porque, novamente, estamos em um cenário de muita incerteza.
A projeção de uma Selic terminal em 15% ainda é válida? Você acredita que há espaços para mais aumentos ou seria o caso de parar nesse ajuste agora de maio?
Deve ficar ao redor de 15%, um pouco mais, um pouco menos, mas ao redor disso, talvez com uma diferença muito pequena. E acho pouco provável que tenha mais do que duas altas. Acho possível que seja uma só, inclusive, mas está cedo para dizer isso.
Quais devem ser os fatores que os diretores do Copom devem mais levar em consideração para a decisão desta quarta-feira? É predominantemente sobre o cenário internacional, com as tarifas de Trump?
O ambiente externo tem sido mais importante. Não é 100% sobre o ambiente externo, mas também não é 50%, está bastante acima disso. O cenário externo tem prevalecido já há algum tempo. No ano passado, muito do cenário negativo veio da pressão grande da depreciação do real com a saída dos estrangeiros, foi uma redução muito importante deles que gerou uma pressão de valorização do dólar relevante.
Mas, o que estamos vendo agora? Uma desaceleração da atividade contínua, que tem sido devagar e gradual, mas contínua. Isso é um avanço importante para o BC porque indica que a política monetária está fazendo efeito. As expectativas de inflação pararam de subir.
A questão é: tudo isso pode ter sido causado pelo ambiente externo? Pode. Muito provavelmente foi. Mas são razões para o BC não precisar subir tanto assim os juros.
Mas é fato que a queda na expectativa dos juros, e da inflação, foi um movimento orientado pelas mudanças no cenário externo e isso deve continuar no radar do BC e dos investidores.
As questões locais que fizeram tanto presso do fim do ano passado e no começo deste ano deixaram de ter força? A dívida pública, as reformas, tudo foi para o segundo plano?
A predominância dos fatores externos sobre os locais depende mais da resposta do governo a esse ambiente de mais incerteza. Se demonstrar um ímpeto menor de ir na contramão do trabalho que o BC está fazendo, legal, então esse assunto vai ficar para o segundo plano. Mas não sei se é isso que vai acontecer.
Na pior fase que teve, meses atrás, o governo não pisou no freio. Continuou anunciando mais auxílios, programa de consignado e isso e aquilo, não parou de fazer coisas nessa direção de mais gastos. Se o compasso for esse, pode reverter todos os aspectos de desaceleração dos juros e da inflação que estamos vendo agora.
É um assunto que não morreu e segue sendo acompanhado.
E o Fed? O que podemos esperar da decisão de política monetária nos Estados Unidos? A depender de como ficar o juro, isso deve mudar em algum nível o impacto da decisão do BC?
A decisão do Fed pode ter muito impacto na atividade dos EUA. Um tempo atrás eu diria que implicava na atividade e na inflação, mas, hoje, acredito que é menos na inflação e mais na atividade — novamente, considerando que a fase racional do Trump vai se manter.
Mas assim, a economia americana é a mais afetada com todas essas decisões de tarifas, não tem como. A incerteza por lá é muito grande e enquanto não se tem noção dos impactos que essas decisões podem ter, o Fed vai continuar parado, até ter menos incerteza e mais dados.
Essa briga entre o Trump e o [Jerome] Powell gerou uma nova incerteza, sobre se o Fed vai ter força para fazer o que precisa ser feito. A história da demissão [do Powell, que é presidente do Fed] abalou a percepção do mercado em relação a isso. Essa confiança foi abalada e reduziu a credibilidade da instituição no geral.
Para mim, essa é mais uma razão para ficar quietinho agora e esperar os próximos dados e acontecimentos antes de decidir o que fazer com as taxas.
E não muda muito para o Brasil. Se o Fed subir os juros pode ter algum impacto, mas, enquanto continuar parado, não muda.
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