Existe amizade verdadeira no trabalho? Como manejar a relação profissional e a pessoal
Amizade se fundamenta essencialmente em confiança, e times de alto desempenho têm esse denominador em comum. Mas o preço aparece na hora de decidir

Já liderei times em que as pessoas também se tornaram minhas amigas. Um dia, alguém de um desses times queria que eu fizesse algo de uma determinada forma. Eu discordava. Como líder, assumi o risco e fiz do meu jeito.
O que veio depois foi um comportamento de quase insubordinação. Nunca fui um líder hierárquico, mas ali percebi um abuso. A pessoa tinha confundido a relação de gestão com a relação de amizade.
Afinal, é possível ter amigos de verdade no trabalho?
Imagino que metade de vocês dirá sim e a outra metade, não. Uma pesquisa da Indeed de janeiro de 2025, com mil pessoas no Brasil, dá uma pista: 54% dizem ter um melhor amigo no trabalho.
Mesmo depois daquele episódio, estou no grupo dos que acreditam. Acredito tanto que casei muitos amigos do trabalho, apadrinhando a união com seus respectivos. E muitos são também meus padrinhos de casamento. Sem citar alguns chefes que se tornaram grandes amigos até hoje.
Amizade se fundamenta essencialmente em confiança, e times de alto desempenho têm esse denominador em comum.
E para ter confiança, eu preciso gostar de você?
Em 1995, o pesquisador Daniel McAllister, da Universidade Georgetown, separou dois tipos de confiança entre gestores. A cognitiva nasce da confiabilidade: sei que você entrega. A afetiva nasce do cuidado mútuo: sei que você se importa comigo.
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Arrisco dizer que um time não funciona sem a primeira, mas pode funcionar sem a segunda.
Mas, se não preciso de amigos para trabalhar bem, ainda vale a pena ter um?
Segundo a Gallup, quem tem um melhor amigo no trabalho tem sete vezes mais chance de estar engajado. É correlação, não causa, mas é um dado que vale ouro.
Como engajamento é uma métrica praticamente universal de sucesso em empresas de cultura forte, eu preferiria não me arriscar a defender um ambiente mais profissional, em que amizades devam ser evitadas.
Só que amizade cobra um preço, e ele aparece na hora de decidir.
Foi o que vivi com aquele time. Sustentar uma amizade no trabalho, seja numa relação como par, seja em uma relação hierárquica, demanda muito mais musculatura das partes. Nancy Rothbard, professora de Wharton, observa que entre amigos é mais difícil contestar uma posição: recuamos para não criar atrito.
Vi isso de perto. Times de alta performance confiam entre si, a ponto de sustentarem conflitos. Já as equipes com vínculos de amizade mais profundos que acompanhei discordavam pouco, naquele espírito de camaradagem.
Não há como fugir do viés de afinidade no momento de decidir. Quem recebe mérito? Quem ganha uma promoção?
Empresa passando por um layoff: quem sai e quem fica? O trabalho do amigo parece melhor do que é, e o feedback duro fica para depois. E, mesmo quando nada disso acontece, quem olha de fora tende a enxergar favoritismo.
Daria para resolver separando as coisas: confiança no trabalho, amizade fora dele. Em outro país, talvez.
Aqui, há o recorte cultural latino-brasileiro no qual vivemos. Erin Meyer, professora do INSEAD, mostra que, nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, a confiança profissional costuma nascer da entrega. No Brasil, nasce do vínculo, e as duas formas de confiança andam entrelaçadas.
Seria possível fugir desse traço cultural, ao qual estamos tão intimamente ligados?
Bem, se você faz parte do grupo que não acredita em amizades no trabalho, a boa notícia é que você não precisa de doses extras de autoconhecimento para criar os devidos limites na relação.
Já se você, como eu, prefere continuar vivendo o lado bom de ter um amigo no trabalho, não subestime as conversas necessárias para preservar limites saudáveis da esfera profissional.
Com aquele meu time do passado, a conversa veio depois. A pessoa reconheceu que havia extrapolado e que tinha confundido os papéis no momento da discordância. Repactuar foi um exercício de muitíssima humildade, abertura, escuta e presença. A relação foi para um patamar muito mais maduro.
Quando me pego pensando nos momentos e dias difíceis que já tive no trabalho, sempre vem o mesmo registro: eu procurando um amigo para desabafar, buscar orientação, uma opinião.
Reproduzir o contexto e os detalhes de uma situação para alguém de fora dela é muitas vezes desanimador. Daí guardarmos tanta coisa do trabalho dos amigos que temos fora dele.
E você, quem procura nos seus dias difíceis?
Até a próxima,
Thiago Veras
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