Felipe Miranda: Esta crise é diferente, como todas as outras
No atual contexto de crise, há uma fórmula certeira para montar um portfólio de investimentos? Eis algumas ideias que podem ser úteis

“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Gosto tanto da frase de Tolstói que a escolhi, junto com o mais que co-autor Ricardo Mioto, para abrir o livro “Princípios do Estrategista” — com uma ligeira adaptação, claro.
Ficou algo como: “todos os investidores de sucesso se parecem; cada fracassado encontra a pobreza à sua maneira.”
Os prejuízos e as crises financeiras têm suas particularidades. Esse, aliás, é um problema importante nas finanças, porque partimos de tendências passadas para tentar entender o futuro.
Quando chega a crise, as correlações pretéritas são perdidas. O que deveria funcionar como hedge passa a caminhar na mesma direção do restante da carteira e — boom! Na crise, quando você mais precisava do dinheiro, as coisas andam em sentidos inesperados.
A tragédia do clássico portfólio 60/40 em 2022, quando ações e bonds caíram ao mesmo tempo e com intensidade, é exemplo emblemático do argumento.
Alocando o capital: o que pode ser seguro na crise?
O que muitos modelos tratam como parâmetros (em especial, as correlações entre os ativos), na prática, se mostram variáveis com comportamento estocástico. Há duas potenciais quebras de correlação me chamando atenção neste momento, com possível efeito sobre conclusões de alocação eficiente do capital.
Leia Também
Rodolfo Amstalden: Moro num Brasil tropical e trôpego, mas moro no Brasil
A primeira delas se refere ao comportamento entre o bitcoin e os demais ativos de risco. Historicamente, fora das discussões apaixonadas dos criptolovers, a Academia tratou as moedas digitais como ativos de risco. A conversa de “safe haven” ou “digital gold” ficava restrita aos fanáticos dessa religião.
Veja: isso não era necessariamente uma crítica ao bitcoin. Havia, sim, artigos acadêmicos, mesmo divulgados por universidades consideradas ortodoxas e renomadas, defendendo a inclusão das criptomoedas em portfólios diversificados. Mas isso se deve pela sua descorrelação com os demais ativos — não por uma correlação negativa ou como um ativo seguro, mais parecido com o comportamento do ouro.
Nós mesmos replicamos o exercício para um Palavra do Estrategista antigo, chegando à conclusão de que, sob a ótica clássica da Fronteira Eficiente de Markowitz, a introdução do bitcoin em portfólios diversificados, a partir de posições necessariamente pequenas, implicava preservação de retorno potencial e redução do risco consolidado da carteira.
Existe um componente novo nessa crise. Pela primeira vez, o bitcoin tem assumido um comportamento diferente, mostrando uma correlação alta com o ouro. De maneira inédita, a criptomoeda vem, sim, se mostrando um hedge interessante, sobretudo para os momentos em que se eleva a preocupação com a saúde do sistema financeiro norte-americano.
Esclarecimento importante: essa não é uma observação sobre o futuro. Não estou afirmando que essa nova característica do bitcoin veio para ficar. É apenas uma afirmação factual, sobre o que já aconteceu e vem acontecendo, objetivamente.
Claro que pode ser algo circunstancial. De maneira geral, as criptomoedas foram criadas como uma reação à crise de 2008, formalmente em 31 de outubro de 2008, 45 dias depois da quebra da Lehman.
Era uma resposta ao medo do colapso do sistema financeiro norte-americano, ao risco de contraparte, à preocupação com a centralização das finanças e à enorme incerteza ali criada. As finanças descentralizadas seriam a resposta à falência do sistema financeiro tradicional.
Não seria, portanto, surpreendente que, numa nova crise bancária, as criptomoedas pudessem se destacar de maneira positiva. Claro que há diferenças entre essa crise e aquela de 2008. A alavancagem dos bancos grandes está entre 5x a 6x, enquanto ultrapassava 30x no caso da Lehman.
Não há uma crise de crédito sistêmica, o que reduz muito as chances de uma grave crise bancária. Mas os bancos regionais parecem, cada um à sua maneira, com seríssimos problemas de descasamento de fluxos. Daí vem um banco, dois, três… onde para? Quantos podem ser salvos? E como fica a questão do crédito imobiliário? Se real estate vier a ser afetado, a crise não muda de patamar?
O ponto central da argumentação é que criptomoedas viraram um palavrão em 2022. Agora, se, de fato, vierem a confirmar seu status de hedge contra a crise atual, podem entrar num novo momento. O modelo está sendo formalmente testado, num ambiente de juros altos. Passar no teste pode ser a marca definitiva sobre levar a sério ou não essa história.
Cenário doméstico e a montagem de uma carteira
Minha outra questão é mais tupiniquim mesmo. As últimas semanas trouxeram significativo fechamento da curva de juros e boa apreciação cambial. Enquanto isso, a Bolsa não andou — o Ibovespa ainda cai 4% no ano.
O gestor João Braga, da Encore, sintetizou muito bem o ponto em vídeo mensal em seu canal do Youtube, ao mostrar como são raros momentos em que o juro futuro está tão baixo e a Bolsa tão barata.
Claro que há motivos para essa quebra de correlação entre juro futuro e bolsa. O primeiro deles poderia se ligar a uma queda das commodities, que empurra para baixo nomes com grande peso no Ibovespa — existe esse elemento, mas quando olhamos para o SMLL, que cai 5,38% no ano e não tem tanto esse efeito, pensamos que a explicação está, no mínimo, incompleta.
A desconfiança com a política econômica e seus impactos micro, sobretudo no que se refere ao uso da caixa de ferramentas tributárias e fiscais, certamente pesa sobre as ações. A Bolsa parece muito barata, mas, na verdade, poderia ser um “value trap”, caso o governo decida mesmo rever créditos fiscais de ICMS, elevar alíquotas de IR e CSLL ou coisas parecidas.
A solução seria fugir da Bolsa, portanto? Não vejo assim. Há empresas de altíssima qualidade, baratas e que conseguem atravessar bem qualquer tipo de clima, até mesmo a “criatividade" e a fome do Leviatã.
Na crise, as oportunidades migram na direção dos detentores de capital. Vejam o que Itaú e BTG Pactual acabaram de fazer. Números muito fortes mesmo num trimestre especialmente desafiador. Algumas correlações seguem firmes no “All Weather Portfolio”, de Ray Dalio. Suspeito que bons times e forte poder da franchises ainda contêm.
O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O jogo só termina quando acaba: WEG em queda, IPCA-15 e cautela na bolsa no último pregão antes do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro
23 de outubro de 2026 - 7:51SEXTOU COM O RUY
A bolsa tem bons motivos para continuar subindo, mas a WEG (WEGE3) serve como alerta
23 de outubro de 2026 - 6:03O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Uma nova aposentadoria complementar: novas pesquisas eleitorais e início da temporada de balanços movimentam os mercados
22 de outubro de 2026 - 8:27EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: Na média, continua tudo meio igual
21 de outubro de 2026 - 20:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Um passo de cada vez: início da temporada de balanços e pesquisa Quaest mexem com os mercados hoje
21 de outubro de 2026 - 8:44O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O joio, o trigo e os inadimplentes: eleições, temporada de balanços, revolta na França e petróleo em alta movimentam os mercados hoje
20 de outubro de 2026 - 8:23INSIGTHS ASSIMÉTRICOS
Protestos na França: quando a dívida cobra a conta das economias desenvolvidas
20 de outubro de 2026 - 7:33O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Temporada de balanços do 3T26, visão de dono para empreender e eleições: o que movimenta os mercados hoje
19 de outubro de 2026 - 8:28VISÃO DE DONO
Antes de abrir uma empresa, experimente um estágio de dono
19 de outubro de 2026 - 6:45PLANO A
Caça às bruxas: os fundos de previdência caros e pouco rentáveis que nós não recomendamos
18 de outubro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Em busca do eletroposto mais próximo e das ações que vão se dar bem na temporada de balanços; veja o que mexe com seu bolso hoje
16 de outubro de 2026 - 8:16SEXTOU COM O RUY
A bolsa subiu na expectativa, mas a realidade segue difícil. O que esperar da temporada de resultados?
16 de outubro de 2026 - 7:05O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A volta do fantasma dos distratos, o peso dos juros para o desempenho da bolsa e tudo o que mexe com o seu bolso hoje
15 de outubro de 2026 - 8:35EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: O empurrão que faltava para o Novo Keynesianismo
14 de outubro de 2026 - 19:45O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Brasileiros à prova da teoria financeira, ‘Pix MEI’, o renascimento do Magalu e o que mais mexe com o seu bolso hoje
14 de outubro de 2026 - 8:28O MELHOR DO SEU DINHEIRO
As propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para as PMES, o sumiço das LCIs e LCAs que pagavam 95% e o que agita os mercados hoje
13 de outubro de 2026 - 8:19O MELHOR DO SEU DINHEIRO
É o fim dos aplicativos de banco? Os gerentes de IA e as notícias mais importantes para o seu bolso neste feriado
12 de outubro de 2026 - 8:01TRILHAS DE CARREIRA
Ter lado sem perder o eixo: o que está em jogo no trabalho quando você se posiciona politicamente em tempo de eleição
11 de outubro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A conta que você não pode atrasar, os encantos da China e o que mais mexe com seu bolso hoje
9 de outubro de 2026 - 8:47O MELHOR DO SEU DINHEIRO