Rodolfo Amstalden: Não temos mais história para contar (por enquanto)
Toda queda da Bolsa brasileira tem uma história por trás... Mas talvez a realidade seja mais complicada que isso

De quem é a culpa pela aparente letargia da Bolsa brasileira em 2024?
Seria fácil responsabilizar a fragilidade do arcabouço fiscal, mas não me parece que teríamos aí uma explicação completa.
O Brasil está quase sempre em desequilíbrio fiscal; ainda que haja algumas novidades ruins nesse sentido, não são novidades crônicas.
O humor local melhora e a Bolsa brasileira sobe não por termos resolvido o fiscal, mas sim quando oferecemos algo de bom para ofuscar ou compensar nossos pecados capitais.
No momento, porém, não estamos conseguindo oferecer nenhuma tese construtiva que possa convencer aos gringos ou a nós mesmos…
A verdade é que o Brasil ficou sem narrativa de curto prazo.
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Até pouco tempo atrás, tínhamos uma história bem clara e interessante para contar: dentre os primeiros a apertar o torniquete monetário, mereceríamos também a vanguarda quando chegasse a hora de cortar a Selic.
Mas essa trajetória foi interrompida bem antes do que todos imaginavam, e não existem perspectivas tangíveis de resgatá-la em 2024.
Ao contrário, aliás; em uma leitura pragmática das últimas publicações do Focus, de pura e simples desancoragem das expectativas de inflação, até mesmo a hipótese de aumento dos juros passa a ser reconsiderada.
O futuro da Bolsa brasileira
Em meio a tantas notícias desoladoras, aqueles investidores hipermétropes e esperançosos (dentre os quais me incluo) já caem na tentação de sugerir o potente gatilho das próximas eleições presidenciais.
Com Lula se afastando da Frente Ampla, Haddad buscando seu caminho e Tarcísio ganhando popularidade, vão se acumulando chances reais de um governo mais market friendly a partir de 2027.
No entanto, esta é uma agenda ainda um pouco distante para o mecanismo de precificação do mercado. Talvez funcione bem quando nos aproximarmos da virada entre 2025 e 2026, mas é uma fruta verde por enquanto.
Isso tudo para constatarmos algo doloroso, mas necessário: enquanto não surgir uma nova narrativa promissora de curto prazo, não devemos alimentar grandes esperanças de valorização para a Bolsa brasileira.
De pouco adianta os múltiplos estarem negociando a preços atrativos.
Bolsa barata sem tecido narrativo não fica cara.
E paciência aqui: esse impasse pode continuar por mais tempo do que gostaríamos.

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