O raio não cai duas vezes no mesmo lugar: das big techs à PEC da Transição
Do lado das big techs, é difícil reconhecer o próximo bull market. Do lado da PEC da Transição, estamos emperrados no valor a ser considerado fora do teto e o prazo.

Em clima de Cyber Monday, lançamos a promoção dois por um. Este Day One trata de duas questões distintas. Sim, sim, você tem razão. Hoje falhamos em coesão. As ideias nos visitam quando elas querem. Quem poderá nos defender das avalanches psíquicas? Escrever também é um ato terapêutico.
Vamos para o primeiro tema. Coisa rápida.
Ao conversar com investidores, logo que penetramos o ambiente internacional pula a pergunta: “O que você acha das FAANGs?” Sejamos honestos: é muito difícil termos uma opinião qualificada sobre as FAANGs (sigla para Meta — dona do Facebook —, Apple, Amazon, Netflix e Alphabet — a dona do Google).
Deve haver centenas, talvez milhares de analistas debruçados sobre essas companhias, escrutinizando cada detalhe operacional, financeiro e da tecnologia dessas empresas. Em outras palavras, nesses nomes muito conhecidos ou estudados, o mercado deveria ser bastante eficiente.
Fora minha incapacidade de oferecer qualquer edge (vantagem informacional ou analítica) nas grandes empresas de tecnologia dos EUA, outra coisa chama atenção nesse enorme interesse em torno das FAANGs: a dificuldade de reconhecer que muito possivelmente o próximo bull market será diferente do anterior.
A onda já passou
A grande onda de valorização das empresas techs americanas já aconteceu. A tendência é de que a nova rodada ofereça outros clusters de supermultiplicação.
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Historicamente, há raras evidências de repetição sucessiva do padrão do bull market anterior. Se, de alguma maneira, a história rima, deveríamos estar mais interessados no setor de energia e petróleo e nos mercados emergentes do que nas techs americanas. Ali, em termos de grandes tendências, já foi. Vamos para a próxima.
A ideia de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar vale também para o governo eleito. Ninguém assalta o mesmo banco na sequência. Quando me falam dos temores do FIES ou do medo de um segundo Petrolão envolvendo a Petrobras, não me parece vir daí a fonte de potenciais problemas graves. O escrutínio sobre essas duas coisas seria enorme e as condições materiais hoje são diferentes.
O que vejo como bastante possível, talvez até provável de mudança na Petrobras, envolve uma entrada pesada em renováveis. Se vier algo nessa direção, poderíamos falar de um capex anual em torno de R$ 15/20 bilhões, o que representaria importante expansão da capacidade de eólica e solar, com impactos expressivos sobre oferta e, por conseguinte, os preços da energia.
PEC da Transição: um outro olhar
Então, chegamos ao segundo tema deste texto: a PEC da Transição, que, até por etimologia, deveria ser algo conjuntural. Aqui, no entanto, gostaria de olhar sobre uma perspectiva mais abrangente e estrutural.
Basicamente, nas negociações da PEC da Transição estamos emperrados no valor a ser considerado fora do teto e por quanto tempo. Pelo que se circula, não há consenso para votação do texto, cuja apresentação fica pra amanhã, algo ruim para quem corre contra o relógio. Cada dia conta.
O Congresso se organiza para barrar até mesmo o prazo de dois anos dentro da PEC da Transição, enfatizando apenas o prazo de um ano, com algo potencialmente em torno de R$ 130 bilhões fora do teto.
O PT alega, contudo, que o projeto mais social-democrata venceu a proposta liberal nas eleições. Sendo um desejo da sociedade, haveria de ser implementado. Portanto, as tais promessas de campanha, como Bolsa Família de R$ 600 mais o adicional de R$ 150 por filho, reajuste da tabela do IR, recomposição real do salário mínimo, entre outras coisas precisariam ser aprovados no Congresso, porque, segundo argumenta, os elementos teriam sido validados na eleição.
Vejo um problema grave nessa argumentação. Na verdade, é só um caso particular de um problema geral, que, no meu entendimento, ajuda a explicar a crise das democracias.
Boa intenção precisa caber no orçamento
É verdadeiro que as tais promessas de campanha foram comunicadas à população e aprovadas. Contudo, essa aprovação se deu sob duas condições adversas.
A primeira: não houve qualquer tipo de informação a respeito das fontes de financiamento desses maiores gastos. Ninguém combinou esse jogo. Para aumentar esses dispêndios públicos, precisaríamos aumentar a carga tributária, emitir mais dívida ou cortar outros gastos. No mundo em que eu vivo, há restrição orçamentária para as coisas.
Como sabemos, o inferno está cheio das boas intenções. Essas boas intenções precisam caber no orçamento. Não há milagre da multiplicação do dinheiro da viúva. A esquerda precisa aprender a fazer conta. Se já aprendeu, haverá de comunicar isso devidamente à sociedade e negociar conflitos. Será que a eleição teria o mesmo resultado se falássemos em aumento da carga tributária, redução de outros gastos públicos ou ciclo vicioso de endividamento?
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A segunda: os efeitos colaterais e as consequências indesejadas de primeira e segunda ordem dos maiores gastos públicos, muitas vezes, não são conhecidos do eleitor médio.
Eis um problema central da democracia (para ficar claro: não é uma defesa de qualquer regime diferente; não há saída além da democracia, mas isso não significa a inexistência de rachaduras importantes): você só pode escolher devidamente uma coisa (no caso, quem serão nossos representantes no Executivo e no Congresso, com seus respectivos projetos e suas agendas) diante de informação completa.
Na presença de assimetria de informação, como escolher bem? O eleitor pode gostar de mais gasto público. Ele entende isso. Foi devidamente comunicado sobre isso. Mas ele não gosta de mais imposto, dólar mais alto, inflação mais alta, juros mais altos, crise fiscal contratada pra frente e recessão. Os mercados já projetam a taxa básica de juro indo a 15% ao ano. O eleitor votou mesmo nesse projeto? Será? Ele foi avisado disso? Estava ciente?
Talvez isso explique um pouco o sucesso eleitoral de projetos populistas. A falta de conhecimento sobre os reais impactos e desdobramentos de suas políticas lhes confere uma vantagem. Efeitos secundários e indiretos são sempre mais difíceis de mensurar e identificar. Só o conhecimento poderia resolver essa lacuna, mas é um projeto a longuíssimo prazo, claro.
Por enquanto, temos um único alento: o eleitor entende a inflação. Isso tira voto. Lula, que, não é passageiro ou caronista, mas, sim, piloto, será o verdadeiro ministro da Fazenda. Ele é sensível a potenciais perdas de popularidade, que, por sua vez, podem derivar de uma inflação mais alta. Nova matriz econômica e inflação baixa são imiscíveis.
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