A disparada das ações da Nvidia é só mais uma bolha de tecnologia (e está tudo bem)
O instinto do mercado em inflar os preços de ativos como os da Nvidia e fazer previsões demasiadamente otimistas é exatamente o mesmo de 20 anos atrás

Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. De tempos em tempos, bolhas se formam no setor de tecnologia. E está tudo bem…
Aceitar essa dinâmica nada mais é do que compreender o quão cíclico é esse segmento.
Mas calma, você deve estar se perguntando: todos os anos o investimento em tecnologia cresce. Se o crescimento geral é estável e duradouro, como você pode acusar de cíclico um setor com esse?
Um pouco de história vai nos ajudar.
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Como assim?
Um dos melhores exemplos de setor cíclico é o de commodities.
Petróleo, minério de ferro, alimentos… para todos esses produtos aceitamos que forças de oferta e demanda se digladiam o tempo inteiro em busca de um equilíbrio.
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Qualquer disrupção em um dos lados é capaz de provocar flutuações enormes nos preços dessas commodities e nos resultados das empresas que as produzem.
Desde a pandemia, por exemplo, os preços do petróleo oscilaram entre US$ 35 negativos (sim, negativos) no auge da pandemia e US$ 120 por volta de fevereiro de 2022.
Talvez — e essa é tão somente uma especulação minha — a natureza “concreta” das commodities torne muito mais simples entender seus ciclos.
Afinal, um barril de petróleo vendido no “all time high” é similar ao barril vendido no “all time low”.
Apesar dos orçamentos de tecnologia crescerem todos os anos, os ciclos aqui se movem em ondas de inovação. Assim, cada vez que o ciclo muda, mudam também os produtos e serviços em que as empresas estão investindo.
Por exemplo, se pensarmos em termos de hardware, a década de 90 e o início dos anos 2000 foram marcados pelo crescimento exponencial dos servidores.
Em paralelo a eles, aplicações de software como ERP e bancos de dados também cresceram exponencialmente.
A "bolha" da Cisco
No final dos anos 90, quando era a empresa mais valiosa do mundo, a Cisco cresceu receitas em 57% (1997), 32% (1998), 43% (1999) e 55% (2000).
Em quatro anos, suas receitas triplicaram.
Nos 20 anos seguintes, porém, a empresa mais quente do mundo sofreria com a estagnação, primeiro com a bolha.com e a desaceleração do segmento de tecnologia e depois, no final da década seguinte, com a ascensão da computação em nuvem.
De repente, havia algo mais novo e mais interessante para se investir.
O mesmo aconteceu com software
Na medida em que SAP e Oracle dominaram os dois maiores mercados de software do mundo, um novo problema de negócio ganhou a atenção (e o orçamento) das grandes empresas: o Big Data.
O início da década de 2010 foi a febre do Big Data.
Bilhões de dólares foram empilhados em ferramentas como o Tableau (adquirido pela Salesforce) que prometia entregar aos executivos uma visão 360 de todo o conhecimento disperso por suas organizações.
O Big Data destravaria novas avenidas de crescimento, tornaria os clientes e funcionários mais felizes e blablabla.
Quando eu entrei na faculdade de economia (no distante ano de 2014), todo mundo fazia cursos de Big Data…
Mas, na prática, o “Big Data” do começo dos anos 2010 era meia dúzia de dashboards coloridos vistos no navegador (e futuramente no celular). Uma versão “chique” do que as empresas faziam no excel desde a década de 90.
Os petabytes de dados e mais dados produzidos todos os dias pelas empresas continuaram como diamantes brutos não lapidados.
Ainda assim, muitas empresas levantaram muito dinheiro prometendo lapidá-los.
Por favor, não me entenda mal: o Big Data talvez seja o precursor da inteligência artificial na forma como consumimos hoje, com os modelos transformers e especialmente os modelos de linguagem natural como o ChatGPT.
Em si, porém, o conceito Big Data nunca entregou na prática o que ele prometia no papel.
Agora, chegou a vez da Nvidia.
Sim, provavelmente a Nvidia faz parte de mais uma bolha de tecnologia
Desde 2018, quando recomendamos pela primeira vez as ações da Nvidia, escrevemos sobre como a crescente atuação da empresa no segmento corporativo seria seu verdadeiro upside de longo prazo.
Naquele momento, a Nvidia era uma empresa de games, com a maior parte das suas receitas vinda da venda das placas de vídeo da família RTX.
Passados cinco anos, a receita de “Data Centers”, que engloba vendas de uma série de hardwares de uso comercial (entre eles, AI), é 4x maior que a venda de GPUs de games.
O que vemos na indústria é uma corrida do ouro em que os clientes estão comprando todas as GPUs que conseguem.
Em parte para acelerar o desenvolvimento de seus próprios modelos, em parte para tentar atrasar seus concorrentes no desafio de fazê-lo também.
No tempo, essa corrida maluca invariavelmente levará o mercado a uma situação sub ótima: em algum momento esse excesso de estocagem se transformará em um problema.
Hoje, não é exagero dizer que as empresas de tecnologia estão fazendo reservas estratégicas de GPUs.
É sempre assim no setor de semicondutores.
A não ser, claro, que você diga as palavras proibidas do mercado financeiro: dessa vez é diferente!
Dificilmente será
Para 2024, 2025 e 2026, o mercado estima que a receita da Nvidia crescerá 100%, 37% e 24%, respectivamente.
Isso, aliás, ecoa de uma maneira quase alarmante a história que eu contei acima, sobre a Cisco no início dos anos 2000.
Claro, o mercado, o momento e o impacto dessa nova tecnologia (AI) são completamente diferentes.
Entretanto, o instinto do mercado em criar uma bolha ao inflar os preços dos ativos e fazer previsões demasiadamente otimistas é exatamente o mesmo de 20 anos atrás.
- Nvidia (NVDC34) não está entre as 5 melhores ações internacionais para buscar lucros agora, segundo Richard Camargo. Veja quais são as recomendações do analista da Empiricus Research acessando este relatório gratuito.
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