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Um assunto que tem gerado atenção dos mercados é a eleição norte-americana — e a situação não parece muito boa para o presidente Joe Biden
E a festa continua. Apesar de não ser mais o “Mag 7” como conjunto – a ação da Apple está fechando o mês no vermelho e a Google está sofrendo devido ao dano reputacional causado pelos excessos na programação politicamente correta do novo chatbot Gemini – os mercados tiveram mais um mês bom.
E isso em um mês em que o fluxo de dados mostrou a economia americana ainda muito forte – o Fed Now para o primeiro trimestre está rodando na casa dos 3% – junto com uma pausa (poucos acham que seria uma reversão) na tendência de desinflação.
Assim, boa parte do mercado migrou para junho na sua expectativa do início do ciclo de queda de juros por parte do Fed, elevando a taxa dos Treasuries de dez anos para o patamar de 4,25%.
Quem não desapontou foi a Nvidia. Seus resultados trimestrais superaram as já elevadas expectativas do mercado e a ação prontamente, elevando seu valor de mercado para perto de 2 trilhões de dólares.
Tudo isso já resultou em uma discussão de "estamos ou não vivendo uma bolha especulativa?", com óbvias comparações sendo feitas com a bolha da internet no final dos anos 90.
A meu ver estamos certamente vivendo uma bolha, mas uma bolha no bom sentido. Olhando a história econômica, toda a grande mudança de paradigma econômico/tecnológico tem sido acompanhada por processos de especulação extremos.
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Foi assim com o início das descobertas marítimas europeias no século 15, pela revolução industrial no século 19, a electrificação nos anos 20 do último século e a internet nos anos 90.
Talvez a melhor maneira de entender por que uma bolha não é somente uma expressão de ganância e irracionalidade, é de aplicar a teoria de opções reais para a valorização das empresas.
Em ambientes de rápidas inovações tecnológicas, não podemos somente fazer exercícios de valor olhando o resultado esperado e a taxa de desconto apropriada.
Devemos perceber que boa parte do valor reside na capacidade de aquela empresa abrir novas frentes de negócios e lucro: de ter a opção de abrir essas frentes.
E como no caso das opções financeiras, quanto maior a volatilidade tecnológica, maior o valor dessas opções reais.
Assim, muitos acham ridículo que a Nvidia tenha uma razão valor de mercado/vendas acima de 30, ou um P/L acima de 60. Mas pela sua posição tecnológica nesta nova era, talvez não seja tão ridículo assim; só o tempo dirá.
Eu continuo tendo uma visão positiva dos mercados americanos.
Tenho certeza de que em breve veremos alguma correção mais dolorosa, e um cenário de “no landing” com o Fed nem entregando o já mais magro orçamento de cortes de juros, é um risco que não está bem precificado.
Isso dito, estamos vivendo uma bolha que eu acredito ainda está na sua fase inicial.
Outro assunto que tem gerado bastante atenção dos mercados é a eleição americana.
Estamos a muitos meses para a eleição presidencial de novembro nos EUA, mas a situação não parece muito boa para o presidente Joe Biden.
Vamos começar pelas pesquisas. Na média das pesquisas do site Real Clear Politics, Donald Trump lidera Biden por 2% – lembrando que Trump perdeu o voto total em 2016 e 2020, tendo resultados sempre melhores que as pesquisas.
Mas como sabemos o resultado do colégio eleitoral será decidido em alguns poucos estados, e aqui as pesquisas são bem piores: Trump supera Biden por margens de: 6,8% em Georgia, 4,7% em Arizona, e 4,2% em Michigan.
Somente em Pennsylvania que Biden lidera Trump por 1,4%. Então, não por acaso, os mercados de previsão estão operando a probabilidade de Trump ganhar em 44,2% versus 27,8% de Biden (Michelle Obama tem 9% de probabilidade em um cenário de desistência de Biden).
Tudo isso quando a economia americana está no melhor estado possível, e onde uma recente pesquisa mostra 67% do eleitorado achando que Biden está muito velho para continuar presidente, contra 41% para Trump.
Lógico que Biden terá a vantagem da incumbência e ele terá muito mais dinheiro que Trump para gastar na campanha. Mas seria melhor se preparar para a volta de Trump.
Já anunciando o resultado: a eleição de Trump deve levar a um choque inflacionário nos EUA, o que pode ter efeitos negativos de segunda ordem para o Brasil.
Isso terá dois canais: uma alta – pelo menos inicial – das bolsas de valores, e uma política fiscal expansionista.
O governo Biden tem tomado iniciativas, especialmente no campo regulatório, que não são de agrado para muitos setores e empresas.
A FTC, por exemplo, que aplica as leis concorrenciais, sobre a liderança da Lina Khan tem se posicionado contra várias aquisições e fusões (a lista é longa: Microsoft comprando Activision Blizzard; Nvidia comprando ARM, etc.).
A SEC de Gary Gensler tem travado uma guerra incansável quando o setor de cripto, e recentemente sugeriu mais regulações para o mercado financeiro.
No setor energético, Biden recentemente embargou a construção de novos terminais para a exportação de gás natural.
Assim, é bastante provável que a promessa de desregulação em um novo governo Trump deve elevar a valorização de setores e empresas afetadas pelas políticas de Biden.
Outro canal – que também deve ter um resultado inicial positivo para o mercado acionário – será as consequências fiscais de um novo governo Trump.
Muitos analistas políticos esperam que, independentemente de quem ganhar a eleição presidencial, os Republicanos devem retomar o Senado (o Congresso pode mudar de mãos e voltar aos Democratas).
Lembramos que os EUA têm sua versão das “pedaladas fiscais”. Para não impactar as projeções de longo prazo do endividamento governamental, calculados pelo CBO (o equivalente ao nosso IFI), vários programas de despesa e cortes de tributos são aprovados de forma temporária.
Os grandes cortes de impostos aprovados pelo governo Trump em 2017 vão caducar no final de 2025. Se Trump ganhar, com um Senado Republicano, é bastante provável que esses cortes sejam renovados.
Com Biden, há dúvidas se ele tentará a renovação – sua administração tem continuamente defendido que qualquer ajuste fiscal deve ser baseado no aumento da arrecadação.
Como isso pode impactar o Brasil? Como em qualquer economia, choques fiscais acabam impactando a política monetária.
Assim, devemos ver um aumento da taxa de juros neutra, com o Fed praticando uma política mais restritiva, elevando o valor do dólar americano nos mercados globais, com as consequências usuais para mercados emergentes.
*Tony Volpon é economista e ex-diretor do Banco Central
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