Felipe Miranda: 10 surpresas para 2026
A definição de “surpresa”, neste escopo, se refere a um evento para o qual o consenso de mercado atribui uma probabilidade igual ou inferior a 33%, enquanto, na nossa opinião, ele goza de uma chance superior a 50% de ocorrência

Usamos o último Day One do ano para divulgar nossa já tradicional lista de “10 surpresas” para 2026. Esse texto foi publicado originalmente para os assinantes do Palavra do Estrategista e agora é estendido a todos os leitores.
Começo com uma rápida nota metodológica. Não há aqui qualquer pretensão de prever o futuro. Desde a fundação da Empiricus, nossa bola de cristal segue quebrada, o baralho de tarô foi perdido. Esse texto replica a abordagem de Byron Wien, da Blackstone, que desde 1986 publica suas “surprises for the year”.
A definição de “surpresa”, neste escopo, se refere a um evento para o qual o consenso de mercado atribui uma probabilidade igual ou inferior a 33%, enquanto, na nossa opinião, ele goza de uma chance superior a 50% de ocorrência.
Ou seja, é um evento sobre o qual o mercado atribui baixa probabilidade, de modo que sua potencial materialização implicaria um bom payoff, mais ganho potencial do que perda potencial.
Como desdobramento lógico, se você acerta cinco e erra cinco, mas cada acerto paga mais do que cada erro lhe gera prejuízo, então você acaba saindo com lucro consolidado.
Evidentemente, não se espera a realização de todas as surpresas, nem algo perto disso. A rigor, dada a matriz de payoff, um acerto de metade dos eventos já seria bastante interessante.
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Pensamos em probabilidade e retornos potenciais associados a cada caso. Não é um exercício de futurologia. É um instrumental analítico em favor da captura de assimetrias convidativas.
Feitos os esclarecimentos, vamos lá:
1. Tarcísio de Freitas ou Ratinho Jr. será eleito presidente da República
Permito-me juntar os dois potenciais candidatos porque, em termos práticos, eles representam coisas bastante parecidas para os mercados.
Se for Tarcísio, será por uma grande convergência da direita e da centro-direita em torno de seu nome, após eventual desistência de Flávio Bolsonaro à corrida eleitoral.
Se for Ratinho Jr, virá pelo empurrão dado, ainda no primeiro turno, pelo voto útil em seu favor — a centro-direita e a direita convergem em torno de seu nome para levar um candidato mais competitivo e com menos rejeição ao segundo turno.
O evento catalisa importante compressão dos prêmios de risco brasileiros, em todos os níveis e classes de ativos, além de um incremento pronunciado no investimento direto no País.
2. O Ibovespa terá desempenho ainda superior àquele de 2025, superando a barreira psicológica de 200 mil pontos...
...empurrado pela continuidade do ciclo em favor de mercados emergentes, pelos cortes da taxa básica de juro, pelo fluxo de reinvestimento dos dividendos extraordinários anunciados entre novembro e dezembro e pela expectativa de uma política fiscal menos perdulária em 2027.
3. As small caps serão o grande destaque de performance, com o SMAL11 renovando sua máxima histórica
Além das mesmas forças supramencionadas em favor do Ibovespa, as ações de menor liquidez têm um catch up maior a fazer em termos de valuation, são mais sensíveis à queda das taxas de juro e se beneficiam mais diretamente do fluxo comprador doméstico, cuja inflexão pode acontecer em 2026.
4. O consumo doméstico e o crédito à pessoa física se mostram bem mais resilientes do que o estimado pelo consenso, empurrando as ações ligadas a esses vetores em Bolsa
O impacto da isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil por mês é bastante expressivo. O sujeito com esse nível de renda passará a ter até R$ 313 a mais por mês de renda líquida. É um cara que, na média, poupava algo como R$ 500 por mês. Ceteris paribus, pra ele, começa a sobrar por mês mais de 60% do previamente poupado. É um efeito relevante.
5. O ouro estenderá o rali de 70% de 2025 e terá apreciação adicional superior a 20% em 2026
As mesmas forças deste ano em prol do “debasement trade" (de redução da exposição às moedas fiduciárias) continuarão sobre a mesa.
As sociedades polarizadas seguirão sem conseguir resolver adequadamente o conflito distributivo, de tal modo que a pressão sobre as trajetórias de dívida permanecerá.
Os juros devem cair adicionalmente nos países desenvolvidos e em boa parte dos emergentes.
A tensão geopolítica global estará por todo canto. Os metais preciosos são a resposta pragmática a essa reunião de elementos.
6. Apesar disso, a prata não terá o mesmo desempenho, ficando para trás frente ao ouro, por conta de um sobreapreçamento alcançado a partir da exponencialidade do movimento ao final de 2025
Pela primeira vez desde o final dos anos 1970, não coincidentemente quando os irmãos Hunt provocaram um grande short squeeze na prata, o preço de uma onça da prata equivale ao preço do barril do petróleo.
Se acreditamos em relações razoavelmente estáveis ao longo do tempo entre os preços de commodities e em reversões à média, um bom contrarian trade para 2026 seria long (comprado) em petróleo e short (vendido) em prata.
7. O bitcoin superará a marca de US$ 150 mil, depois do freio de arrumação de 2025
O ambiente estará um pouco mais limpo de investidores atraídos pela especulação ao final de 2024, o arcabouço regulatório continuará avançando, os juros serão menores nos EUA e, embora em menor magnitude, as criptomoedas também se beneficiam do debasement trade.
8. Com a China acelerando o crescimento em 2026 e um potencial favoritismo do partido pró-China para as próximas eleições de Taiwan, TSMC e Tencent vão superar a performance das Sete Magníficas dos EUA
A infinita capacidade de trabalho chinesa, somada à energia barata e um grid mais eficiente e atualizado, a China se coloca como rival cada vez mais à altura.
Se a nova ordem mundial caminha para algo mais próximo a um G2 (mundo dividido em duas grandes zonas de influência, entre EUA e China), o peso de Ásia (e particularmente China) nos portfólios deveria aumentar, enquanto investidores globais seguem reduzindo sua exposição ao dólar.
9. O Merval apresentará uma das grandes valorizações do mundo...
...com Milei conseguindo engendrar sua plataforma de reformas e com a Argentina voltando a marcar presença nos índices de ações globais, de América Latina e de mercados emergentes.
10. Os fundos de crédito serão o grande destaque negativo do ano, a partir da normalização dos spreads corporativos, hoje em mínimas históricas, inclusive perdendo para a NTN-B
A abertura dos spreads, somada a um interesse crescente por renda variável, levará a uma espiral de resgates no segmento, cujo início dispara um ciclo vicioso.
O resgate a ser honrado hoje é uma pressão adicional sobre a cota de amanhã, pois força o gestor a se desfazer de determinado papel, exercendo força para baixo em seu preço.
Isso machuca a cota e leva o investidor marginal — intolerante à volatilidade em fundos de “renda fixa”, sobretudo após vendas mal conduzidas pelo canal de distribuição — a solicitar novos resgates. O ciclo se repete.
Antes de terminar, registro um grande agradecimento por mais um ano juntos. É uma honra, um privilégio e uma responsabilidade contar com a confiança de vocês em nosso trabalho. Desejo Boas Festas e um excelente ano novo!
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