Como a Via (VIIA3) quer crescer para além das Casas Bahia com fundo para investir em startups
Depois de investir em fintechs, empresa mira varejo, logística e publicidade e começa a fornecer credito para clientes comprarem fora do ecossistema da companhia

Dona da Casas Bahia e do Ponto, a Via (VIIA3) quer crescer em serviços e produtos para além daqueles oferecidos aos clientes que usam suas tradicionais plataformas. A empresa tem investido inclusive em startups para acelerar as mudanças na própria companhia.
As fintechs GoPublic, Poupa Certo e Byebnk foram as primeiras a receber aportes de um fundo de Corporate Venture Capital (CVC) anunciado neste ano pela empresa; a iniciativa promete recursos também para startups de varejo, logística e publicidade, em um total de R$ 200 milhões.
Segundo o vice-presidente de marketplace e inovação da empresa, Helisson Lemos, idealmente o prazo de cinco anos do fundo seria até estendido. "E não necessariamente a gente precisa comprar a startup para alavancá-la", disse em entrevista ao Seu Dinheiro.
O executivo fala em um evolução das soluções financeiras dentro do ambiente da companhia — com plataforma de meios de pagamento e crédito, por exemplo —, mas também fora. “A gente vai lançar um crediário e um fulfillment [agrupamento de operações essenciais na logística] para terceiros.”
Do carnê para a conta digital
A incursão mais agressiva da Via pelo segmento financeiro começou em 2018, quando a empresa, famosa pelos carnês das Casas Bahia, passou a desenvolver a conta digital banQi — agora fortalecida pela compra das três startups, que também dão tração à Celer, solução de meios de pagamento comprada pela Via em julho.
A gente gostou muito da tecnologia [das startups investidas] e viu que cada uma delas complementava de maneira diferente algumas teses de investimento do CVC
Helisson Lemos, vice-presidente de marketplace e inovação da ViaLeia Também
A GoPublic é especializada em jornada para concessão de crédito para pessoas física e jurídica, e deve ajudar a Celer e a Banqi a fornecer recursos aos clientes. "Ela tem uma tecnologia com parâmetros complementares ao que a gente tem", disse o executivo.
Já a Poupacerto atua com educação financeira via gameficação — o que deve, segundo Lemos, "ajudar os nossos clientes a ter uma melhor consciência de gastos e investimentos" —, enquanto a Byebnk é uma plataforma de investimentos.
"Na linha de open banking e open finance, não necessariamente a gente tem que fazer de tudo, mas pode apoiar as empresas para que elas cresçam de maneira independente", disse ele.
Segundo o executivo, o modelo que a Via usa é justamente o aplicado no banQi — ou seja, o de uso do poder de fogo da varejista para acelerar uma empresa menor (a carteira digital da startup chegou 2,5 milhões de contas, no dado mais recente). "A gente agora começa a oferecer crédito não só para comprar produto no ecossistema da Via".
Via (VIIA3) em busca do problema e da solução
Lemos disse ver o mundo em transformação pela cultura de inovação — marcado, segundo ele, pela capacidade das empresas mais novas de resolver problemas —, "enquanto companhias em estágio avançado se apaixonam pela solução e não pelo problema".
Com nossa tecnologia e nosso time a gente consegue tudo que a gente quer, mas existe a oportunidade de conexão com terceiros para fazer isso mais rápido e até mais barato
Helisson Lemos, vice-presidente de marketplace e inovação da Via
A Via busca por inovação de maneira consistente há cerca de dois anos, quando a companhia trocou de mãos, voltando ao seu antigo controlador, a família Klein, fundadora da Casas Bahia, e passou a correr atrás do terreno perdido para concorrentes em meio à digitalização do consumo.
Parte importante desse processo ocorreu em 2020, quando a Via comprou uma fatia da Distrito, plataforma aberta de inovação que ajuda empresas na transformação digital e conexão com startups.
O chamado Corporate Venture Capital é uma modalidade de investimento em que grandes empresas aportam em startups donas de produtos e serviços que agregam a atividade da companhia investidora.
Esse é um mercado em franco crescimento e que movimentou US$ 79 bilhões no mundo durante a primeira metade de 2021, mais do que dobrando de valor na base anual, segundo dados da consultoria CB Insights.
"Quando a gente trabalha com inovação, a gente tem a chance de colher dois frutos. No médio e longo prazo, fazendo as escolhes certas para eventualmente ter resultados financeiros e estratégicos", diz Lemos. "No curto prazo, há o contato com o relacionamento com essas startups, com a cultura ágil e o apetite por risco".
Ações da Via (VIIA3) podem mais que dobrar, segundo analistas
A empreitada da Via com as startups ainda está longe de se reverter em resultados no balanço. Mas a iniciativa é bem vista por analistas. As ações da varejista (VIIA3) vêm sofrendo com a piora da percepção do mercado com o ritmo de avanço do e-commerce.
A visão geral, porém, é que a dona da Casas Bahia possui uma forte base de clientes e grande quantidade de lojas pelo país, embora as vendas digitais da empresa ainda estejam longe de patamares como o do Magazine Luiza.
Segundo dados do TradeMap, entre 17 recomendações sobre os papéis da empresa, oito são de compra, oito são neutras e uma é de venda. A mediana para o preço-alvo de VIIA3 é de R$ 19, o que representa um potencial de alta de quase 200% em relação às cotações atuais, de R$ 6,65.
Lemos vê justamente na base de clientes, cujo total atingiu 100 milhões, sendo 24 milhões ativos, uma das provas do avanço da companhia. "A gente iniciou o ano com 10 mil vendedores na nossa base. Em outubro chegamos em 100 mil — patamar que concorrência levou cinco anos para atingir."
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