Fã ou hater? Conheça o grupo de mercenários que entrou na guerra da Ucrânia e está colocando medo até em Putin
Bancado por um oligarca russo, o esquadrão de 50 mil homens desempenha um papel fundamental nos combates no leste da Ucrânia

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, a ideia era dominar o país com uma invasão rápida e incontestável. Quase um ano depois, o que se vê é Kiev resistindo com o apoio do Ocidente e o presidente russo, Vladimir Putin, se desdobrando no front da guerra.
Uma das estratégias usadas pelo chefe do Kremlin para manter a supremacia russa foi recrutar reservistas — um plano que provocou uma fuga em massa do país, já que os cidadãos em idade de combate temeram a convocação.
Não foi suficiente, e Putin teve que lançar mão de forças paralelas para enfrentar uma Ucrânia armada pelos EUA, pela Europa e outros aliados. Uma delas é o Wagner, força liderada por mercenários que conta com o apoio de um poderoso empresário russo.
O grupo atua recrutando imigrantes ilegais, especialmente os vindos da África, e presos, com a promessa de cidadania e liberdade caso sobrevivam aos confrontos mortais na Ucrânia.
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Wagner entra em ação
Há pelo menos seis meses, o Wagner vasculha os centros penitenciários russos em busca de centenas de prisioneiros nacionais ou estrangeiros.
Antes de ir ao front, essas pessoas são recrutadas. Em poucas semanas, elas aprendem métodos de combate comuns, que são extremamente resumidos, o que torna a missão na guerra ainda mais perigosa.
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A ação do Wagner é tão intensa que chegou a impactar a população carcerária na Rússia. Um levantamento feito em novembro pelo site Mediazona revelou que, em dois meses, o número de homens nas prisões do país teve uma queda de 23 mil, de um total de 349 mil em agosto.
O site indicou que os números foram fornecidos pela administração penitenciária, e a queda foi verificada apenas entre os condenados homens — nada mudou para aqueles em prisão preventiva ou nas prisões femininas.
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O tiro pela culatra de Putin
O plano de Putin parecia perfeito: trocar sentenças e ilegalidade por liberdade e cidadania após a luta na guerra da Ucrânia — mas o tiro saiu pela culatra.
O homem forte do Kremlin não contava com dois entraves: os recrutados estavam morrendo em massa no front de batalha, desencorajando outros presos a se alistarem, e o grupo Wagner começou a ficar poderoso demais.
Muitos condenados passaram a temer a possibilidade de serem forçados a ir para a guerra, dificultando a cooptação pelo Wagner. Por isso, trabalhadores imigrantes dos países da Ásia Central passaram a se sentir vulneráveis a um possível recrutamento.
No geral, existem cerca de 10,5 milhões de imigrantes do Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão trabalhando na Rússia, de acordo com as últimas estatísticas do Ministério do Interior da Rússia — um recurso enorme para os “headhunters” do Wagner.
Relatos da imprensa internacional indicam ainda que as autoridades russas inscrevem abertamente pessoas para se juntarem às forças armadas no centro de imigração em Moscou. Existem até anúncios nas línguas uzbeque, quirguiz e tadjique, oferecendo aos cidadãos desses países um caminho rápido para obter um passaporte russo se ingressarem nas forças armadas.
Putin entre anjos e demônios
A atuação do Wagner na Ucrânia trouxe à cena a figura de Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo mercenário e oligarca que controla várias empresas russas. Elogiado e demonizado, é crescente o debate sobre o quão perto ele realmente está de Putin, de quais privilégios desfruta e até mesmo se ele nutre ambições presidenciais.

Apesar da notoriedade recém-descoberta, Prigozhin ainda age apenas como pessoa física — sua relação com o Estado é informal e, portanto, frágil, e pode terminar sem aviso prévio. Prigozhin nunca esteve perto o suficiente de Putin para ser confiável em nível governamental.
Mas essa situação começou a mudar após a anexação da Crimeia. Os conflitos em Donbass, como é conhecida a região leste da Ucrânia, mais o impasse da Rússia com o Ocidente abriram espaço para táticas geopolíticas cinzentas que as instituições oficiais teriam dificuldade em oferecer.
O oligarca começou a usar ferramentas informais de influência — mercenários e mecanismos de mídia — que eram novas na Rússia e permitiam que o país operasse fora de vista e sem ser responsabilizado.
Prigozhin atingiu o alvo: se o governo fosse incapaz de resolver certas tarefas — ou não quisesse ser visto na execução delas —, essas ferramentas quase estatais poderiam preencher a lacuna. Putin gostou da abordagem, que também está sendo usada na guerra na Ucrânia.
O chefe do Kremlin concordou em terceirizar certas funções do governo, mas não legitimou Prigozhin. Pelo contrário, o presidente russo, vislumbrando a ascensão do empresário, começou a ordenar, nas últimas semanas, que o Wagner tirasse o pé do acelerador no front de batalha.
Segundo especialistas, por enquanto Prigozhin não está preparado para desafiar Putin. Mas — e esse é um importante mas — eles lembram que é difícil se manter sólido no poder quando seu exército está passando pelo sangrento moedor de carne da guerra.
E os especialistas vão além: a guerra transforma os homens em monstros, e a imprudência e o desespero de Putin para vencer na Ucrânia podem expor fraquezas e abrir brechas para rivais no campo de batalha e na política.
*Com informações da BBC, da CNN e da rfi.fr
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