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DIPLOMACIA EM JOGO

Do tarifaço ao feliz aniversário: como um breve encontro entre Lula e Trump desviou Brasil de rota de colisão com os EUA

Em julho, a Casa Branca aplicou um tarifaço de até 50% e elevou a tensão ao rotular o processo contra Bolsonaro de “caça às bruxas”. Três meses depois, um cumprimento relâmpago, e um “parabéns”, abriu uma fresta para um acerto comercial

Lula e Trump reunidos durante a 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), na Malásia.
Lula e Trump reunidos durante a 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), na Malásia.Imagem: Divulgação/X

Ninguém sabe ao certo se durou 20 ou 39 segundos, como disse Donald Trump. Talvez tenha durado um minuto, quase dois. O fato é que o breve encontro de Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente dos Estados Unidos na antessala que leva ao plenário da Assembleia Geral da ONU, em setembro, parece ter bastado para mudar o humor de uma relação que parecia seguir a rota de uma colisão inevitável.

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Da “química” citada por Trump em seu discurso na ONU à “petroquímica” mencionada por Lula em uma entrevista dias depois, a tensão bilateral deu lugar a um ambiente construtivo, embora o tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil ainda siga em vigor.

No último fim de semana, Lula e Trump mantiveram uma conversa de quase uma hora de duração. Numa breve conversa dos dois com a imprensa, ambos pareciam descontraídos. Hoje, a bordo do Air Force One, Trump desejou “feliz aniversário” a Lula, que completa 80 anos nesta segunda-feira. O norte-americano descreveu o presidente brasileiro como “um cara muito vigoroso”.

“Ele [Trump] garantiu que vamos ter um acordo. E acho que será mais rápido do que muita gente pensa”, disse Lula no fim de semana.

Imagem criada por inteligência artificial mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, em primeiro plano. Ele usa terno preto, camisa branca e gravata azul clara. Ao fundo, Lula veste terno de mesma cor, com gravata escura.
Imagem gerada por inteligência artificial com Trump (esquerda) e Lula (direita)

O prólogo do conflito: quando a tarifa vira arma

Em julho, a Casa Branca aumentou as tarifas sobre importações brasileiras para até 50%, escalando medidas anunciadas em escala global meses antes. A justificativa pública misturou comércio e política doméstica brasileira. Trump qualificou o processo por tentativa de golpe contra o ex-presidente Jair Bolsonaro de “caça às bruxas”.

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Para além da tarifa “recíproca” de 10% imposta a todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, o governo americano aplicou uma sobretaxa de 40% a grande parte dos produtos brasileiros. 

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Para exportadores brasileiros de aço, carnes, café, sucos e produtos manufaturados, o recado foi imediato no preço e na previsibilidade.

Além das tarifas, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação contra o Brasil, acusando o país de adotar “práticas comerciais desleais”.

A Casa Branca também impôs restrições de visto a oito magistrados do STF, entre eles o ministro Alexandre de Morais, com base na Lei Magnitsky, criada para punir estrangeiros que os EUA consideram autores de graves violações de direitos humanos. 

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As medidas foram tomadas em meio ao julgamento no qual o ex-presidente Bolsonaro foi declarado culpado por conspirar contra as instituições brasileiras.

Já o governo brasileiro classificou as sanções como um ataque à soberania nacional, além de uma tentativa de interferir na independência do Poder Judiciário. 

A virada do roteiro: um aperto de mãos e o “parabéns”

A primeira rachadura no gelo apareceu semanas antes, à margem da Assembleia-Geral da ONU. Mas foi na Malásia que o roteiro virou história: Lula saiu do tête-à-tête dizendo que Trump “garantiu” um acordo comercial “em breve”, enquanto o americano temperou a expectativa: “tivemos uma boa conversa; não sei se algo vai acontecer”. 

Na reunião com Trump, Lula disse ter pedido “a suspensão da taxação e revisão das punições aos nossos ministros”, referindo-se a sanções aplicadas pelos EUA a magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) e autoridades do seu governo. 

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Lula disse que Trump ficou “surpreso” ao ouvir que as sanções americanas haviam atingido até a filha de 10 anos do ministro da saúde, Alexandre Padilha (PT). Na ocasião, o ministro, sua esposa e filha tiveram os vistos americanos cancelados. 

O presidente brasileiro disse ainda ter defendido a legitimidade do julgamento do STF que condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado e outros crimes. 

Após o encontro, o perfil da Casa Branca no X publicou uma foto dos dois presidentes se cumprimentando e a seguinte fala de Trump “Acho que seremos capazes de fechar alguns bons acordos para ambos os países… Sempre tivemos um bom relacionamento e acredito que isso continuará”. 

Em paralelo, o “feliz aniversário” circulou como mensagem de descompressão entre chancelerias.

E agora?

“Química” entre os presidentes à parte, a retomada de diálogo lança luz sobre importância das relações bilaterais não só para o Brasil, mas também para os EUA.

“Eu disse a ele que era extremamente importante levar em conta a experiência do Brasil como o maior país da América do Sul, como o país economicamente mais importante, que tem quase toda a América do Sul como vizinha”, disse Lula.

O presidente brasileiro disse ainda que tinha uma longa pauta de assuntos que gostaria de discutir com Trump. Segundo o chanceler Mauro Vieira, Lula também se ofereceu para ser um “interlocutor” entre os EUA e a Venezuela, em meio à pressão do governo Trump no Caribe e sobre o governo de Nicolás Maduro.

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