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Bia Azevedo

Bia Azevedo

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

DE OLHO NAS REDES

O ultimato de Mark Zuckerberg: se não quiser pagar, pare de reclamar — por que a Meta quer cobrar mensalidade de usuários, é o fim da era da internet de graça?

Bia Azevedo
Bia Azevedo
19 de novembro de 2023
8:15 - atualizado às 12:35
mark zuckerberg
Imagem: Shutterstock/Montagem Felipe Alves

Recentemente, a Meta (dona do Facebook e Instagram), de Mark Zuckerberg, deu duas opções para os usuários de vários países da Europa: ou vocês pagam para usar nossas redes sociais, ou param de reclamar que nós usamos seus dados para anúncios. 

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Quem escolher a primeira alternativa terá que desembolsar quase 10 euros (R$ 52,80 na cotação atual) por mês para versão web das duas redes ou 12,99 euros (R$ 68) para iOS e Android. 

Mas nem mesmo quem optar pelo pagamento vai estar livre de ser decodificado pela empresa. Isso porque a mensalidade garante que suas informações não serão usadas em anúncios, mas não quer dizer que a Meta vai desistir delas. 

A rede social ainda vai saber por onde você anda, do que você gosta, sua etnia, gênero, opiniões políticas, terá uma estimativa da sua renda e assim por diante.

No comunicado, a companhia praticamente parece deixar claro que está fazendo isso a contragosto. “Acreditamos em uma internet baseada em anúncios, que dá às pessoas acesso a produtos e serviços personalizados, independentemente da sua situação econômica”, afirma a empresa. 

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A impressão é de que, com isso, a Mark Zuckerberg dá um ‘cala boca’ na União Europeia, que vinha encrencando com a política de dados da Meta há um tempo. 

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Não dá para esquecer que o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), que vigora nos países do bloco desde 2016, é a legislação de privacidade e segurança mais rígida do mundo. 

Mark Zuckerberg, inclusive, já teve que ficar de frente com o Parlamento Europeu por causa da suspeita de uso indevido de dados pessoais dos usuários na esteira do escândalo da Cambridge Analytica

Além disso, é possível olhar para a medida da Meta como uma forma de testar se os internautas são realmente tão contra o uso de dados assim. 

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No final a questão é a seguinte:

Se é isso que Mark Zuckerberg quer, você se importa tanto assim em ser um … produto

“Se você não está pagando por um produto, o produto é você”. A frase resume o acordo tácito entre sociedade e as big techs. Todos nós meio que sabemos que o Facebook ou o Instagram nunca foram de graça mesmo, os usuários são a commodity. 

O famoso documentário de Jeff Orlowski, O Dilema das Redes, mostra exatamente como funciona o mecanismo de recompensa que nos vicia nos aplicativos e usa isso para vender cada vez mais informações para quem puder pagar melhor. 

É uma simples questão hormonal. 

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A série de likes, compartilhamentos e comentários faz nosso cérebro liberar a substância que todos nós buscamos: a dopamina, carinhosamente apelidada de a Kim Kardashian dos hormônios pelo psicólogo britânico Vaughan Bell, por ser um hormônio bem famoso. 

Quanto mais vício, mais dados. E assim a máquina de Mark Zuckerberg e outros bilionários se alimenta. 

Não me entenda mal, eu adoro trocar minhas informações mais sensíveis por alguns  minutos (ou algumas horas) de vídeos divertidos e rápidos, ou posts motivacionais. Afinal, além de tudo, esse é meu trabalho.  

Mas a questão é que esse mecanismo parece não estar sendo mais o suficiente. A Meta não é a primeira empresa a começar a cobrar pelos seus serviços — mesmo que a mensalidade para Facebook e Instagram só esteja em vigor em países da Europa, por enquanto. 

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Decisão de Mark Zuckerberg sinaliza para o fim da era da internet de graça?

A primeira plataforma entre as gigantes que capturou esse movimento foi o YouTube, que começou a cobrar uma mensalidade para você poder curtir seus vídeos sem anúncios. 

O serviço já havia alcançado mais de 80 milhões de pessoas no final de 2022 e eu conheço muita gente que se gaba de estar muito mais feliz na plataforma depois de se tornar pagante.

Mesmo assim, o número não chega nem a 4% do total de usuários ativos do YouTube, que já ultrapassa os 2 bilhões globalmente. 

Outras redes sociais também já estão de olho na cobrança. Recentemente, o TikTok confirmou que está fazendo testes como esses em um país que ainda não foi revelado. O que se sabe até agora é que o serviço poderia custar em torno dos US$ 4,99 (pouco mais de R$ 24, na cotação atual).  

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E nem o X (ex-Twitter) está à salvo. De uns tempos para cá, Elon Musk vem ventilando a ideia de cobrar um dinheiro mensal dos usuários. Supostamente, a intenção seria evitar os bots na plataforma. A rede social já cobra cerca de R$ 38  pelo selo de verificação. 

 O Reddit também oferece a opção paga por US$ 5,99 ao mês (R$ 29,17).

Até pode dar certo, mas…

Ou seja, a internet baseada unicamente em anúncios que conhecíamos parece estar dando indícios de fraqueza. Será que esse é o começo de uma mudança estrutural ou não vai colar? 

Por ser um movimento relativamente novo, ainda precisamos de mais testes para saber se essa é uma tendência de fato. 

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Mas 3 pontos podem ser considerados, um ‘a favor’ e dois ‘contra:   

1- A cobrança, em teoria, pode sim ser lucrativa: de acordo com os cálculos do The Washington Post, a empresa de Mark Zuckerberg lucra menos de US$ 8 por mês por cada pessoa usando o Facebook. O que significa que uma mensalidade de US$ 17 faria a companhia arrecadar mais do que com os anúncios. 

2- Tem quem não se importe: eu, por exemplo, não ligo o suficiente para o compartilhamento dos meus dados ou em ver anúncios a ponto de estar disposta a pagar. Por ser uma péssima decisão? Sim, mas não me convence. 

3 - Nem todo mundo será capaz de pagar: o que não dá para deixar fora da jogada é que uma parte relevante dos usuários simplesmente não vai ter condições de pagar. 

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De acordo com  Nina Jankowicz, pesquisadora e escritora americana, a extensão que o Facebook possui entre as camadas mais pobres da população global é impressionante. 

Países como Índia e Filipinas estão entre os mercados em que a Meta mais se expande, onde milhões de pessoas acessam as redes de empresas pelo celulares, pois os planos de telefonia garantem o acesso gratuito às plataformas. 

Ou seja, essas pessoas usam o Facebook e afins para estar em contato com o mundo. Não é tão simples assim abandonar as redes.

O que significa que, para boa parte dos usuários, não é uma opção reservar seus dados. Isso coloca em questão se realmente seria uma escolha dos usuários ou, como eu disse, uma forma das big techs fugirem da discussão com legisladores sobre o tópico. 

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Algo do tipo: “vamos fazer uma para inglês ver”. 

A conclusão, por enquanto, parece ser uma internet ainda gratuita, mas que segrega quem quer ou não ter seus dados compartilhados. E você, pagaria para as redes sociais não usarem os seus dados? Mande um e-mail pra gente com o seu comentário.

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