Burnout ou mimimi? O perigo da banalização de termos médicos e a falta de empatia no trabalho
A imprecisão no uso diagnósticos e a trivialização de temas de saúde mental não apenas minam a seriedade dessas questões, mas também obscurecem a importância da conscientização em saúde mental nos espaços corporativos

"Eu tenho TDAH."
"João está à beira de um burnout."
"Meu chefe é um verdadeiro narcisista."
Quem ainda não se deparou com alguma dessas afirmações recentemente provavelmente tirou férias do planeta Terra.
E frente a essas afirmações, a reação que vejo de forma mais recorrente no mundo do trabalho é: "lá vem o mimimi."
O uso massivo e sem critério de expressões que remetem a patologias, estados psíquicos e transtornos tem se intensificado na minha observação cotidiana e empírica.
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Temas que precisam ser tratados de forma séria e responsável hoje circulam entre as pessoas como algo trivial.
E essa banalização de termos médicos e psicológicos não apenas diminui a seriedade de condições reais, mas também pode perpetuar estigmas e mal-entendidos.
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"Na boca do mentiroso, o certo é duvidoso"
Na fábula 'O Pastor mentiroso e o Lobo', um jovem pastor, entediado com a solidão ao pastorear suas ovelhas, decide enganar os aldeões gritando falsamente que um lobo estava atacando seu rebanho.
Apesar do descontentamento inicial, os aldeões correram em seu auxílio, proporcionando-lhe a companhia desejada.
Repetindo o truque várias vezes, o pastor perde a confiança dos aldeões.
Quando um lobo de fato ataca seu rebanho, seus gritos por ajuda são ignorados. Quando regressa à aldeia, o rapaz queixa-se amargamente, mas o homem mais velho e sábio da aldeia responde: "na boca do mentiroso, o certo é duvidoso".
Ao atribuirmos diagnósticos sem validação profissional médica, vamos desgastando os termos e a importância da discussão de tratamento desses quadros e de suas causas-raízes dentro do mundo do trabalho.
Nos tornamos pastores mentirosos e todo mundo acaba pagando a conta. Principalmente aqueles que de fato tem um diagnóstico de uma patologia ou transtorno e passam a ser julgados erroneamente como mais um no meio da manada.
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Nos tornamos todos médicos?
Se o autodiagnóstico já é perigoso, quiçá quando fazemos o diagnóstico de outras pessoas.
Ao acusar alguém de ser qualquer coisa, como um narcisista, por exemplo, já estamos condenando essa pessoa a um rótulo que a reduz a arquétipos depreciativos.
É preciso ser responsável no processo de emitir um juízo de valor. Deixemos os diagnósticos conclusivos para os especialistas qualificados.
Primeiro foi a astrologia como justificativa, agora é a vez das patologias, transtornos e estados psíquicos
"Nossa, meu TDAH me faz estourar todos os prazos no trabalho."
Sinto muito em dizer, mas você pode estar usando um artifício que já não cola mais para justificar algo que você não priorizou ou não deu a devida atenção.
Ao fazer um diagnóstico da sua cabeça hipocondríaca, lembre-se que você será cobrado de um exame profissional sobre o que você afirma ser impeditivo para a realização de algo.
Urge a necessidade por uma revisão do nosso léxico
Sugiro um exercício de substituição de alguns termos que talvez você possa estar usando de forma equivocada:
Ao invés de: "eu tenho TDAH", experimente "eu sou muito disperso".
"Nossa, estou tendo um burnout", que tal substituir por "estou completamente exausto."
E, ao acusar um chefe ou colega de trabalho de narcisista sem ter certeza do quadro clínico, uma expressão possível seria "ele tem uma avaliação exagerada de si mesmo".
Para concluir, é essencial sublinhar que a imprecisão no uso de termos médicos e a trivialização de temas de saúde mental não apenas minam a seriedade dessas questões, mas também obscurecem a importância da empatia e da conscientização em saúde mental nos espaços de trabalho.
Destaco a urgência de cultivarmos um ambiente acolhedor, onde o diálogo sobre saúde mental seja incentivado, proporcionando a todos acesso a informações precisas e o suporte necessário.
Até a próxima,
Thiago Veras
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