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Criação de uma liga no molde das europeias e a adesão de mais clubes à Sociedade Anônima de Futebol (SAF) são cruciais, de acordo com analistas do BTG Pactual
O futebol brasileiro reinou por décadas como o melhor do mundo. Aqui e lá fora, Brasil era sinônimo de bom futebol. A Amarelinha era temida e respeitada. Seleções e clubes estrangeiros de todos os cantos do globo se gabavam quando conseguiam jogar “de igual para igual” contra qualquer representante brasileiro dentro das quatro linhas, mesmo que não fosse verdade.
Nas últimas poucas décadas, porém, o mundo do futebol virou de cabeça para baixo. Hoje, somos nós que comemoramos quando algum time brasileiro consegue não tomar uma surra de algum adversário europeu.
Talvez o marco maior da majestade perdida tenha sido a humilhante derrota por 7 x 1 para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 em pleno Brasil. Mas esse processo vem de antes, muito antes.
Já se vão dez anos desde que o Corinthians trouxe o título do Mundial de Clubes para o Brasil pela última vez — e vinte desde que a seleção brasileira conquistou sua última Copa do Mundo. E isso envolve a forma como o futebol brasileiro organiza e se financia.
Diante da dificuldade humana de lidar com o longo prazo, o ufanismo triunfante da mística da Amarelinha cedeu lugar a um viralatismo atávico.
Na visão de analistas do banco BTG Pactual, entretanto, o futebol brasileiro pode recuperar a majestade perdida - desde que mudanças estruturais ainda embrionárias sejam efetivamente implementadas e aproveitadas.
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Para tanto, eles enxergam como cruciais a criação de uma liga no molde das europeias e a adesão de mais clubes à Sociedade Anônima de Futebol, mais conhecida como SAF. Aqui você pode ler algumas das matérias especiais do Seu Dinheiro sobre as SAFs.
“Para acompanhar as demandas dos investidores, a indústria do futebol brasileiro ainda precisa melhorar seu potencial de geração de receita, sustentabilidade financeira e competitividade”, argumentam Carlos Sequeira e Eduardo Rosman no relatório “Futebol Brasileiro - Importância das ligas na Europa e no Brasil”.
Na visão dos autores, um passo crucial nesse processo é a criação de uma nova liga brasileira de futebol que tenha como referência o modelo adotado pelas atuais potências futebolísticas europeias.
Antes de se falar em liga, os analistas do BTG consideram fundamental uma maior adesão dos clubes à SAF, o que consiste em deixar para trás o modelo sem fins lucrativos predominante e passar a privilegiar uma lógica de mercado.
Para eles, a possibilidade de os clubes receberem investimentos e aprimorarem a gestão para aumentar a rentabilidade em algum momento resultará na melhora do desempenho em campo.
Cruzeiro, Botafogo e Vasco da Gama já alteraram seus regulamentos internos e firmaram parcerias com investidores no âmbito da legislação da SAF, que entrou em vigor em agosto do ano passado. Outro grande clube interessado no modelo é o Atlético-MG, atual campeão brasileiro e da Copa do Brasil.
Para Sequeira e Rosman, isso é só o começo. “Acreditamos que nos próximos meses devemos ver cada vez mais transações no setor, com os clubes adotando o modelo de SAF e reestruturando suas equipes de gestão”, afirmam eles.
Distribuição de renda é um tema recorrente nas discussões sociopolíticas e econômicas, mas pouco presente no futebol. Pois a má distribuição da renda entre os clubes é o que está deixando o futebol brasileiro para trás, segundo o relatório do BTG.
Em países como Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e França, a cota de cada clube muda de acordo com o desempenho na liga a cada ano. Além disso, a discrepância na remuneração é muito menor do que a observada no futebol brasileiro.
Enquanto no Brasil, os clubes mais populares e com mais visibilidade na mídia ganham muito mais que os times de menor torcida e menos exposição, nas ligas europeias essa desigualdade é muito menor.
Pelas contas do BTG, se na liga inglesa o clube com a maior receita de transmissão ganha 1,6 vez mais que o de menor receita, o time com a maior receita no Campeonato Brasileiro arrecada 6,4 vezes mais que o de menor arrecadação.
E se a liga inglesa é a mais igualitária neste aspecto, a italiana é a mais desigual entre as analisadas na Europa (4,7 vezes).
Coincidência ou não, enquanto os clubes ingleses tornaram-se figurinhas carimbadas nas competições europeias, grandes potências do futebol italiano andam longe dos dias de glória, contando muito mais com uma “mística” cada vez mais em desuso por quem pretende ser levado a sério num campo de futebol.
Ainda que uma possível ampliação das SAFs atraia investidores locais e estrangeiros e tenha potencial para mudar o cenário futebolístico local, essa inovação jurídica será inócua se não vier acompanhada de uma outra transformação, avaliam os analistas do BTG Pactual: a criação de uma liga brasileira de futebol.
Segundo eles, a criação de uma liga aumentaria a geração de receita, a sustentabilidade financeira e a competitividade das equipes.
“O lançamento de uma nova liga de futebol, seguindo os modelos existentes adotados na Europa, pode aumentar o ‘bolo’ de receitas e reduzir a disparidade entre os clubes da liga”, resumem os autores do estudo.
Para além das receitas, há outras questões complexas, como o estabelecimento de um novo calendário de competições e de regras de fair play financeiro.
“A próxima rodada de negociação de direitos de transmissão acontecerá em breve e poderá ser o pilar das negociações sobre a fundação da nova liga”, afirmam.
A discussão não é recente. O nó górdio a ser desatado é a busca por um modelo que beneficie os clubes, fazendo com que todos ganhem mais, sem melindrar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
No hoje longínquo ano de 1987, quando quase ninguém no mundo falava do assunto, o chamado Clube dos 13 anunciou a criação de uma liga.
O Brasileirão daquele ano foi chamado de Copa União. Pelo menos para quem jogou a competição.
O movimento ocorreu em meio a uma queda de braço entre os clubes e a CBF. Resultado: até hoje a posse definitiva da chamada “Taça das Bolinhas” - o primeiro troféu da história do Campeonato Brasileiro - é disputada na justiça entre Flamengo e São Paulo.
Hoje, cada equipe precisa negociar sozinha com canais de TV, plataformas de streaming e outros veículos de mídia para gerar receitas de transmissão. “Isso resulta em menor receita total para o torneio e pior distribuição de renda entre as equipes”, afirmam os analistas do BTG.
Segundo eles, “a criação de uma liga de futebol unificada permitiria às equipes negociar os direitos de transmissão em um pacote - assim como, naming rights, patrocínios, propagandas nos estádios, licenciamento de produtos etc -, aumentando seu poder de barganha e, consequentemente, aumentando a distribuição de receita para cada equipe”.
Eles argumentam que o modelo de liga desencadearia um ciclo virtuoso no qual maiores receitas de transmissão aumentariam a competitividade. Com o aumento da competitividade, os clubes teriam maior poder de barganha para garantir melhores acordos, aumentando suas receitas.
“Esse movimento pode criar oportunidades de investimento para grandes empresas e até fundos de private equity, como os que já atuam no mercado europeu de futebol”, defendem.
Atualmente, dirigentes de diversos clubes atuam nos bastidores em favor de uma liga. A CBF diz que não vai se opor, mas desde que a liga não interfira em seu calendário de competições - nem no da Conmebol nem no da Fifa.
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