Eleições na França: Macron continua, mas ‘macronismo’ pode estar perto do fim
Resultado do primeiro turno das eleições legislativas na França aponta para o risco de paralisia política no país

Há algumas semanas, após uma derrota significativa nas eleições para o Parlamento Europeu, o presidente francês, Emmanuel Macron, convocou novas eleições parlamentares.
Essa decisão levantou questionamentos sobre suas motivações: seria um ato de desespero ou uma estratégia calculada?
Considerando o contexto, inclino-me a crer que se trata de uma estratégia.
O sistema político francês é semipresidencialista, diferenciando-se do modelo português principalmente pela posição preponderante do presidente como chefe de Estado, enquanto o primeiro-ministro gerencia o governo.
Este arranjo confere ao presidente um poder substancial, tornando-o o líder de facto do governo.
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O desafio político de Macron
Desde a última eleição, Macron tem enfrentado desafios consideráveis, sendo obrigado a formar uma coalizão diversificada para garantir a nomeação de um primeiro-ministro alinhado com suas políticas.
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Isso resultou em um governo paralisado, dificultando a implementação das reformas desejadas por Macron.
Dado o fortalecimento da direita e a liderança de Marine Le Pen nas pesquisas, Macron parece antecipar dois possíveis desdobramentos:
- i) Domínio da Direita: Se a direita ganhar mais assentos, formará um governo e nomeará um primeiro-ministro, forçando Le Pen a colaborar com o presidente, o que neutralizaria sua plataforma de oposição; e
- ii) Mobilização do Eleitorado Centrista: Uma maior mobilização dos eleitores centristas poderia ampliar a base de apoio de Macron, permitindo-lhe uma governança mais eficaz.
Embora arriscado, este plano poderia reforçar a posição política de Macron, demonstrando sua recusa em aceitar passivamente a paralisia governamental.
Bem, os resultados do primeiro turno das eleições parlamentares corroboraram as pesquisas: o Reunião Nacional (RN) de extrema-direita e seus aliados lideraram com 33%, a Nova Frente Popular (NFP) de esquerda obteve 28% e a coalizão centrista de Macron alcançou 20%.
Embora o RN tenha ficado ligeiramente abaixo das expectativas, ainda liderou a corrida eleitoral.
Uma estratégia para barrar a extrema-direita
A definição virá no segundo turno, marcado para o próximo domingo, onde os três melhores candidatos do primeiro turno competirão novamente.
Tanto os "macronistas" quanto a NFP planejam unir forças para impedir que Le Pen alcance a maioria absoluta, buscando um equilíbrio parlamentar mais estável.
Fontes: Bloomberg e Ministério do Interior da França.
No gráfico apresentado, observamos os partidos de esquerda na França, como o Partido Socialista, o Partido Comunista, o Partido Verde e a "França Insubmissa", unidos em uma coalizão.
Como disse antes, essa aliança esquerdista, junto com os centristas, trabalha para impedir que o partido de Le Pen e seus aliados conquistem a maioria parlamentar — uma estratégia tradicional na política francesa para limitar o avanço da extrema-direita.
A reação do mercado às eleições na França
A fragmentação do parlamento é problemática, pois pode restringir progressos significativos, especialmente na redução do substancial déficit fiscal, atualmente em 5%. A volatilidade nos mercados deve persistir até a próxima segunda-feira, quando os resultados finais das eleições serão conhecidos.
Até agora, porém, o mercado reagiu positivamente ao perceber que é improvável um aumento nos gastos públicos, já que o partido de Le Pen propôs cortes no imposto de renda e no IVA sobre energia e combustíveis, medidas que agravariam o orçamento já tensionado da França.
Macron e o legado do “macronismo”
Outro ponto em debate é o legado do chamado "macronismo". Podemos estar testemunhando o declínio do projeto político de Emmanuel Macron, que sempre esteve profundamente ligado à União Europeia.
Em sua surpreendente vitória presidencial em 2017, Macron celebrou ao som do hino da União Europeia, e não com o hino nacional francês — um gesto repetido em sua reeleição em 2022.
Desde o início de seu mandato, Macron tem defendido que o sucesso da França está vinculado ao sucesso da UE.
Antes da agressão russa a Kiev, Macron já apelava à UE para aumentar os gastos militares e centralizar suas estruturas de comando para melhor defender seus interesses.
Desde então, o cenário global se tornou mais adverso. Economicamente e tecnologicamente, a França está aquém dos EUA e da China e enfrenta desafios comerciais com essas superpotências.
Além disso, o avanço russo na Ucrânia e o fortalecimento de radicais na Europa são preocupantes para seu projeto. Macron respondeu a esses desafios tentando fortalecer a Europa, mas parece que o eleitorado francês está desgastado por esse projeto.
Seja como for, no contexto atual, os próximos anos podem ser marcados por uma paralisia política na França, com Macron apostando que essa estagnação fortalecerá sua posição política para as eleições presidenciais de 2027, adotando a lógica de que "ruim com ele, mas pior sem ele".
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