Como o Banco Master entra em 2026: da corrida por CDBs turbinados à liquidação, investigações e pressão sobre o BC
Instituição bancária que captou bilhões com títulos acima da média do mercado agora é alvo de investigações e deixa investidores à espera do ressarcimento pelo FGC

O que começou como uma aposta em CDBs com rendimento muito acima da média terminou em liquidação, investigações e dor de cabeça para mais de 1 milhão de investidores Banco Master.
Em poucos meses, a instituição bancária comandada por Daniel Vorcaro se tornou um dos casos mais complexos do sistema financeiro brasileiro, agora sob escrutínio do Banco Central, do Tribunal de Contas da União (TCU), da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF).
A liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central em novembro, abriu uma sequência de desdobramentos e investigações que seguem se acumulando.
Mas, no meio de tudo isso, como o Banco Master entra em 2026 — e o que muda para quem apostou nos certificados do banco nos últimos meses? Se você se desligou das notícias financeiras nas últimas semanas, veja o que precisa saber sobre a instituição.
O Banco Master em 2026
A investigação no Banco Master se concentra em suspeitas de fraudes financeiras, possíveis prejuízos a um banco público e questionamentos sobre falhas na supervisão do sistema financeiro.
O Supremo Tribunal Federal entrou em cena. O ministro Dias Toffoli, relator do caso, chegou a determinar a realização de uma acareação no inquérito que investiga irregularidades envolvendo a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília, BRB, que é estatal.
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A audiência deveria colocar frente a frente os principais envolvidos no caso — Daniel Vorcaro, dono do Banco Master; Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB; e Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central. O objetivo era confrontar versões divergentes de depoimentos e esclarecer contradições.
Na prática, a audiência colocaria sob os holofotes a própria atuação do Banco Central — especialmente no processo de supervisão do Master e na decisão pela liquidação extrajudicial.
Esse movimento chamou atenção por seu caráter inédito: seria a primeira vez que decisões do BC, órgão com autonomia técnica, seriam diretamente confrontadas em um tribunal superior.
A crescente pressão sobre o BC levou entidades do setor financeiro a se manifestarem publicamente em defesa da atuação do Banco Central no caso. Após as críticas, Toffoli voltou atrás e deixou a condução da acareação nas mãos da Polícia Federal.
Na última terça-feira, a PF ouviu separadamente os três executivos ligados ao Caso Master. Em seguida, decidiu realizar uma acareação entre Vorcaro e Costa para esclarecer divergências nos depoimentos prestados antes.
Paralelamente, o caso também passou a ser analisado pelo TCU. Desde a decisão do BC, o tribunal instaurou uma inspeção para avaliar se a liquidação foi, de fato, a única alternativa possível ou se haveria caminhos menos drásticos. O Banco Central respondeu aos questionamentos ainda no fim de dezembro.
Segundo o Broadcast, o TCU determinou nesta segunda-feira (5) a inspeção no Banco Central com "máxima urgência" para "verificar motivação e proporcionalidade" da decisão da autarquia, com acesso integral aos processos sobre o Master.
O tribunal alegou que é preciso fazer uma inspeção in loco, averiguando o itinerário decisório do Banco Central, em um "ambiente seguro e sob as cautelas de sigilo legal" para reconstruir o fluxo de supervisão e resolução no período de 2019 a 2025.
Entre outros documentos, o TCU quer checar se há registros formais de uma reunião que teria ocorrido em 17 de novembro do ano passado entre o então dono do Master, Daniel Vorcaro, e representantes do BC.
O tribunal também quer reconstruir a cronologia e a documentação das tratativas envolvendo soluções privadas com participação do FGC e iniciativas relacionadas a potenciais adquirentes e reorganizações, além de examinar a "governança decisória interna" da autoridade monetária.
O que está em jogo na liquidação do Banco Master?
A atuação do tribunal acendeu alertas no mercado financeiro, diante do receio de uma eventual interferência em uma decisão técnica da autoridade monetária. O mercado também teme uma possível reversão da liquidação, embora as chances sejam baixas.
De acordo com o colunista Lauro Jardim, d’O Globo, os parceiros de Daniel Vorcaro acreditam que o TCU possa suspender a liquidação do Banco Master ainda em janeiro, com a Corte em recesso.
A avaliação é que a inspeção no BC determinada pelo ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso, seria o primeiro passo para o fim da liquidação. A expectativa é que o despacho sobre a inspeção seja publicado ainda hoje.
Já segundo uma coluna do Estadão, ministros do TCU demonstraram insatisfação com a condução inicial do caso pelo relator, especialmente pelas cobranças ao BC terem sido feitas durante o recesso.
Ainda de acordo com o jornal, a avaliação interna é que o relator não deve tentar reverter a liquidação sem consultar todo o colegiado. Hoje, ele teria, no máximo, dois votos favoráveis — o que levaria a uma derrota por 6 a 3.
Como fica quem investiu nos CDBs do Master?
Enquanto o caso continua a esquentar nos bastidores institucionais, os investidores dos CDBs do Banco Master seguem sem uma resposta definitiva. Mais de um mês após a liquidação extrajudicial, a lista de credores ainda está em elaboração, segundo o liquidante.
Segundo o Valor Econômico, a EFB Regimes Especiais de Empresas informou que segue no processo de consolidação e validação das informações de pessoas físicas e jurídicas que têm valores a receber do banco de Vorcaro.
Essa lista é essencial para a liberação dos recursos cobertos pelo FGC — como os CDBs emitidos pelo Master — para cerca de 1,6 milhão de investidores. Sem a relação final de credores, o fundo ainda não pode começar os pagamentos.
A crise do Banco Master: como tudo começou?
O crescimento do Banco Master foi impulsionado por uma estratégia agressiva de captação. A instituição oferecia CDBs com rendimentos de até 150% do CDI e mantinha uma carteira de ativos de maior risco e baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas em dificuldade.
O uso recorrente do FGC como argumento de segurança ajudou a atrair bilhões de reais em captações — cerca de R$ 70 bilhões, segundo estimativas.
Segundo dados do BC, o conglomerado chegou a concentrar 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional.
Em março, surgiu a tentativa de uma saída negociada. O Banco de Brasília (BRB) anunciou a intenção de adquirir 49% do Banco Master, em uma operação estimada em cerca de R$ 2 bilhões e envolvendo aproximadamente R$ 50 bilhões em ativos — incluindo carteiras de crédito vendidas ao varejo com garantia do FGC.
Inicialmente vista como uma solução para o alto custo de captação do Master, a operação logo acendeu um alerta no mercado e passou a ser acompanhada de perto por órgãos de controle.
Em setembro, o Banco Central decidiu vetar a transação, citando riscos financeiros e indícios de irregularidades, como a existência de créditos fictícios que poderiam comprometer a solidez do sistema e gerar contágio.
Entre os pontos levantados estava a compra, pelo BRB, de uma carteira de crédito bilionária do Master sem transparência adequada.
Com o veto do BC, o Master perdeu sua principal alternativa de socorro. Em novembro, uma nova "boia salva-vidas" surgiu no horizonte: a holding de investimentos Fictor apresentou uma proposta para adquirir o banco, com aporte imediato de R$ 3 bilhões para reforçar o capital.
Contudo, no dia seguinte, o cenário mudou radicalmente. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, alegando risco ao sistema financeiro.
Na mesma data, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro e outros executivos, após apurar um esquema de criação e negociação de títulos de crédito inexistentes que somariam cerca de R$ 12,2 bilhões.
Segundo o BC, a decisão “foi motivada pela grave crise de liquidez do Conglomerado Master e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”.
Com a liquidação do Master, as atividades do banco foram interrompidas, a diretoria afastada e o FGC acionado para ressarcir investidores dentro do limite legal. O episódio se tornou o maior acionamento da história do fundo: em março de 2025, o Master mantinha cerca de R$ 60 bilhões em depósitos cobertos.
Desde então, a decisão segue sob escrutínio. Resta acompanhar.
*Com informações do Estadão, Money Times, Globo e Folha.
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