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Para Luiz Fernando Figueiredo, o BC mostrou sensibilidade ao dar destaque para a situação do risco fiscal e agiu de forma “precavida”.
A decisão do Banco Central de elevar a taxa Selic em 75 pontos-base pegou muita gente de surpresa no mercado financeiro nesta tarde de quarta-feira (17). As expectativas do mercado giravam em torno de um aumento da taxa básica de juros para a casa dos 2,5%.
Luiz Fernando Figueiredo, sócio fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central (BC), foi uma dessas pessoas. Em entrevista ao Seu Dinheiro, logo após a divulgação do comunicado, Figueiredo destacou que o BC foi além do esperado, mas que essa não é uma postura negativa.
Na visão dele, o movimento mostra uma faceta “precavida” da instituição diante dos riscos - principalmente com a aceleração da inflação e o risco fiscal. A herança das políticas de resposta à pandemia e a frustração com relação à continuidade das reformas foram, inclusive, citados como gatilhos para a elevação dos prêmios de risco pelo BC. Você pode conferir a nota completa da instituição neste link.
O destaque dado ao risco fiscal no comunicado, aliás, chamou a atenção do ex-diretor, que acredita que esse é um dos maiores problemas econômicos atuais do Brasil. “O que o BC mostra é que continuar com o risco fiscal elevado pode trazer ainda mais choques e não podemos vacilar com isso”. Outro ponto que surpreendeu foi a leitura de uma atividade econômica mais forte do que a projetada pelo mercado.
Para Figueiredo, a atuação do BC nesta decisão minimiza o receio de alta da inflação que tem se alastrado pelo mercado nos últimos meses - tanto no Brasil quanto no exterior. “O BC e nós aqui da Mauá temos esse mesmo diagnóstico: esses choques todos são temporários.” Confira os principais momentos da entrevista do ex-diretor do Banco Central ao Seu Dinheiro:
"O Banco Central fez mais do que eu achava que ele iria fazer. Eu esperava um aumento de 50 pontos-base. Essa teria sido a minha preferência e achei que essa seria a preferência do BC, mas ele preferiu ser mais precavido, tomando a decisão de ser mais rápido no processo de normalização, uma decisão que vem com um diagnóstico de atividade um pouco melhor do que o esperado, mesmo com a piora da pandemia.
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Quando o Banco Central tem uma postura dessas, acho que ela não é negativa, tem uma margem positiva. Ele não está falando que vai fazer um choque de juros e a taxa vai lá em cima, o que poderia fazer o preço dos ativos reais cair bastante, e sim agindo com mais segurança. Isso denota um risco maior [com a alta nas expectativas de inflação e o risco fiscal, como mencionado no comunicado]. Se não houvesse esse risco ele não faria isso. Ao ser precavido está dando um sinal para o mercado de que não está para brincadeira.
Independente do passo, a dúvida era se ele manteria o “ normalização parcial” no comunicado. Se ele tirasse isso, o mercado iria achar que ele subiria a taxa para 5,5% ou 6% de uma vez. Não foi o caso. Ele agindo mais rapidamente, eventualmente, poderia levar a Selic a menos que 4 e 4,5%, mas seria inferir muita coisa ainda. É esperar para ver. "
"Chama a atenção o Banco Central considerar a questão fiscal. É um contrassenso eu falar isso, pois a questão fiscal é para mim a mais importante e dramática que o país enfrenta hoje do lado econômico. Eu já acho isso, mas ele se mostrou muito sensível com relação a isso, dizendo inclusive que se perdurar essa situação o juro estrutural pode subir e esse é um grande problema, pois o custo de manter a política monetária e a inflação sob controle também vai aumentar.
Esse é o grande risco para o Brasil. Ele se reduziu com a aprovação da PEC Emergencial, mas nós estamos muito no limite. O que o BC mostra é que continuar com o risco fiscal elevado pode trazer ainda mais choques e não podemos vacilar com isso. "
"Como o Banco Central disse que ele vai normalizar parcialmente, acho que o efeito não deve ser tão grande. O que deve acontecer é um achatamento da curva de juros. A parte mais curtinha da curva deve subir e a mais longa deve cair.
Com relação ao câmbio, um BC que está se mostrando mais conservador, na margem, tem algum efeito que eu acho que é muito pequeno, mas ele deve ser positivo, pode ter o efeito de um dia. Para que a taxa de juros tenha um efeito no câmbio precisaria ser uma coisa muito diferente, que não acho que seja o caso, já que as condições financeiras tem estado muito apertadas recentemente por conta do risco fiscal e da inflação."
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