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Pandemia não afetou desempenho de uma das primeira fintechs do país, que entrou na seleta lista de startups que valem mais de US$ 1 bilhão em 2020
Toda vez que um repórter ou um investidor conversa com um fundador de uma startup, invariavelmente duas perguntas acabam surgindo. A primeira é sobre quando virá o primeiro lucro da empresa. A segunda, quando ocorrerá a oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).
Muitos veem esses dois pontos como sinais da maturidade e robustez de uma companhia. Na prática, o que está se perguntando é se a startup está finalmente pronta para andar com as próprias pernas, sem depender do aporte de investidores de private equity.
Mas Sergio Furio não vê as coisas desse jeito. O fundador e CEO da Creditas – companhia que se tornou uma referência em empréstimos pessoais com garantia de imóveis e carros e que expandiu sua atuação para áreas como consignado e benefícios para funcionários – entende que é preciso olhar para além dessas duas métricas para avaliar uma startup. Inclusive a sua, que está no mercado desde 2012, quando iniciou como um comparador de produtos financeiros.
Tanto é assim que ele não está com pressa para responder estas duas perguntas, nem quer se comprometer com algum prazo para ter lucro ou listar suas ações. Seu foco está na expansão e fortalecimento da empresa. Para ele, sua criação não está pronta.
“Numa empresa de tecnologia moderna, no momento em que você acha que a casa está pronta, a casa se derruba, porque o mercado se mexe e você se dá conta que está ocorrendo um cataclismo e a casa cai”
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Conversei com Furio uma semana antes de a Creditas divulgar os resultados acumulados em 2020, quando foi alçada ao status de unicórnio. Foi mais um ano de prejuízo, mas também foi um período em que a empresa viu o portfólio de crédito aumentar em 84,7% e conseguiu extrair cada vez mais receita por produto vendido, mesmo em meio a uma das piores crises que o mundo já vivenciou.
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“A gente conseguiu ver que o modelo da Creditas, de crédito com colateral, é bom, inclusive em situação de estresse. E o mais importante é que é bom para os clientes também”, disse.
Assim como todas as outras empresas, a Creditas penou para entender, no começo, os efeitos da pandemia de covid-19, e por isso resolveu tirar o pé do acelerador, procurando se resguardar de possíveis perdas. “A gente optou por ser um pouco mais conservador [na concessão de crédito] de março a junho”, disse.
A partir de julho, porém, a situação virou. A empresa começou a ver um aumento na demanda por crédito, especialmente de empreendedores e profissionais autônomos.
Até a crise, a maior parte daqueles que tomavam empréstimos na Creditas eram profissionais com carteira assinada, aposentados ou funcionários públicos, gente com renda estável. Com a pandemia, este público acabou reduzindo a busca por crédito, procurando segurar os seus gastos.
Por outro lado, profissionais autônomos e empreendedores sentiram duramente os efeitos das medidas de combate à covid-19, especialmente as restrições para a circulação de pessoas, tendo que correr atrás de recursos para fechar as contas e manter os negócios abertos.
“Houve uma troca durante a pandemia [perfil de clientes]. Normalmente, a gente era 65% colaboradores de empresas, público e privado, ou algum aposentado, com renda estável. E agora é metade”.
Não foi apenas o perfil de clientes que mudou. A pandemia provocou ainda uma procura maior por outros produtos, além dos empréstimos pessoais via colateral. Furio disse que nos últimos meses as empresas passaram a entrar em contato com a Creditas para tratar da linha de benefícios da companhia.
No ano passado, a startup lançou o Creditas@Work (lê-se Creditas at Work), um pacote de soluções para a área de recursos humanos e funcionários de empresas parceiras. Além dos benefícios tradicionais, como vale refeição e transporte, ele agregou serviços já disponibilizados pela Creditas, como empréstimo consignado e antecipação salarial. E este último, de acordo com Furio, teve um bom aumento de demanda.
“A gente fez pesquisas dentro das empresas e o maior problema [dos colaboradores] eram as despesas emergenciais”, afirmou. “A gente criou um produto de antecipação de salários, com zero custo. É zero ponto zero de custo, sem juros, sem comissões, sem nada. Você pode usar duas vezes ao ano. A empresa adora este tipo de produto, porque é um super benefício para o colaborador e ajuda a evitar o superendividamento da população.”
Outro produto que despontou em 2020 foi a parte de financiamento de carros, depois que muita gente voltou a considerar a compra de um automóvel, diante dos receios que a pandemia criou de pegar transporte público. “Vimos um aumento da procura, eu diria que em setembro e outubro, e está tendo um supercrescimento”, afirmou o CEO.
Diante deste cenário, o portfólio de crédito da Creditas atingiu em 2020 a marca de R$ 1,2 bilhão em empréstimo para clientes, acima dos R$ 679,3 milhões apurados em 2019. A linha de “originação de crédito”, que trata do volume de novos empréstimos concedidos no período, subiu 70%, para R$ 904 milhões.
A receita cresceu 88,4% no mesmo período, para R$ 336,2 milhões. Mas o lucro novamente não veio. A Creditas fechou mais um ano com prejuízo, dessa vez de R$ 186 milhões, uma melhora ante a perda de R$ 202,2 milhões de 2019.
Para Furio, porém, a última linha do balanço não é o que interessa, ou que deveria chamar menos a atenção de investidores (e jornalistas). O mais importante, afirmou, é a margem de contribuição, que mostra o valor que sobra da venda de um produto após retirar os gastos e despesas variáveis. No ano passado, essa margem alcançou R$ 177,4 milhões, o que significa que mais da metade da receita (52,7%, para ser específico) ficou com a companhia.
O CEO da Creditas afirmou que, neste momento, está interessado em fazer a companhia crescer ainda mais, e para isso precisa investir em tecnologia e na captação de clientes, os principais fatores que levam aos prejuízos.
“Seria muito simples lucrar em uma empresa como a Creditas. O que você faz? Elimina a despesa com captação de clientes, você fica com o tamanho que você tem, e reduz o investimento em tecnologia e vira uma empresa normal. Super lucrativa, que geraria nos primeiros nove meses de 2020 mais de R$ 100 milhões em lucro, mas que não cresce”, disse.
“Eu diria que nos próximos dois anos continuaremos com uma mentalidade de, queremos continuar crescendo, queremos continuar criando portfólio, criando receita recorrente, que é o mais importante. Não é a nossa prioridade entregar lucro nos próximos dois anos.”
A falta de lucro na Creditas não parece ser um problema para os seus investidores, pelo menos por enquanto. Prova disso é o fato de ela ter se tornado um unicórnio no ano passado, após seu valor de mercado atingir a marca de US$ 1 bilhão.
Em dezembro, a companhia levantou US$ 255 milhões em recursos, sendo avaliada em US$ 1,7 bilhão. A rodada, chamada Series-E, trouxe novos sócios internacionais para a Creditas, incluindo a Advent International. Adicionalmente, os acionistas atuais, como o SoftBank, participaram do investimento.
Um aporte desse tamanho leva muitos a crer que a Creditas já estaria sofrendo pressões para realizar uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Em entrevista ao jornal espanhol “El País” no começo do ano, Furio deu a entender que uma oferta de ações poderia ocorrer em dois anos, depois de uma nova rodada de investimento, e que a operação ocorreria em Nova York.
Quando perguntei sobre isso, o CEO da Creditas disse que embora queira abrir o capital da empresa, ele não tem um plano específico para realizá-lo em dois anos, nem está sendo pressionado pelos investidores. Ele reafirmou que o plano é expandir a companhia e desenvolver novos produtos e tecnologias.
“A gente ainda quer ter um ritmo de crescimento muito forte, que acreditamos que não lida muito bem com o mercado público, porque o ideal é levar a empresa para o mercado público quando você quer crescer 50%, 60% ao ano, não dobrar a cada ano”, disse.
“Estamos lançando muitos produtos. Você pensa que desde o começo da pandemia até agora lançamos cinco produtos e ainda estamos apanhando para ver como faço, como lanço. Isso é melhor, do nosso ponto de vista, fazer sem ter a pressão pública.”
Agora, sobre o IPO em Nova York, a resposta pode decepcionar um pouco. Furio disse que seus investidores são fundos de private equity estrangeiros, que preferem ver a empresa listada nos Estados Unidos, onde os investidores entendem e estão mais abertos a teses de investimentos como da Creditas e onde as regras de governança são mais rígidas.
Isso não quer dizer que a Creditas não teria ativos listados na B3. Ele vê o mercado de capitais brasileiro amadurecendo nos últimos anos para empresas fora do circuito commodities-bancos-varejo.
“Até um ano atrás, o investidor brasileiro não tinha tanto interesse em um ativo como a Creditas, uma empresa de tecnologia, de crescimento muito alto”, afirmou. “Mas daria para fazer duo listing tranquilo.”
Partindo então do fato de que nem um IPO, nem um lucro, são as prioridades no momento para a Creditas, fica a dúvida: o que a empresa fará daqui para frente?
Como Furio disse, crescer fortemente, tentando dobrar de tamanho a cada ano. E fazer isso integrando os produtos numa única plataforma, ou ecossistema, para ficarmos no jargão das startups.
A ideia é agregar desde os empréstimos com ativos como garantia e empréstimo consignado, passando pelo serviço de financiamento de automóveis até a loja virtual, a Creditas Store, em que as pessoas podem comprar de smartphones a cursos de MBA, em um aplicativo, fidelizando e ajudando a vida financeira dos clientes.
“O que o aplicativo, a tecnologia, está fazendo é juntar tudo isso em volta do cliente e ajudar na gestão desses ativos e na otimização da vida financeira”, disse o CEO. “É um foco muito maior no cliente do que tínhamos antes, dentro de um aplicativo de celular, com foco também nos ativos que você possui.”
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