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Google, Apple, Amazon e Microsoft demitiram mais de 10 mil funcionários no último mês; o cenário macroeconômico não é o único motivo
Novembro é o mais novo mês oficial das demissões nas gigantes de tecnologia — big techs, em inglês. Google, Apple, Amazon e Microsoft, juntas, desligaram aproximadamente 12 mil funcionários.
Os cortes não são apenas uma coincidência — ou, muito menos, um momento passageiro. As sucessivas reduções nos quadros de pessoal acontecem por diversos motivos.
O cenário macroeconômico contribui — negativamente — com a maior percepção de risco nos investimentos em tecnologia. Soma-se a isso a incerteza de quanto a guerra na Ucrânia há de durar, além da escalada da inflação global após a pandemia.
E, nesse contexto, as grandes corporações precisaram reorganizar seus negócios, ainda que bastante sólidos, de modo a compensar a queda de receita nos últimos meses.
A Alphabet, dona do Google, por exemplo, encerrou o último trimestre com lucro líquido de US$ 13,9 bilhões, uma queda de 26,5% na receita em relação ao mesmo período do ano anterior.
No caso da Microsoft, a receita da companhia foi de US$ 50,12 bilhões, alta de 11% no comparativo anual e acima das expectativas de mercado. O lucro líquido, no entanto, foi de US$ 17,56 bilhões, uma queda de 14%.
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A Apple foi a única que saiu ilesa no terceiro trimestre. Mesmo diante do cenário desafiador, a empresa de Steve Jobs conseguiu bater o recorde de receita, atingindo a marca de US$ 90,1 bilhões. Em relação ao mesmo período do ano passado (3T21), falamos de um crescimento de 8%.
Já o lucro líquido no período foi de US$ 20,7 bilhões e representou um avanço de 4% na comparação anual.
O “boom” da tecnologia nos primeiro meses de isolamento social em razão da Covid-19 impulsionou as contratações de profissionais do setor em todo o mundo — e com maior volume nas gigantes americanas.
O Google, por exemplo, adicionou cerca de 30 mil pessoas ao seu quadro de funcionários em um período de 12 meses, encerrado em setembro. “Nem tudo isso foi gente contratada organicamente. Teve algumas aquisições que trouxeram funcionários para a empresa”, explica Richard Camargo, analista da Empiricus.
Também sob o contexto da pandemia, com as pessoas mais reclusas em suas próprias casas, o e-commerce vivenciou os seus tempos áureos — e a Amazon ficou entre as beneficiadas.
A empresa de Jeff Bezos expandiu sua capacidade, em resposta ao aumento da demanda. Contudo, 24 meses depois, a infraestrutura tornou-se ociosa, já que, segundo Camargo, foi fruto de um momento de “empolgação” do mercado, já que não houve nenhuma mudança estrutural no setor.
“A demanda já convergiu de volta para a linearidade esperada. [...] A Amazon tem mais capacidade do que ela precisa agora”, afirma o analista.
Ou seja: essa expansão quase que imediata nos quadros de funcionários foi “mal calculada”. Sendo assim, a correção calhou com um momento econômico mais incerto e com menor liquidez no mercado.
“Então é natural que a crise seja uma boa oportunidade para as grandes empresas fazerem uma readequação do quadro [de funcionários]”, afirma Camargo.
A rede social do passarinho azul não é considerada um big tech — e a aquisição por Elon Musk não tem nada a ver com a classificação do Twitter. A Meta, dona do Facebook, é outra que fica de fora do grupo.
Mas, antes de saber o porquê, é importante retomar um pouco de história. As grandes empresas de tecnologia tiveram o seu “boom” nos anos 2010, com a escalada do crescimento do setor, investimentos bilionários e com a região de origem em comum: o Vale do Silício.
Na época, o seleto grupo era composto por Netflix, Facebook — antes de mudar para Meta em 2021 —, Amazon, Google, Apple e Microsoft.
Ao longo da última década, Google, Amazon, Apple e Microsoft se sobressaíram e alcançaram lucros bilionários, deixando as demais para trás.
Em um breve resumo, apenas essas quatro corporações hoje compõem o que chamamos de big techs. O Twitter, em geral, nunca fez parte do grupo restrito, embora seja considerado uma grande empresa do setor de tecnologia.
Mas, no contexto de demissões, Meta e Twitter também integram o clube das “demissões em massa” por “contratação excessiva” durante a pandemia.
A Meta empregou mais de 15 mil novos funcionários em um período de nove meses — e o “excesso” foi identificado há aproximadamente um semestre. Em junho, Mark Zuckerberg disse, em uma reunião interna, que a empresa teria “provavelmente, um monte de pessoas que não deveriam estar aqui”.
Meses depois, em setembro, antes da divulgação dos resultados do terceiro trimestre, surgiram rumores de que a controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp planejava cortar despesas em ao menos 10% nos próximos meses — sendo uma das medidas, o corte no quadro de funcionários.
O quadro se confirmou após o balanço do terceiro trimestre, divulgado há menos de um mês. Na teleconferência de resultados, o dono da empresa afirmou que os investimentos, no próximo ano, devem se concentrar em um “pequeno número de áreas de crescimento de alta prioridade”.
“Isso significa que algumas equipes crescerão significativamente, mas a maioria das outras equipes permanecerá estável ou encolherá no próximo ano. No total, esperamos terminar 2023 com aproximadamente o mesmo tamanho ou até mesmo uma organização um pouco menor do que somos hoje”, disse Zuckerberg, à época.
Já no caso do Twitter, as negociações de aquisição e a gestão de Elon Musk resultaram nas demissões e também na “debandada” de colaboradores no último mês.
Segundo informações da Bloomberg, a equipe do Twitter está esperando por uma redução de 50% na força de trabalho depois que o CEO da Tesla assumiu a chefia da rede social na semana passada.
Se os temores dos funcionários estiverem corretos, estaremos falando de algo próximo de 3,7 mil pessoas na rua.
O cenário macroeconômico com menor liquidez, fruto da crise após a pandemia, e a continuidade da guerra na Ucrânia, de fato, reduziram os investimentos.
Porém, o dinheiro das big techs está longe de acabar. Como já vimos ao longo dessa matéria, as demissões em massa fazem parte de um movimento de correção do quadro de funcionários — o que é contrário ao que vem acontecendo no universo das startups, por exemplo.
“Essas empresas [big techs] são absolutamente geradoras de caixa. Independentemente da decisão de reduzir a força de trabalho em 10% ou vice-versa, elas são negócios extremamente rentáveis”, afirma Richard Camargo.
Com base nos demonstrativos de resultados do último trimestre, as big techs possuem bilhões de dólares em caixa — que reúne, entre outros, investimentos de curto prazo, títulos e valores mobiliários (marketable securities):
Como exemplo, o Google “definitivamente, não é uma empresa com problema de caixa. A questão é que a empresa tem alocado 100% da geração de caixa livre só para recomprar ações”, explica Camargo. Da mesma forma, a Apple faz recompra de ações anualmente, com valores bilionários.
A Meta, apesar de não ser mais considerada uma big tech e ter realizado demissões, têm direcionado o capital para investimentos no metaverso.
Se por um lado, dinheiro não é (ainda) um problema para as gigantes de tecnologia, mesmo com quedas nas receitas nos últimos trimestres, a realidade é diferente para as startups.
Antes da pandemia, pode-se dizer que a disputa por profissionais de tecnologia entre as empresas do Vale do Silício e as startups estavam em pé de igualdade. Porém, o avanço dos juros, atrelado à escalada da inflação, colocou fim à época do “dinheiro fácil” — grandes volumes de investimentos e liquidez no mercado internacional, a uma taxa baixa de juros. O cenário mudou.
“Antes, as big techs eram obrigadas a pagar cada vez mais [para reter talentos]; os profissionais de tecnologia recebiam propostas para ganhar o dobro em startups. O mercado agora é outro: se o funcionário recebe uma proposta para sair [de uma big tech], hoje, ele recebe um ‘boa sorte’ e não mais uma contraproposta", explica Camargo.
Na visão do analista, as startups, por sua vez, não devem voltar a “brigar” por profissionais de tecnologia no mesmo pé de igualdade das big techs. “O modelo de crescer sem dar lucro, à moda Uber, acabou. As empresas estão em uma etapa de readaptar a própria estrutura organizacional para refletir essa mudança.”
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