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Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
Rebalanceando a carteira

Onde investir no 2º semestre: na renda fixa, é hora de olhar para o longo prazo – e alguns vencedores do ano já deram o que tinham que dar

Investidor do Tesouro Direto está rindo à toa com os ganhos dos prefixados e Tesouro IPCA+ no primeiro semestre, mas é hora de revisar a carteira

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
6 de julho de 2023
6:05 - atualizado às 9:06

As expectativas se confirmaram: a renda fixa foi um dos destaques positivos do primeiro semestre, fazendo jus às apostas do início do ano de que esta classe de ativos seria a estrela de 2023.

Com a Selic em 13,75% ao ano, o ano começou bem para os títulos pós-fixados, aqueles com remuneração atrelada à taxa básica de juros.

Mas com a melhora do mercado ao longo do semestre, o investidor se viu no melhor dos mundos para a renda fixa: a taxa de juros ainda elevada continuava beneficiando as aplicações mais conservadoras, enquanto a derrubada dos juros futuros valorizou fortemente papéis mais arrojados.

Os títulos públicos prefixados e indexados à inflação tiveram alguns dos melhores desempenhos do ano até agora, com altas de dois dígitos que, em alguns casos, beiram os 20%.

Isso ocorreu porque os juros futuros mais curtos passaram a refletir uma perspectiva de início de cortes da Selic em agosto, bem antes do que se esperava no início do ano; já os longos, mais ligados ao risco-Brasil, passaram a refletir uma redução no risco fiscal do país, revertendo o pessimismo anterior do mercado em relação às contas públicas.

Esse movimento foi desencadeado, por um lado, pela melhora dos dados de inflação e crescimento e, por outro, pela aprovação do arcabouço fiscal e pelo avanço da reforma tributária no Congresso.

Quem apostou em títulos de emissão bancária, como CDBs, LCIs e LCAs, também se deu bem. Embora eles não estejam sujeitos a um mecanismo de marcação a mercado como os títulos públicos, os pós-fixados continuaram se beneficiando do CDI elevado, enquanto quem comprou prefixados e indexados à inflação no início do ano garantiu taxas gordas e que não devem se repetir no mercado tão cedo.

Apenas no mercado de debêntures é que o semestre não foi tão brilhante assim. Os papéis emitidos por empresas foram fortemente abalados pelo escândalo das Americanas e os problemas financeiros da Light, mas também já começam a se recuperar.

Para o segundo semestre, a situação da renda fixa deve se alterar um pouco, pois alguns dos papéis vencedores da primeira metade do ano já deram o que tinham que dar, segundo os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro. Agora é hora de focar mais no longo prazo.

Mas, no geral, a renda fixa deve continuar vitoriosa nos próximos seis meses. “A questão sobre onde investir mudou pouco em relação ao início do ano. A renda fixa continua sendo o carro-chefe, dado o atual nível de juros”, diz Erick Scott Hood, head de produtos e portfólios do banco Inter.

Esta matéria faz parte de uma série especial do Seu Dinheiro sobre onde investir no segundo semestre de 2023. Eis a lista completa:

  • Cenário macro
  • Bolsa
  • Renda fixa (você está aqui)
  • FII e imóveis
  • Bitcoin e criptomoedas
  • Investimentos no exterior

Tesouro Direto: é hora de alongar os prazos

Prefixados curtos já deram o que tinham que dar

Uma visão unânime entre os especialistas ouvidos para esta matéria é que os títulos públicos prefixados de prazos mais curtos já não estão mais tão atrativos.

Assim, para quem tem esses papéis na carteira, pode ser uma boa hora de vendê-los e realizar os lucros, migrando os recursos para outras alternativas. E, para quem não investe nesses títulos, não é hora de comprá-los.

Tesouro IPCA+ longo é o grande destaque para o segundo semestre

O ativo preferido dos entrevistados para receber as apostas para esse segundo semestre é o Tesouro IPCA+ (NTN-B), sobretudo os de prazos mais longos. Hoje eles oferecem, no vencimento, rentabilidades entre 5% e 5,5% ao ano mais a variação da inflação medida pelo IPCA, o que ainda pode ser considerado um retorno atrativo.

“Se a gente considerar que do lado político e fiscal as coisas ainda não estão azeitadas, mas estão caminhando, um juro real [acima da inflação] nessa faixa parece uma taxa interessante”, diz Renato Ramos, diretor de renda fixa da gestora Empírica.

Por um lado, esses papéis devem continuar se beneficiando das melhorias inflacionárias, fiscais e econômicas e da queda de juros iminente; por outro, protegem do risco de alguma dessas boas tendências acabar se revertendo.

“A gente tem um governo com perfil de ampliar gastos. O arcabouço fiscal tira o risco de os gastos explodirem, mas o governo vai precisar arrecadar mais para cumprir suas metas”, observa Álvaro Frasson, economista do BTG.

Além disso, no exterior, uma recessão se avizinha, ao mesmo tempo em que os núcleos de inflação continuam elevados.

O BTG está posicionado em NTN-Bs longas, com uma duration média de oito anos. Para a pessoa física, segundo Frasson, os vencimentos preferidos de Tesouro IPCA+ são os de 2035 e 2045.

Tesouro Prefixado longo também é opção, mas mais arriscada

Os títulos públicos prefixados de longo prazo (com vencimento a partir de 2029, na visão do BTG) também são boas opções no momento, mas são mais arriscadas, pois não contam com a garantia da proteção contra a inflação e têm uma volatilidade tipicamente maior.

“Se a gente tivesse a convicção de que o atual governo é reformista e que a economia vai melhorar, eu diria para apostar em um pré longo. Mas ainda há muita incerteza, até porque vai haver mudança na presidência do Banco Central no fim de 2024”, disse recentemente Mansueto Almeida, economista do BTG e ex-secretário do Tesouro Nacional, em apresentação no evento BTG Talks.

Títulos privados: perspectivas melhoram no segundo semestre

Para os papéis bancários, vale a mesma lógica dos títulos públicos

Entre os títulos de renda fixa privada é possível encontrar rentabilidades maiores que entre os títulos públicos de prazos semelhantes, e por isso muita gente recorre a papéis emitidos por bancos e cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), como CDBs, LCIs e LCAs (estes dois últimos, isentos de imposto de renda).

Aqui, a orientação para o segundo semestre é a mesma dos títulos públicos: alongar os prazos dos prefixados e indexados à inflação, com preferência para estes últimos.

Erick Scott Hood, do Inter, orienta a montar uma carteira com três a cinco títulos bancários com cobertura do FGC, de emissores diferentes e prazos de três anos ou mais. “Se puder abrir mão de liquidez diária numa parcela da carteira é bom, vai capturar um retorno melhor”, diz.

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Mercado de debêntures renasce

Se teve um mercado que sofreu no primeiro semestre, no universo da renda fixa foi o de debêntures, os títulos de dívida de empresas.

Tudo começou com a revelação do escândalo contábil das Americanas, que derrubou os preços das debêntures da varejista. Em paralelo, começaram a surgir notícias de grandes empresas abertas muito endividadas e com problemas para pagar suas dívidas, diante de uma combinação de problemas internos e Selic elevada.

Foi o caso de CVC e Marisa, mas sobretudo de Light, que chegou a dar calote de fato e prejudicou o mercado de debêntures até mais do que o evento Americanas.

Na época, havia no mercado dois temores: o de que outras varejistas pudessem ter problemas semelhantes ao das Americanas e o de que a inadimplência das empresas explodisse por conta dos juros altos, o que ocasionaria uma crise de crédito.

O que se seguiu foi uma derrubada dos preços dos títulos de dívida, uma disparada das taxas dos papéis prefixados e indexados à inflação e um período de hiato nas novas emissões.

A indicação de que a Americanas era um caso isolado, o alívio nos juros futuros e a melhora nas perspectivas econômicas, porém, ajudou esse mercado a renascer, com recuperação dos preços, redução das taxas e retomada das emissões.

Ainda assim, o soluço fez com que os índices de debêntures terminassem o semestre abaixo até mesmo do CDI, com exceção do índice de debêntures de infraestrutura indexadas ao IPCA, cujo desempenho médio no acumulado de 2023 beira os 10%.

Depois do susto do início do ano, agora as condições desse mercado estão convidativas, pois os preços ainda não se recuperaram totalmente. Mesmo debêntures consideradas de baixo risco – o chamado crédito high grade – estão pagando taxas superiores à média histórica.

Aqui, a preferência também é pelos papéis indexados à inflação, sobretudo os de perfil high grade, dado que a Selic, embora com perspectivas de queda, ainda deve se manter elevada até o fim do ano.

O mais indicado, no caso do crédito corporativo, é investir via fundos. “Se você compra uma debênture diretamente, é preciso acompanhar. Não adianta comprar um título de cinco anos e esquecer para receber no final. Ou você tem tempo, conhecimento e interesse para acompanhar a empresa emissora, ou deve delegar a tarefa a profissionais, diz Renato Ramos, da Empírica.

Na última edição do podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro, a analista de renda fixa da Empiricus, Laís Costa, falou um pouco sobre a sua visão para esse mercado no segundo semestre e destacou a sua preferência por papéis de prazos intermediários (três ou quatro anos).

Ela também disse gostar principalmente dos fundos de debêntures incentivadas com cotas negociadas em bolsa, uma forma acessível para a pessoa física se expor a títulos de renda fixa indexados à inflação com isenção de imposto de renda – lembre-se de que os papéis Tesouro IPCA+ são tributados.

As indicações da analista são os fundos KDIF11, da Kinea (mais conservador), IFRA11, do Itaú (moderado) e BDIF11, do BTG, e CPTI11, da Capitânia (mais arrojados). Os comentários da Laís sobre esses fundos podem ser vistos a partir do minuto 20:45 do vídeo a seguir, mas a análise dela na íntegra vale muito a pena:

Para o curto prazo, prefira os pós-fixados

Desnecessário dizer que as indicações da reportagem não valem para a reserva de emergência, que deve permanecer, como sempre, alocada em títulos pós-fixados de baixo risco, como Tesouro Selic, fundos Tesouro Selic e CDBs de grandes bancos.

Mas, para objetivos de curto prazo para além da reserva de emergência, a preferência também deve continuar sendo os pós-fixados. Títulos públicos atrelados à Selic ou bancários que pagam um percentual do CDI devem continuar se beneficiando de uma taxa básica de juros elevada por algum tempo.

Para o fim do ano, por exemplo, o mercado espera uma Selic em 12,00% ao ano, segundo o último Boletim Focus do Banco Central. Sinal de que o brilho dos pós-fixados não vai se apagar tão cedo.

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