Nova safra de IPOs vai ficar só para 2023 — e terá uma cara bem diferente da última janela
Após um período difícil para IPOs, setores mais preparados para abertura de capital em breve são de energia, infraestrutura e saneamento

O Brasil está há mais de um ano sem ver uma empresa abrir o capital na bolsa de valores — os famosos IPOs. E, ao que tudo indica, ainda deve demorar algum tempo até que a turma da B3 ganhe um um novo membro.
E, de certa forma, dá para dizer que esse vácuo de novas ofertas era mais ou menos esperado. Isto porque a incerteza intrínseca aos anos de eleições presidenciais costuma desestimular a busca pelo mercado de capitais, principalmente durante o segundo semestre.
Mas a interrupção dos IPOs no Brasil aconteceu bem antes de a corrida eleitoral pegar fogo: o sino da B3 tocou pela última vez em agosto de 2021, com a oferta da Oncoclínicas (ONCO3). Nas últimas semanas inclusive houve uma pequena e inesperada janela para follow ons, as emissões de ações de empresas já listadas.
Portanto, não foi o “risco eleições” que congelou a chegada de novas empresas na bolsa, mas sim todo um movimento global de aversão a risco, marcado pelo despertar do dragão da inflação.
E, se entre 2020 e 2021, vimos histórias de empresas ainda sem estrutura e maturidade para acessar o mercado de capitais, a próxima safra deve abarcar companhias com características bem diferentes dessas.
A fim de entender o que esperar da próxima temporada de IPOs, o Seu Dinheiro conversou com: Roderick Greenlees, global head do banco de investimento no Itaú BBA; Felipe Thut, diretor do Bradesco BBI; Teodora Barone, diretora-executiva do UBS BB; Guto Leite, gestor de renda variável da Western Asset; Marcelo Ornelas, gestor de ações da Kinitro Capital; Leonardo Rufino, gestor da Mantaro Capital e Pedro Serra, chefe de pesquisas da Ativa Investimentos.
Leia Também
A última safra de IPOs
Mas antes de contar o que esperar, vale fazer uma retrospectiva de como foi a última safra de IPOs na bolsa brasileira — que foi bem farta, aliás.
Foram 45 IPOs só na B3 e 2.388 no mundo todo, volumes que representam um salto superior a 60% em relação a 2020, de acordo com um relatório da EY.
E olha que 2020 também foi um ano cheio de estreias nas bolsas, apesar da pandemia. No Brasil, foram 28 transações que levantaram, aproximadamente, R$ 117 bilhões em recursos.
Dessa safra, no entanto, poucas empresas tiveram desempenho positivo desde a chegada à bolsa. Entre as poucas sobreviventes estão Petrorecôncavo (RECV3,+65,8%), 3R Petroleum (RRRP3,+65,5%), Grupo Vamos (VAMO3,+103,1%) e Locaweb (LWSA3,+107,7%), lembrando que essas duas últimas fizeram desdobramentos de ações.
“A última janela foi ruim, com empresas longe de estarem maduras para fazer captação. A maioria delas não estava preparada, com modelos de negócios que não paravam em pé”, disse Marcelo Ornelas, gestor de ações da Kinitro Capital.
O hiato
Os ventos de IPO começaram a mudar a partir do momento em que o mercado percebeu sinais de que a inflação estava criando raízes na economia. A alta de preços cobrava reações contundentes do Banco Central, que já vinha elevando a taxa de juros desde março do ano passado.
Com a Selic a 5,25% em agosto de 2021 e o BC indicando novos aumentos, os investidores começaram a migrar para a renda fixa.
Dados da Anbima mostraram que a sequência de captações dos fundos de ações foi interrompida justamente naquele mês. Em contrapartida, os fundos de renda fixa mais conservadores foram os mais procurados.
Na bolsa, o humor também começava a mudar e, naquele mês, o Ibovespa zerou os ganhos que acumulava desde o início do ano. O índice fechou 2021 com queda acumulada de 12%.
Nesse contexto, a janela para IPOs foi, pouco a pouco, se fechando. Até que, no primeiro trimestre de 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia deu o empurrão final que cerrou qualquer fresta. No total, 27 empresas desistiram de se listar na B3 desde janeiro deste ano.
O cenário para os IPOs em 2023
A esperança do mercado é de que o ano que vem seja mais próspero para os IPOs. Essa expectativa se deve a projeções de um cenário mais saudável para a economia local, com inflação sob controle e possibilidade do BC começar a cortar juros.
“Meu cenário base para 2023 leva em conta um respeito à questão fiscal em geral e uma ‘não piora’ do cenário externo”, afirmou Roderick Greenlees, do Itaú BBA.
Ele ressalta, entretanto, que a inflação no ano que vem provavelmente continuará acima da meta do BC e a Selic ainda será de dois dígitos. “Mas isso já viabiliza IPOs”, reforçou o executivo. O Itaú BBA estima entre 25 e 35 transações — entre follow-ons e IPOs — em 2023.
Mas a realidade pode ser ainda melhor se vier uma ajudinha do investidor estrangeiro.
“A gente não tem visto uma participação mais perene do investidor estrangeiro. Mas o fato de o Brasil encerrar o ciclo de alta de juros nos coloca à frente de outros emergentes. Quando os estrangeiros vierem com apetite maior, isso vai contribuir bastante para novos IPOs”, afirmou Felipe Thut, diretor do Bradesco BBI.
A diretora-executiva do UBS BB Teodora Barone já está recomendando às companhias que se preparem para acessar o mercado de capitais logo no primeiro ou no segundo trimestre de 2023.
Na visão dela, os setores mais preparados para protocolarem IPOs já nas primeiras semanas do próximo ano são energia, infraestrutura e saneamento.
“No segundo trimestre, tenho expectativa de que empresas de consumo local e economia doméstica tenham chances. Estaríamos enxergando melhor o começo da inversão da taxa de juros, que deve começar a partir de junho, e sinais mais claros da inflação. Isso pode abrir a porteira para IPOs”, comenta.

Quem vem lá: a volta do “IPO raiz”
A impressão geral é de que a próxima safra de IPOs não vai dar muito espaço para as empresas de tecnologia, classificadas como empresas de “crescimento”, como foi na última temporada.
Quem deve roubar a cena são empresas de setores tradicionais, ligadas à chamada “economia real”, que também tendem a possuir mais histórico de desempenho.
O tamanho das ofertas também deve ser maior. Segundo Teodora, do UBS BB, uma estimativa conservadora para o ano que vem seria de um volume entre R$ 80 bilhões e R$ 90 bilhões, entre IPOs e follow-ons.
“As ofertas devem ser de R$ 1,5 bilhão ou R$ 2 bilhões. Deve ter poucas ofertas pequenas”, estima.
De acordo com Pedro Serra, chefe de pesquisas da Ativa Investimentos, há muitas ofertas represadas.
“Os bancos de investimento devem começar pelas ofertas maiores, histórias mais vendáveis e com motivo real, atingindo investidores maiores e estrangeiros”, apontou.
Atualmente, a SBPAR Participações e a BRK Ambiental permanecem na fila de espera da B3, com pedidos de IPO em análise.
CASA PRÓPRIA
De olho na classe média, faixa 4 do Minha Casa Minha Vida começa a valer em maio; saiba quem pode participar e como aderir
21 de abril de 2025 - 7:00AÇÃO DO MÊS
Itaú (ITUB4), de novo: ação é a mais recomendada para abril — e leva a Itaúsa (ITSA4) junto; veja outras queridinhas dos analistas
3 de abril de 2025 - 6:10DE OLHO NAS REDES
Liberdade ou censura? Até que ponto as redes sociais devem “deixar rolar”: uma discussão sobre Tigrinho, ódio e mentiras
16 de fevereiro de 2025 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Solidão, futuro cancelado e as corridas de 10 km: o mundo visto pelas lentes do Instagram e do TikTok em 2024
22 de dezembro de 2024 - 8:00MONEY MONEY MONEY!
Quem é Justin Sun, o bilionário das criptos que virou sócio em sonho pessoal de Trump e comeu a banana mais cara da história
29 de novembro de 2024 - 18:41DE OLHO NAS REDES
Jovens conservadores: a Geração Z está desiludida a esse ponto? De onde vem a defesa de ‘valores tradicionais’ nas redes sociais?
24 de novembro de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Eleições de 2024: Enquanto todos temiam a inteligência artificial, foi a picaretagem à moda antiga que marcou a campanha
27 de outubro de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Da tolerância e outros demônios: como o Instagram e o TikTok estão mudando nossa relação com a arte?
25 de agosto de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Por que os influencers viraram “a voz de Deus” nas redes sociais — e como a parcela dos ‘sem escrúpulos’ prejudicam o próprio público
21 de julho de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Quanto de mim e de você tem no ChatGPT? Como nossos dados viraram o novo petróleo desta revolução
23 de junho de 2024 - 9:06HISTÓRIA
Lula e Bolsonaro estavam errados sobre o Plano Real — e eles tinham um motivo para isso 30 anos atrás
4 de junho de 2024 - 6:19AUTOMÓVEIS
Os carros mais injustiçados do Brasil: 7 modelos de bons automóveis que andam empacados nas concessionárias — mas talvez não seja à toa
2 de junho de 2024 - 7:50DE OLHO NAS REDES
Por que tem tanta gente burra nas redes sociais? Você provavelmente é o mais inteligente do seu círculo — qual é o problema oculto disso
26 de maio de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Como nossos pais: o TikTok não está oferecendo nada além do ultrapassado — e os jovens adoram. Mas por que achamos que seria diferente?
28 de abril de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
O que o TikTok, Instagram e Facebook têm a ver com as guerras em Gaza e na Ucrânia
17 de março de 2024 - 8:25DE OLHO NAS REDES
A morte da internet, o caso Choquei e o crime sem solução: o que Trump tem a ver com isso — e os desafios para redes em 2024
14 de janeiro de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Pesquisei como ganhar R$ 1 mil por mês sem trabalhar — e a resposta mais fácil não estava no Google e sim no TikTok
17 de dezembro de 2023 - 8:00DE OLHO NAS REDES
O WhatsApp criou mais um arma para espalhar mentiras ou os canais ajudam a quebrar o monopólio do “tio do zap”?
22 de outubro de 2023 - 9:30DE OLHO NAS REDES
Os bilionários piraram? Elon Musk e Mark Zuckerberg ameaçam brigar no ringue, mas tomam nocaute em suas redes sociais
27 de agosto de 2023 - 7:00Onde investir em 2023?