Felipe Miranda: Paixão antiga — futebol e ações
Por aqui, o cenário macroeconômico é particularmente complexo. Lá fora, o ambiente está cada vez mais nebuloso.

“Quando o amor chamar, sigam-no,
Mesmo que o caminho seja íngreme, árduo.
E quando suas asas os envolverem, entreguem-se a ele.
Ainda que a lâmina oculta entre as plumas possa feri-los.
E quando ele falar com vocês, acreditem.
Embora sua voz possa lhes destruir os sonhos como o vento que devasta o jardim.”
Kahlil Gibran - O Profeta
Sou um apaixonado por futebol e ações. Desnecessário dizer que as coisas não andam propriamente empolgantes nos últimos tempos.
Eliminação em casa para o Ituano, com direito a Fábio Santos perdendo pênalti e choro do filho no estádio, machuca o coração. O Palmeiras está ganhando tudo e a Argentina foi campeã da Copa.
Se não bastasse a humilhação futebolística imposta pelos hermanos, também seu mercado de capitais potencialmente oferece oportunidades mais auspiciosas olhando à frente.
“Saudações aos que têm coragem!”. A questão aqui é o cansaço da população argentina com o Kirchnerismo e a provável alternância de poder à frente.
O pêndulo pode voltar rápido na direção da direita liberal, com melhora da conta comercial. É um trade para os fortes, mas, enquanto o Brasil flerta com a entrada em políticas heterodoxas de esquerda, a Argentina pode logo sair delas.
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Poderíamos seguir o caminho do México, claro, onde um governo de esquerda surpreendeu com uma política econômica ortodoxa.
Lula poderia lembrar daquela antológica goleada no Estádio Azteca, mas parece mais interessado em 1978, na artilharia de Mario Kempes e, segundo as más línguas, críticas de seu interesse por situações mais heterodoxas, no polêmico jogo contra o Peru.
O ministro Haddad se esforça em prol da responsabilidade fiscal, tendo, inclusive, concedido uma bela entrevista à CNN. Quem diria: está menos canhoto do que André Lara Resende…
O ministério da Fazenda mantém diálogo muito construtivo e frequente com os técnicos do Banco Central. Mas, sabe como é, ainda incorremos no risco de perder importantes batalhas.
- Leia também: Felipe Miranda: Penitências marcadas a mercado
Entre a cruz e a espada
Difícil ganhar uma guerra se contamos com o exército de um homem só. Kempes não teria feito seus seis gols e encantado o Monumental de Nuñez se não gozasse da companhia de Passarela, Bertoni e Fillol.
A situação macroeconômica é particularmente complexa. A inflação medida pelo IPCA se mantém acima do esperado, com o segmento de serviços ainda muito pressionado, o que dificulta reduções significativas da Selic. Ao mesmo tempo, a atividade desacelera e identificamos sinais claros de problemas no canal de crédito. Estamos entre a cruz e a espada.
Também no exterior o cenário fica mais nebuloso. Os problemas com o SVB e o Signature Bank ressuscitam velhos fantasmas. Em que medida a questão pode se tornar verdadeiramente sistêmica? Como ficam os demais bancos regionais? Você deixaria seu dinheiro em algum deles neste momento? Uma corrida bancária, ainda que em pequena magnitude, pode nos espiar pela porta?
O Fed também se vê em situação complexa. O mercado de trabalho norte-americano segue apertado, com criação de mais de 300 mil postos no último mês. A inflação persiste e há chances não desprezíveis, inclusive, de que volte a acelerar.
O Banco Central dos EUA se preparava para possivelmente acelerar o ritmo de altas da taxa básica de juro. Agora, enfrenta uma questão bancária e potenciais problemas de liquidez no sistema. De um lado, oferece liquidez; de outro, comprime a liquidez subindo juros e reduzindo seu balanço. Equação estranha.
Os desdobramentos possíveis
Encontro três corolários possíveis dos novos desdobramentos:
1 – Trouxemos o risco de cauda para a mesa, aqui e também lá fora. Claro que as probabilidades são razoavelmente baixas (isso define, inclusive, um risco de cauda), mas elas estão no radar. Parte (pequena) de seu dinheiro pode (e deve) estar nos mais tradicionais safe havens, os portos seguros mais clássicos possíveis. O ouro volta a andar bem nesta segunda-feira.
2 – Quase como um desdobramento do primeiro ponto, a dispersão de resultados futuros possíveis aumentou muito. A incerteza é enorme e o comportamento dessa madrugada e manhã ilustra bem isso. Wall Street chegou a subir forte; depois caiu e ninguém sabe como vai ser à frente. Há de se ter uma boa posição de caixa neste momento. No Brasil, você é muito bem pago para esperar. Não há porque matar no peito toda essa incerteza.
3 – Ações ligadas a eventos particulares e dissociadas da questão sistêmica ganham atratividade adicional neste momento. As ações de Méliuz estão no caixa e temos uma possibilidade material de o BV fechar o capital da companhia a R$ 1,50 (atualizado pelo CDI) em seis meses. Enquanto isso, você vai andando com o benchmark da renda fixa, numa companhia que passa a gerar caixa. Coelce está publicamente na prateleira, enquanto negocia abaixo do valor do ativo regulatório.
Enquanto o noticiário sistêmico e macroeconômico dificulta a visão de nomes abaixo do radar, continuamos vasculhando cases micro. Paixão antiga sempre mexe com a gente.
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