Crise dos unicórnios e demissões em massa têm explicação: investimentos em startups caíram 44% no primeiro semestre
Inflação global, escalada da alta de juros e a Guerra da Ucrânia geraram incertezas no mercado e "seguraram" os investimentos; as mais afetadas são as startups de late stage e unicórnios

O cenário de inflação global e alta de juros, somado à surpresa com a Guerra da Ucrânia, em fevereiro, trouxeram novas perspectivas e desafios para as startups — e as mais maduras, em estágio pré-IPO, e os unicórnios foram as que mais sentiram o impacto.
Pois esse sentimento de que a torneira secou — que antes era apenas uma percepção dos investidores e especialistas do mercado — ganhou números. O volume de investimentos em startups caiu 44% no primeiro semestre deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado.
Nos primeiros seis meses de 2022, cerca de US$ 2,92 bilhões foram investidos em 327 startups; de janeiro a junho do ano passado, o volume foi de US$ 5,25 bilhões, alocados em 416 negócios. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (6), no relatório semestral da Distrito.
Vale ressaltar que 2021 foi o melhor ano para as empresas de tecnologias em todos os estágios: semente (seed), estágio inicial (early stage) e estágio final (late stage). O ano terminou com volume de US$ 10 bilhões investidos — o que não deve se repetir em 2022, segundo Gustavo Araújo, co-fundador e CRO da Distrito.
Segundo o relatório, a queda no número e volume de investimentos foi alavancada, sobretudo, pelas empresas em estágio final, que são os unicórnios (companhias avaliadas em mais de US$ 1 bilhão) e em fase pré-IPO. As rodadas caíram 68% no primeiro semestre comparado ao mesmo período do ano anterior.
Já as companhias em estágio seed e early conseguiram crescer, mesmo diante do cenário macroeconômico incerto. Elas registraram um aumento de 86% e 14%, respectivamente, em aportes.
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Por fim, a queda de 44% ainda não foi maior por um motivo: “o ano começou com rodadas que já estavam negociadas no ano passado, mas que só foram divulgadas no primeiro trimestre”, afirmou Araújo.
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Demissões em massa nos unicórnios
As empresas de tecnologia mais robustas, que estão no estágio final (late stage), pré-IPO e unicórnios sentiram mais a “fuga” dos investimentos.
Um dos motivos para esse movimento é a mudança de critérios dos investidores. Segundo Araújo, “agora não é mais só crescer de maneira agressiva, mas ter mais sustentabilidade de crescimento”.
Além disso, com menos rodadas e volume menor de investimentos, as startups precisam investir com mais cautela, já que é preciso lidar com o dinheiro por mais tempo.
Por isso, as reduções no quadro de funcionários e em marketing são as primeiras ações das empresas. O setor imobiliário, por exemplo, era um dos mais “desejados” entre os investidores no ano passado — agora, nem tanto.
As incertezas econômicas ainda devem atingir as empresas em late stage no segundo semestre deste ano. Ou seja, a onda de demissões pode continuar nos próximos meses.
E existe uma solução? Para Araújo, essas startups ainda devem ser penalizadas, a não ser que o cenário macroeconômico mude.
O que é pouco provável, já que não se sabe quando a China retomará a produção no nível pré-pandemia, por quanto tempo a Guerra da Ucrânia deve durar e a quando acabará a escalada de juros do Federal Reserve (Fed, equivalente ao Banco Central do Brasil).
Logo, o reequilíbrio das contas (breakeven) é o que deve ser feito pelos unicórnios e empresas em late stage nesse momento.
Por fim, as eleições presidenciais, por aqui, terão pouco impacto no mercado de venture capital, independentemente de quem leve a faixa presidencial. Isso porque o ecossistema de startups brasileiras tem maturidade, além de termos o Banco Central independente e autônomo.
Nubank vai sobreviver à alta de juros?
Apesar das quedas bruscas das ações na bolsa de valores, o Nubank deve respirar com fôlego no mercado brasileiro nos próximos anos.
Embora esteja em um dos setores mais dependentes de crédito e liquidez, a onda de fintechs ainda está longe de ter mudança nos próximos anos. “O Brasil ainda tem problemas estruturais grandes e é um dos países do mundo com mais inovações em tecnologia financeira”, explica Araújo.
As fintechs continuam dominando os aportes, ainda que com um volume menor do que o ano passado. Em seguida, as Retail Techs — startups de tecnologia do varejo, a VTEX por exemplo— e RHTechs — voltadas para recursos humanos, como a Gupy e a Kenoby — foram as empresas que receberam o maior número de aportes nos primeiros seis meses de 2022.
Startups: o que vem aí no segundo semestre
A onda de unicórnios e IPOs observados nos anos anteriores, sobretudo entre 2018 e 2020, deve dar uma trégua neste ano.
Não há expectativas, segundo o relatório do Distrito, pelo surgimento de novas empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão neste segundo semestre.
Por sua vez, o cenário continuará sendo de cautela, ainda muito imprevisível.
Nos próximos meses, a Distrito ainda espera uma redução de aportes, chamando também de correção, em startups em estágio early, em razão das quedas registradas no primeiro semestre nas companhias em late stage.
Contudo, o impacto não deve ser tão forte, já que estão em outro estágio de amadurecimento — de validação e escalabilidade do negócio.
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