Felipe Miranda: Long Itaú, short XP?
Inversão do financial deepening? Entenda como os bancões e os escritórios de agentes autônomos operam em meio aos diferentes cenários de juros

Marcela tem uma personalidade interessante, uma reunião rara de múltiplos atributos.
Sempre foi muito devotada ao esporte, o que continua até hoje. Está chegando aos 40 e segue a mesma gostosa dos tempos de juventude. Alguns diriam que ela está até melhor do que nunca.
O corpo rijo, trabalhado em horas de musculação, e a genética que lhe rende alta produção de colágeno colam a pele fina às fibras.
Alvo de desejo e até mesmo obsessão de muitos homens e várias mulheres. De mente aberta, sempre transitou bem entre os dois grupos.
Hoje, está casada e com dois filhos e, ao que tudo indica e ela apregoa, vive uma vida monogâmica.
Estudos e inteligência de rua
Combinava o esporte com os estudos. Foi aprovada em três universidades da Ivy League. Optou por Yale, por tradição familiar no Direito. Mas que não a confundamos com a figura típica da estudiosa introspectiva.
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Em suas férias no Brasil, era figura assídua na cena underground de São Paulo em seus vinte e poucos anos.
Dos baseados puros e mesclados à cocaína, sob a exigência do "ninety nine", passando pelo álcool, usava de tudo. Tinha uma rara inteligência de rua.
Hoje, claro, está bem mais careta, embora se permita algum abuso aqui ou ali — sempre em viagens sem os filhos.
Rebeldia e seriedade
Marcela tinha uma ambivalência interessante. Uma rebeldia transgressora misturada à seriedade com o trabalho, ao qual empenha disciplina espartana, com a família e a gestão financeira. Ela é a responsável pela gestão do patrimônio familiar.
Detentora de um ceticismo pirrônico, nunca foi muito “early adopter”. Valorizava o teste do tempo e costumava citar em rodas de conversas com as amigas o Lindy Effect de Nassim Taleb. Aliás, ela era uma referência na turma, inclusive para alocação de capital.
Os investimentos de Marcela
Nos últimos anos, porém, Marcela começou a experimentar uma posição diferente quando o assunto era investimentos.
As amigas eram mais agressivas e se sentiam na necessidade de se elevar perante o grupo. Marcela não precisava disso.
A única pessoa para a qual importava prestar contas era a si mesma. Já tinha autocrítica suficiente, o que inclusive lhe rendeu alguns episódios de síndrome do pânico e depressão, superados com terapia freudiana, Seroquel e Depakote.
Escritórios de agentes autônomos
Ela continuava sendo atendida pelo private banking de um banco tradicional.
As amigas mais próximas, sem exceção, migraram seus investimentos para escritórios de agentes autônomos, mais descolados e capazes de acessar algumas das melhores casas da Fazenda Boa Vista e os desejados rolês de foil — o que Marcela, aliás, sempre considerou um tanto cafona.
Acontece que, embora preservasse a estética clássica e fosse uma admiradora do design minimalista escandinavo, Marcela é também bastante pragmática.
Nos finais de semana na casa de praia em condomínio um pouco mais afastado, comparava os resultados da sua carteira de investimento com aqueles dos portfólios das amigas, que se orgulhavam da rentabilidade auferida em tempos de juros baixos.
Bancão e os rendimentos
Marcela, desacostumada a estar em posição de inferioridade, via as amigas tendo rendimentos superiores aos de sua família.
Em maio de 2021, portanto, tomou a decisão de migrar seus investimentos também para um grande escritório de agentes autônomos.
Gostava de fazer as coisas com calma. Começou a reunir a papelada, conversou com o marido, falou com vários profissionais.
Enquanto não materializava a decisão mental, continuou comparando as propostas de carteira que lhe foram enviadas como resultado efetivo de seu portfólio, ainda mantido no bancão.
Como resultado desde julho do ano passado, viu sua carteira real render muito mais do que aquela que lhe havia sido indicada por vários assessores de investimento da corretora.
Com seu pragmatismo, não só abortou a decisão de migração como convenceu outras três amigas a voltarem com parte de seus investimentos para o banco tradicional.
Financial deepening
Marcela é uma metonímia de um processo mais amplo ou talvez a prosopopeia de um fenômeno mais geral: uma espécie de inversão, momentânea ou não, do financial deepening.
Se os juros muito baixos alimentaram uma rápida e acelerada migração do dinheiro dos bancos tradicionais às plataformas focadas em investimento, a rápida escalada dos mesmos juros promovem o contrário.
A carteira do agente autônomo rendeu melhor do que aquela dos bancões nos anos anteriores, não por demérito da instituição tradicional.
Uma análise de risco
Ainda que possamos identificar méritos estruturais em favor das plataformas de investimento, como a estrutura aberta a produtos de terceiros e taxas, no geral, mais baixas, o principal propulsor desse diferencial de rentabilidade vinha do fato de que as carteiras sugeridas pelos agentes autônomos tinham mais risco.
Eles não eram tão bons quanto pareciam nos momentos de queda de juro, nem tão ruins quanto parecem agora. É mais simples do que isso: o banco tradicional é… mais tradicional (e menos arriscado, com menos potencial de valorização).
Com os juros voltando a subir, o dinheiro para de sair do banco e talvez até volte pra lá.
O dinheiro que ia, agora começa a voltar
Roberto é o banker de Marcela. Ele também atendia muitas de suas amigas, algumas indicadas por ela mesma. Beto via o movimento de sangria de suas carteiras monitoradas.
Mês a mês, observava o dinheiro saindo do banco para a corretora concorrente. Ele também planejava uma mudança de carreira. Deixaria o private para abrir o próprio escritório de agente autônomo.
Beto também tinha bom gosto e relutava em usar coletinho ou repetir a palavra “Condado”. Sempre foi um esteta. Lidava com famílias tradicionais, mantinha sua própria erudição e vinha ele mesmo de relação afastada com os “novos ricos”.
Contudo, o pragmatismo falava mais alto. Estava prestes a apertar o botão de “eject”. Quando Marcela decidiu ficar, aquilo acendeu um sinal amarelo.
O dinheiro que ia agora não vai mais. Ao contrário, ele começa a voltar.
Migração de dinheiro e crescimento dos agentes autônomos
Há um reforço no movimento, uma espécie de duplo beta atuando em favor do banco em detrimento ao financial deepening. Se o cliente não migra o dinheiro, não há bom nível de net new money.
E se não há dinheiro novo indo para a corretora, isso desestimula a aquisição de novos agentes autônomos, o que atrapalha o crescimento, num mecanismo dialético autoreforçador.
Claro que a corretora, sempre muito perspicaz nas narrativas, já prepara o discurso para defender níveis mais baixos de net new money.
Reis da narrativa
Os reis da narrativa já acordaram ESG, feministas, patrocinadores das Olimpíadas, defensores (e subitamente críticos e, depois, defensores de novo) das criptomoedas, sócios e críticos dos bancos ao mesmo tempo.
Agora, evidentemente, dormiram grandes beneficiários do financial deepening e vão acordar uma casa sólida e diversificada capaz de transitar bem por mares revoltos.
No final do dia, porém, dar importância excessiva à narrativa traz o risco de fazê-lo escravo da própria história. Taleb insiste que a reputação é uma escravidão. Muitas vezes, fazer o certo (apenas fazer o certo) é mais eficiente do que perseguir a aprovação alheia.
O crescimento exigido para se justificar determinados valuations talvez esteja agora no banco, que se beneficia do juro mais alto, e não nos casos de tech (pseudotech) e financial deepening. Tenho gostado das ações do Itaú.
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