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Felipe Miranda: Dez lições de um fracassado

Após escrever um best-seller sobre o sucesso, hoje resolvi falar sobre o fracasso. Confira uma dezena de coisas que muito possivelmente você não vai ouvir por aí

2 de agosto de 2022
13:10 - atualizado às 13:14
Imagem conceitual retrata incertezas nos mercados
Imagem: Shutterstock

Depois de escrever um best-seller sobre o sucesso, hoje resolvi falar sobre o fracasso. 

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Em caráter extraordinário, dispenso a definição talebiana de sucesso, ligada a não ter vergonha de encontrar sua imagem no espelho aos 18 anos e mostrar seu caráter atual. 

Sob essa ótica, que continuo acreditando ser a realmente importante, ainda posso visitar aquele menino do Colégio São Luís sem decepções relevantes. 

“Podem até maltratar meu coração, mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar.”

Fracasso e confissões

Excepcionalmente, fracasso aqui está definido como a impossibilidade de superar certos obstáculos que se colocam pelo caminho. Por mais que você se esforce, uma hora você bate com a cara no muro. “O sistema é foda.”

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Talvez essas confissões, tais como aquelas de Santo Agostinho, sejam, na verdade, um hino de louvor. 

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Passei o final de semana no interior de Minas Gerais. E, quando digo interior, estou falando da roça mesmo. Se você acha que o Brasil é a Faria Lima ou o Leblon, a praia do Sancho ou Jeri, me desculpe, mas você não entendeu nada. 

Os lugares possíveis

O motivo principal da rápida viagem para destino distante é a triste e avançada doença de uma tia. Como resumiu Daniel Galera, “só há dois lugares possíveis: a família e o resto do mundo.”

Admito, porém, que em determinados momentos fujo para dentro de mim mesmo. Mergulho nas próprias profundezas para encontrar força e perseguir a verdade. A alma tem seus próprios ancestrais.

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Caráter e jeito de ser

Senhora do Porto faz parte da constituição do meu caráter. Ela ajuda a caracterizar meu jeito de ser e estar no mundo. 

Lá, passei boa parte das férias da infância, quando montávamos a cavalo no pelo, víamos mulas sendo adestradas sem qualquer advento da doma dócil – não me orgulho; apenas é o que é. 

De manhã, pulávamos da ponte no rio, para sentir a adrenalina penetrando nas veias e a xistose e outras verminoses adentrando o corpo. 

À tarde, jogávamos futebol na única quadra da cidade. Eu era um dos poucos calçados, contra a maioria dos pés pretos descalços, sobre os quais as divididas mais doíam em mim do que neles. 

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Até hoje me orgulho de que aqueles pretos, que mantinham uma equipe fechada entre eles chamada “Time do Morro”, pediam para que eu virasse a casaca e jogasse naquela esquadra, liderada pelos irmãos Tita e Pretinho – e foi ótimo reencontrá-los no sábado. Pretinho é o Zidane brasileiro.

Mais para o fim do dia, nos encontrávamos no bar da praça, hoje sob o comando do meu tio Dacinho, para beber cachaça, jurubeba Leão do Norte e, quando sobrava algum dinheiro, umas doses de Campari – era chique na época.

Veja também: OIBR3 hoje: na pressa por encerrar recuperação, Oi recebe proposta de R$ 1,6 bi por operação fixa

Dez coisas que você não vai ouvir por aí

Entre os vários Felipes que habitam em mim, é este que escreve o Day One desta terça-feira. Ele resolveu contar-lhe dez coisas que muito possivelmente você não vai ouvir por aí.

1 – Investidor tem perfil de risco agressivo até ver suas ações caírem. 

Suitability de verdade se vê no dia a dia, não no preenchimento de um questionário anterior à realidade objetiva dos investimentos. 

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A história de preferências estáveis, de que sou avesso, indiferente ou amante do risco independente da situação e do momento de vida, só encontra materialidade nos livros de Financial Economics. 

Nas Finanças Comportamentais, não somos avessos a risco, mas avessos a perdas, alterando nossas preferências conforme o quadro. 

Ainda mais na fronteira, diante da racionalidade biológica, é racional ser amante do risco se você está quase morrendo; enquanto é igualmente racional ser conservador se a vida vai bem.

2 – O dinheiro grosso você ganha onde não há tela. 

Se existe tela e você observa as ofertas de compra e venda, boa parte do processo já está devidamente arbitrado. 

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As verdadeiras tacadas ocorrem no pré-IPO ou em operações de dívida estruturada com pouco disclosure de preços e taxas, mas seu agente autônomo não vai te contar isso.

3 – Retorno passado é o maior indicador antecedente de captação. E também o pior.

Na maior parte das vezes, o líder do ranking é apenas um irresponsável com sorte. 

Ele apostou num cenário de baixa probabilidade, concentrou ou se alavancou e aquilo deu certo. 

Olhando em retrospectiva, pareceu genial. Visto como uma decisão tomada ex-ante olhando a distribuição de probabilidades à frente, foi um erro tremendo. 

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O camarada que vendeu a casa há 15 anos e comprou bitcoin está multimilionário, mas impôs um risco de sobrevivência à sua família. 

Fuja dos líderes dos rankings. Existe reversão à média.

4 – Os traders

Trader não admite pagar R$ 10 de corretagem, mas admite numa boa deixar um ROA de 2% no RLP.

5 – O investidor conservador

O investidor conservador não topa a volatilidade, nem sequer perder 1% do seu net worth, mas aceita pagar 8% de ROA num COE de quatro anos sem nenhum problema, principalmente se a operação estruturada vier acompanhada do nome de uma gestora global famosa em renda fixa – o caso é conhecido.

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6 – A partnership

 Partnership é a taxonomia que os adoradores do MBA Talking e os corporate guys adotaram para rebatizar a rinha de galo. 

“Se matem aí entre vocês por um pedaço do mesmo bolo.” 

Todo mundo finge que rema junto, contanto que a área do coleguinha vá pior do que a sua. 

Farinha pouca meu pirão primeiro.

7 – O Estado existe apenas para alimentar a si mesmo. 

Até aí, beleza. Thomas Hobbes escreveu "O Leviatã" há bastante tempo. 

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O que as pessoas muitas vezes negligenciam é que o mesmo vale para instituições privadas, onde se perdem as noções de certo e errado em prol da autopromoção e defesa própria. 

A instituição se protege acima de qualquer coisa.

8 – Competição e amizade

 Onde há competição por dinheiro, não existe amizade verdadeira. O mercado financeiro é um ecossistema de muita competição por dinheiro.

9 – Estagiário e gestor

O estagiário quer trabalhar, de casa, 4x por semana, seis horas por dia. Sem a ética do trabalho, é claro que não vai dar certo. 

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O gestor bilionário só enxerga o seu próximo milhão. 

Ora, ora, mas todos nós não sabemos que a utilidade marginal é decrescente? 

A lógica do “decreasing marginal returns” (retornos marginais decrescentes) não vale também para o dinheiro?

Virtus in medium est”. Aristóteles estaria desempregado na Faria Lima.

10 – Research

Research independente você faz por inteiro, com a sua alma, ou você não faz.

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