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Felipe Miranda: Em busca do heroísmo genuíno

O “Império da Lei” e do respeito à regra, tão caro aos EUA e tão atrelado a eles desde Tocqueville e sua “Democracia na América”, vai dando lugar à necessidade de laços pessoais e lealdade individual, no que, inclusive, aproxima-os de uma caracterização tipicamente brasileira

4 de agosto de 2025
20:00 - atualizado às 15:05
Bandeiras do Brasil e EUA unidas
Chanceleres do Brasil e EUA se encontraram em Washington - Imagem: IStock

“Em busca do heroísmo genuíno” não tem a importância histórica da “Proposta Larida”, claro, mas é meu texto predileto de André Lara Resende. Se, depois do Iluminismo, não podemos mais nos apoiar na onipotência e na onisciência de Deus, qual será nossa grande referência?

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"Se Deus está morto”, para usar a expressão clássica não-literal de Nietzsche, no sentido de que foi sobrepujado pela luz da razão e pela perda da fé nos valores tradicionais, restam-nos reis que não foram ungidos por um poder transcendental ou uma república laica, escorada em leis, princípios e instituições mundanas. E se não pertencemos ao sagrado, estamos mais próximos do profano. 

O problema é que a sociedade moderna enterrou Deus sem colocar nada à altura em seu lugar. Nada poderá ter a mesma legitimidade percebida do que o divino. Haverá falhas, rachaduras e imperfeições, permitindo insurgências contra o status quo e divisões da sociedade. Só Deus não pode ser questionado.

O discurso da moda agora defende o “homem desconstruído”. Momentos estranhos em que enaltecemos a destruição, em vez da construção. Matamos o “Ânimus" em prol de um discurso identitário incapaz de propor algo novo consistente, incorrendo no risco do niilismo social. Se você está desconstruído, o que resta de você? Um grande terreno baldio representaria seu psiquismo.

Não há mais mitos, símbolos, referências ou heróis. Sem a dimensão do simbólico, perdemos aquilo em que nos espelhamos, o objetivo a ser perseguido, uma espécie de sentido capaz de unir sociedades e famílias. Só sobra o nada.

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Há cerca de 80 anos, para evitar uma terceira guerra mundial que extinguiria nossa espécie, organizamos um pouco a coisa com o multilateralismo, o fortalecimento da ONU, a OEA, a Unesco, os tribunais internacionais. Criamos o GATT (que viria a se tornar a OMC), a OTAN protegia o Ocidente (e seus valores tradicionais). E, claro, a própria Segunda Guerra Mundial foi definida a partir da aliança umbilical típica entre Estado norte-americano, suas universidades e o setor privado. 

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Como nos lembra Yuval Harari, parecíamos ter alcançado uma grande conquista: um acordo institucionalizado de que um país/povo não poderia invadir a nação do coleguinha. E para quem estuda processos civilizatórios sob uma perspectiva histórica, essa questão da segurança e da não-invasão foi das mais notáveis. Colhemos os dividendos da paz por um período prolongado sem precedentes. 

Toda essa Ordem Mundial foi articulada, liderada e coordenada pelos EUA, que, num processo endógeno e autorreflexivo, também se beneficiavam dela. Eram eles os defensores dos valores ocidentais clássicos, o xerife do mundo, a referência de instituições inclusivas e de aumento da produtividade dos fatores, a liberdade de imprensa, de pensamento universitário e do judiciário.

E o que vemos agora?

Ataques frontais ao multilateralismo e ao livre-comércio, tentativa de direcionamento do pensamento a algumas das principais universidades norte-americanas (Harvard é o exemplo mais representativo), punições a juízes da Suprema Corte de jurisdição alheia e soberana (com isso, não pretendo diminuir ou relativizar os excessos e abusos do STF), tentativas de reduzir preços de medicamentos na marra a partir de ameaças a farmacêuticas, críticas ao Banco Central (Gleisi, é você?), demissão a chefe do departamento das estatísticas oficiais, num movimento de fazer inveja à interferência de Cristina Kirchner no Indec — quem sabe poderíamos exportar Márcio Pochmann para o cargo? Sem tarifas sobre ele, claro…

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Em resumo, os EUA afrontam aquilo que foram há pelo menos 80 anos. Emitem sinais contundentes e sucessivos de perda de previsibilidade, de maior arbitrariedade e menor impessoalidade, afastando-se de algumas de suas características mais constitutivas. O “Império da Lei” e do respeito à regra, tão caro aos EUA e tão atrelado a eles desde Tocqueville e sua “Democracia na América”, vai dando lugar à necessidade de laços pessoais e lealdade individual, no que, inclusive, aproxima-os de uma caracterização tipicamente brasileira.

“Você sabe com quem está falando?”, a terrível frase em tom de ameaça descrita por Roberto da Matta como definidora da matriz brasileira, poderia muito bem sair da boca de um defensor do movimento MAGA.

Os sinais se acumulam em desfavor do dólar. Não no sentido de perda de seu papel como reserva de valor ou uso no comércio global. Muito menos ainda com a estúpida ideia de sua substituição pela “moeda dos BRICs”, essa alucinação. Mas de uma perda de sua importância relativa e da diversificação entre outras moedas e ativos, levando a uma gradual mas consistente perda de valor da moeda norte-americana, em favor de todo o resto (e lá vai o ouro para cima dos US$ 3.500 de novo!). Os dados de emprego abaixo do esperado por lá são apenas um reforço conjuntural a uma tendência mais estrutural e de longo prazo.

Inversão de papéis

Enquanto isso, a esquerda latino-americana, que começa a sentir os efeitos do “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, agora se torna defensora do livre-comércio e da globalização que tanto combateu. Eram felizes e não sabiam quando encontravam o liberalismo como seu principal antagonista. Defenestraram tanto o "consenso de Washington” que agora não sabem enfrentar algo muito pior.

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Cuidado com o que se deseja! Veremos as consequências da ausência de líderes verdadeiramente liberais. Vivemos tempos em que Lula cita Ronald Reagan e Margareth Thatcher em tom elogioso e saudosista — talvez engane quem não viveu à época ou quem desconhece o nível de fechamento da economia brasileira.

Se os EUA vão se tornando, ao menos circunstancialmente, mais parecidos com os laços de afetividade e pessoalidade das “Raízes do Brasil”, o que resta pra gente? Em que o Brasil pode se tornar?

Torço para que seja uma inversão de papéis, para que possamos mirar a referência dos EUA como representantes da democracia liberal. Temo, no entanto, que sigamos ensimesmados nas nossas próprias referências históricas, tendo em Macunaíma o exemplo a ser perseguido, o herói sem nenhum caráter, duplamente preguiçoso.

Estamos muito baratos, os juros vão cair lá fora e, depois, a Selic também vai ceder por aqui, as tarifas serão bem mais brandas do que o inicialmente previsto diante de tantas isenções. É só não capotar na reta.

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Infelizmente, enquanto uns têm o “Destino Manifesto”, outros se mantêm no “Manifesto Antropofágico”. Com essas referências, os riscos de capotagem na reta desafiam a mecânica clássica.

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