A bolha da IA vai estourar? Nada disso. Especialista do Itaú explica por que a inteligência artificial segue como aposta promissora
Durante o evento nesta terça-feira (11), Martin Iglesias, líder em recomendação de investimentos do banco, avaliou que a nova era digital está sustentada por sólidos pilares

As propagandas de celulares não mentem: a sua vida está na palma da mão, compactada em uma tela de umas cinco a sete polegadas, com acesso à informações 24 horas por dia.
Porém, há menos de 30 anos, a internet era apenas um bebê, e saber no que ela resultaria era uma tarefa para videntes. Ainda assim, não evitou que empresas saíssem criando projetos desenfreadamente, todos vinculados à nova tecnologia.
No dia 10 de março de 2000, o índice Nasdaq, que é o termômetro das companhias de tecnologia nos Estados Unidos, chegou aos 5.132 pontos — a máxima histórica até então. Mas, antes mesmo que 2001 chegasse, essa euforia dos mercados terminou no estouro da bolha PontoCom, fazendo com que as empresas do índice perdessem 75% do valor até o fim daquele ano.
O fenômeno virou um verdadeiro fantasma no setor de tecnologia, e já voltou a assombrar os investidores.
Com o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), as ações de empresas do setor vêm disparando nos últimos anos, e o S&P vem batendo novos recordes. Porém, os investidores começam a ficar com uma pulga atrás da orelha: seria a era da IA uma nova bolha prestes a estourar?
Há quem diga que sim — inclusive o megainvestidor Warren Buffett —, mas Martin Iglesias, líder em recomendação de investimentos no Itaú Unibanco, não vê sinais de euforia excessiva no mercado. Durante o evento Ponto de Virada, realizado nesta terça-feira (11) pelo banco, o especialista avaliou que a nova era digital está sustentada por sólidos pilares.
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“Estamos com uma visão positiva para o índice S&P 500, e há um motivo estrutural para isso: a capacidade cultural norte-americana de inovar”, afirmou o especialista.
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Bolha PontoCom vs. a era da inteligência artificial
Não é só a capacidade inovadora dos Estados Unidos que fortalece a tese da IA. Segundo Iglesias, há três diferenças fundamentais entre o episódio que entrou para história como Bolha PontoCom e a nova era tecnológica que vivemos hoje.
A primeira é o fato de que a onda da inteligência artificial é liderada pelas maiores empresas do mundo, ou seja, são companhias sólidas. Já na era PontoCom, o mercado foi tomado por startups, que eram mais suscetíveis às mudanças de mercados e, com isso, eram mais expostas a uma possível falência.
Além disso, Iglesias destaca que as big techs estão rentabilizando muito rapidamente com o desenvolvimento de inteligências artificiais. “A internet demorou décadas para gerar receitas e lucros”, afirmou o especialista durante o evento.
Por fim, o terceiro pilar tem tudo a ver com o tema que vem dominando a mente dos investidores no último ano: a queda dos juros nos Estados Unidos. Com as taxas em torno de 3,75% a 4,00% ao ano, a perspectiva é que o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) siga com novos cortes nos juros no curto prazo, além dos dois já realizados nas últimas reuniões.
Já na Bolha PontoCom, foi justamente uma mudança brusca da política monetária dos Estados Unidos que levou muitas startups à falência. Entre os anos 1999 e 2000, o Fed elevou os juros seis vezes seguidas em meio à preocupação com a inflação. As taxas chegaram a 6,5% na época.
“Hoje, não são startups em jogo, e não há um ambiente negativo”, afirmou Iglesias.
Inteligência artificial é oportunidade de investimento
Em meio ao boom das ações de tecnologia, Márcio Kimura, superintendente íon Itaú e head da Itaú Corretora, que também estava presente no evento, ressalta que o momento cria uma oportunidade para os investidores brasileiros — mas só para quem está disposto a diversificar.
“No Brasil, quase não há empresas de tecnologia. As que existem são voltadas para o setor, mas focadas em desenvolver softwares e não no desenvolvimento de IA”, afirmou Kimura.
Por isso, na visão do especialista, os investidores locais devem olhar mais para os Estados Unidos e diversificar a carteira alocando recursos nas bolsas norte-americanas.
“Para surfar a onda da inteligência artificial, até é possível alocar recursos em BDRs no mercado local, mas tem a opção de fazer investimentos lá fora, e essa diversificação é muito importante”, disse.
Uma bolha no radar do Goldman Sachs
Apesar da visão positiva do Itaú, não é todo mundo que anda tão animado assim com a onda da IA. Em relatório recente, o Goldman Sachs destacou que não vivemos uma bolha… ainda.
Segundo os analistas, embora o desempenho das ações esteja sustentado por lucros robustos — ao contrário do que ocorreu no final dos anos 90 —, existe um risco crescente de desequilíbrios se tornarem mais evidentes à medida que o boom de investimento em IA se estender.
A crescente dependência do financiamento por dívida é um dos sinais de alerta que soam aos ouvidos do Goldman Sachs. Isso porque, enquanto o déficit cresce, os balanços corporativos das empresas de tecnologia já não são tão robustos quanto eram anteriormente.
Além disso, os analistas destacam que os modelos de financiamento de investimento estão mais complexos, enquanto o Fed reduz as taxas de juros em um período não recessivo — sendo sinais iniciais vistos também nos anos 90.
“Por enquanto, o cenário parece melhor do que era na época”, afirmam os analistas. “No entanto, é possível ouvir ecos do que vivemos no boom da década de 1990 no futuro próximo”, completaram.
E não é só o Goldman Sachs que está com um pé atrás. O economista Tony Volpon foi categórico em sua coluna para o Seu Dinheiro: “Estamos vivendo uma bolha tecnológica”.
Além de Volpon, Michael Burry, o guru do filme “A grande aposta”, também soou um novo alarme nesta terça-feira (11). Burry, que ganhou fama por sua aposta massiva contra a bolha imobiliária norte-americana em meados dos anos 2000, acusou as big techs dos EUA de inflarem seus lucros artificialmente com inteligência artificial.
Em publicação na rede social X, o guru afirmou que as empresas estão estendendo a vida útil dos chips para diminuir os impactos da depreciação nos lucros. Enquanto Burry deixa o som do alarme soar, o índice S&P apanha na bolsa hoje, pressionados pela perda no setor de tecnologia.
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