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Em julho, a Casa Branca aplicou um tarifaço de até 50% e elevou a tensão ao rotular o processo contra Bolsonaro de “caça às bruxas”. Três meses depois, um cumprimento relâmpago, e um “parabéns”, abriu uma fresta para um acerto comercial
Ninguém sabe ao certo se durou 20 ou 39 segundos, como disse Donald Trump. Talvez tenha durado um minuto, quase dois. O fato é que o breve encontro de Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente dos Estados Unidos na antessala que leva ao plenário da Assembleia Geral da ONU, em setembro, parece ter bastado para mudar o humor de uma relação que parecia seguir a rota de uma colisão inevitável.
Da “química” citada por Trump em seu discurso na ONU à “petroquímica” mencionada por Lula em uma entrevista dias depois, a tensão bilateral deu lugar a um ambiente construtivo, embora o tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil ainda siga em vigor.
No último fim de semana, Lula e Trump mantiveram uma conversa de quase uma hora de duração. Numa breve conversa dos dois com a imprensa, ambos pareciam descontraídos. Hoje, a bordo do Air Force One, Trump desejou “feliz aniversário” a Lula, que completa 80 anos nesta segunda-feira. O norte-americano descreveu o presidente brasileiro como “um cara muito vigoroso”.
“Ele [Trump] garantiu que vamos ter um acordo. E acho que será mais rápido do que muita gente pensa”, disse Lula no fim de semana.

Em julho, a Casa Branca aumentou as tarifas sobre importações brasileiras para até 50%, escalando medidas anunciadas em escala global meses antes. A justificativa pública misturou comércio e política doméstica brasileira. Trump qualificou o processo por tentativa de golpe contra o ex-presidente Jair Bolsonaro de “caça às bruxas”.
Para além da tarifa “recíproca” de 10% imposta a todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, o governo americano aplicou uma sobretaxa de 40% a grande parte dos produtos brasileiros.
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Para exportadores brasileiros de aço, carnes, café, sucos e produtos manufaturados, o recado foi imediato no preço e na previsibilidade.
Além das tarifas, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação contra o Brasil, acusando o país de adotar “práticas comerciais desleais”.
A Casa Branca também impôs restrições de visto a oito magistrados do STF, entre eles o ministro Alexandre de Morais, com base na Lei Magnitsky, criada para punir estrangeiros que os EUA consideram autores de graves violações de direitos humanos.
As medidas foram tomadas em meio ao julgamento no qual o ex-presidente Bolsonaro foi declarado culpado por conspirar contra as instituições brasileiras.
Já o governo brasileiro classificou as sanções como um ataque à soberania nacional, além de uma tentativa de interferir na independência do Poder Judiciário.
A primeira rachadura no gelo apareceu semanas antes, à margem da Assembleia-Geral da ONU. Mas foi na Malásia que o roteiro virou história: Lula saiu do tête-à-tête dizendo que Trump “garantiu” um acordo comercial “em breve”, enquanto o americano temperou a expectativa: “tivemos uma boa conversa; não sei se algo vai acontecer”.
Na reunião com Trump, Lula disse ter pedido “a suspensão da taxação e revisão das punições aos nossos ministros”, referindo-se a sanções aplicadas pelos EUA a magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) e autoridades do seu governo.
Lula disse que Trump ficou “surpreso” ao ouvir que as sanções americanas haviam atingido até a filha de 10 anos do ministro da saúde, Alexandre Padilha (PT). Na ocasião, o ministro, sua esposa e filha tiveram os vistos americanos cancelados.
O presidente brasileiro disse ainda ter defendido a legitimidade do julgamento do STF que condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado e outros crimes.
Após o encontro, o perfil da Casa Branca no X publicou uma foto dos dois presidentes se cumprimentando e a seguinte fala de Trump “Acho que seremos capazes de fechar alguns bons acordos para ambos os países… Sempre tivemos um bom relacionamento e acredito que isso continuará”.
Em paralelo, o “feliz aniversário” circulou como mensagem de descompressão entre chancelerias.
“Química” entre os presidentes à parte, a retomada de diálogo lança luz sobre importância das relações bilaterais não só para o Brasil, mas também para os EUA.
“Eu disse a ele que era extremamente importante levar em conta a experiência do Brasil como o maior país da América do Sul, como o país economicamente mais importante, que tem quase toda a América do Sul como vizinha”, disse Lula.
O presidente brasileiro disse ainda que tinha uma longa pauta de assuntos que gostaria de discutir com Trump. Segundo o chanceler Mauro Vieira, Lula também se ofereceu para ser um “interlocutor” entre os EUA e a Venezuela, em meio à pressão do governo Trump no Caribe e sobre o governo de Nicolás Maduro.
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