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Para fazer frente aos achismos tão comuns em momentos de crise como o atual, trazemos aqui o que você precisa saber sobre a Evergrande e quais são os desdobramentos para a sua realidade
Não se fala em outra coisa no mercado que não a questão envolvendo a Evergrande, a gigante da incorporação chinesa. Na verdade, é impressionante como surgiram do dia para a noite um número impressionante de especialistas no mercado imobiliário chinês.
Todos querendo dar um pitaco e muitos querendo opinar, mas poucos com realmente algo fundamentado para agregar. As pessoas não se esforçam dessa maneira para pensar soluções ao problema do saneamento básico brasileiro, por exemplo; se o fizessem, talvez a situação já estivesse bem melhor por aqui.
O pessoal lê um artigo sobre a situação e começa a se considerar o maior emissor de opiniões sobre o tema que já existiu. Em um mundo informacionalmente eficiente como o que vivemos, tal contexto talvez seja inevitável, é verdade.
Ainda assim, decidi me debruçar um pouco sobre a questão, visando separar um pouco aquilo que é ruído do que de fato é sinal, de modo a endereçar a questão com a devida responsabilidade.
Já adianto que há várias incertezas e falta de acesso à informação para se conhecer a real situação na China, o que inclusive contribui para reações mais exacerbadas de curto prazo do mercado.
Análises envolvendo a China são sempre complexas. Poucas pessoas no mundo conseguem falar com profundidade sobre a China – se conseguirmos acesso a elas, porém, já temos meio caminho andado. Foi o que fiz nas últimas 24 horas, buscando conversar com quem realmente entende sobre o problema ali contido.
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Com este pequeno disclaimer exposto, vamos ao que interessa.
A possibilidade de a empresa imobiliária chinesa Evergrande entrar em colapso e as preocupações gerais com a repressão das empresas endividadas da China estão afetando as ações ao redor do mundo, da Ásia, passando pela Europa e chegando às Américas, agitando os mercados dos EUA e do Brasil.
Na segunda-feira, por exemplo, o Índice Hang Seng (HSI) caiu mais de 3%, mesmo com a China e o Japão fechados para o feriado. Com isso, o índice de referência atingiu seu menor patamar em 11 meses antes. A Evergrande caiu mais de 11%, acumulando recuo de mais de 80% este ano, enquanto luta para cumprir o pagamento da dívida.
Em poucas palavras, a empresa tem mais de US$ 300 bilhões em dívidas e já vem há alguns meses alertando sobre a possibilidade de inadimplência, a qual está começando a se dar nesta semana, com o vencimento de uma dívida na segunda-feira e outra para os próximos dias.
Para quinta-feira, dia em que a China também retorna do feriado, a companhia tem um pagamento de juros da ordem de US$ 83,5 milhões para um título de março de 2022. Será hora decisiva. Até o fim do ano, teremos mais de US$ 600 milhões de dívidas a vencer, o que faz com que seja improvável para a empresa honrar seus compromissos.
Entendo, porém, que a preocupação não seja com a crise de crédito envolvendo a incorporadora chinesa Evergrande, mas, sim, com seu potencial contágio para o setor e a economia local como um todo.
Basicamente, um colapso da Evergrande teria um efeito dominó em outras incorporadoras imobiliárias da China e de Hong Kong, bem como um efeito sistêmico no resto da economia. No mercado offshore de dólares, há uma porção considerável de desenvolvedores (que) estão implícitos em grande dificuldade.
Os desenvolvedores não podem sobreviver por muito mais tempo se o canal de refinanciamento continuar a ser fechado, como tem acontecido nos últimos anos – de certo modo, o próprio governo chinês foi responsável por chegarmos até aqui, abrindo a torneira para o crescimento da Evergrande e depois a fechando gradualmente.
Assim, o que está em jogo aqui é a própria capacidade chinesa em lidar com crises desta magnitude e sua decisão de salvamento ou não de grandes empresas como essa. Sobre isso, pelas sinalizações recentes, Pequim pretende lidar com a crise a partir de regras de mercado.
Minimiza-se, com isso, a possibilidade de Evergrande ser semelhante ao colapso do Lehman Bros. em 2008, observando a fragmentação do mercado imobiliário da China (a dívida do banco americano era o dobro, mais de US$ 600 bilhões).
Adicionalmente, apesar do tamanho da Evergrande, a companhia responde por apenas 6,5% do mercado imobiliário chinês, segundo estimativas do UBS. Além disso, a dívida, especialmente a dívida onshore, está bem garantida.
Como muito bem colocou Felipe Miranda, estrategista-chefe da Empiricus, a maior casa de análise para o varejo financeiro da América Latina, em sua carta aos seus clientes na manhã de segunda-feira (20):
"Em sendo mesmo o caso, estaríamos lidando com a Evergrande como uma alusão aos grandes bancos americanos (too big to fail), numa analogia mais superficial e menos precisa, dado o caráter menos sistêmico da companhia (crises com instituições financeiras em seu epicentro são fenômenos mais complexos pela sua própria natureza), e à crise do LTCM (paralelo um pouco mais preciso), mas com maior capacidade de gerenciamento, dada a possibilidade de reação antecipada, a interpretação por parte das autoridades de que ela seria também grande demais para falir e a capacidade do governo chinês de agir sem precisar dos mecanismos clássicos de “checks and balances” de democracias mais consolidadas.
De forma mais simples, há dois grandes cenários à frente. Uma liquidação da companhia ou sua reestruturação. Há um terceiro entre ambos, que seria uma reestruturação desordenada, mas que, em termos práticos, representaria quase o mesmo de uma liquidação."
Claro, como não podia deixar de ser, há um certo nervosismo no ar. Afinal, BlackRock, UBS e HSBC estão entre os maiores detentores dos títulos da Evergrande.
Colocado de outra maneira, como um incorporador sistemicamente importante, uma falência da Evergrande causaria problemas para todo o setor imobiliário, que tem sido uma importante fonte de crescimento econômico e empregos na China – uma desaceleração na economia da China também teria implicações importantes em todo o mundo, especialmente para as commodities.
Não é de hoje que a Ásia, em especial a China, tem servido de veículo para a tensão dos mercados. Junto com Evergrande, a pressão tem crescido no mercado chinês e no de Hong Kong, à medida que os líderes do gigante asiático procuram controlar o que chamam de comportamento monopolístico, da mesma forma que mirou no setor de tecnologia.
Parte do plano de prosperidade comum do presidente Xi Jinping para lidar com a desigualdade e conseguir entregar as metas propostas no último plano quinquenal, as ações tomadas não são claras.
Consequentemente, no enfrentamento da crise da Evergrande, os investidores estrangeiros ficaram preocupados com as questões administrativas na China não colocadas de maneira o suficientemente transparentes.
Para responder à falta de credibilidade, nos últimos dias, os principais órgãos reguladores da China estiveram reunidos com executivos de Wall Street e procuraram tranquilizar os empresários de que as regras mais rígidas não visam sufocar as companhias. Inclusive, no final de semana, o premiê da China defendeu medidas para estabilizar os preços com métodos baseados no mercado.
Ou seja, ainda que haja inadimplência por parte da companhia, o cenário mais provável hoje é de um apoio do governo chinês, de modo a sustentar o mercado, por meio do que poderá vir a ser um bailout gerenciável. O problema é caso a Evergrande seja só a ponta do iceberg de um problema muito maior e estrutural no mercado imobiliário. Foi esta chance a precificada ontem.
Neste caso, a entrega dos projetos é a questão mais importante em termos de estabilidade social e gerenciamento de uma crise imobiliária. Os compradores de imóveis e os fornecedores são os stakeholders mais relevantes. Assim, uma liquidação seria necessária. Evidentemente, isso exigiria uma ação rápida e eficiente.
Na sequência, emerge como possibilidade a segregação em companhias menores para tocar os projetos (mais de 1.300 ainda em andamento em 280 cidades, além do compromisso de entregar no futuro mais de 1,4 milhão de casas) e não gerar muito desemprego (a companhia tem mais de 200 mil funcionários e estima-se que afeta a economia diária de 3,8 milhões de pessoas), acompanhada de uma reestruturação da dívida.
Dito isso, a própria S&P Global Ratings colocou como gerenciável a situação, com pequeno nível de contágio; aqui, um default da Evergrande tenderia a causar um pouco mais do que mera volatilidade dos mercados, ao mesmo tempo em que seria improvável uma grande onda de default catalisada por esse evento.
Vale dizer que ainda não se mensura o risco de uma crise de crédito, até mesmo porque este setor na China é um pouco nebuloso — é sempre complexo mensurar as relações do shadow banking na China.
No setor financeiro, os bancos com maior exposição ao problema seriam JSB e Minsheng Bank (40% do endividamento é no mercado doméstico chinês). Contudo, parece bem pulverizada tal exposição, uma vez que o financiamento foi distribuído por mais de 128 bancos.
Com isso, ao menos até agora, o risco mais grave parece, como coloquei, gerenciável.
O investidor brasileiro, que foi afetado por mais esta crise na reta final de um trimestre já bastante complicado, deveria manter a calma e não se desesperar. O cenário à frente, ainda que endereçável, será desafiador, sem dúvidas, o que enseja natural volatilidade no mercado ainda nos próximos meses, enquanto entendemos por completo a atuação do governo chinês responsável pelo estresse do próprio mercado imobiliário e agora único capaz de solucionar o problema.
Com as quedas recentes, entendemos que seja salutar a manutenção de sua posição em risco, se a mesma já estiver ajustada ao seu perfil de investidor — aumentar posições em momentos como este pode ser algo bastante perigoso. Neste contexto, o caixa pode ser bem vindo.
Dessa forma, elevar a posição de caixa e em proteções, notadamente moeda forte, pode ser algo interessante. Trabalhamos ao longo de segunda-feira para elevar a posição em dólar dos nossos assinantes, os quais já estavam posicionados na moeda americana, vale dizer. Aos níveis atuais, a divisa dos EUA parece um hedge convidativo a se carregar, principalmente às vésperas de um ano eleitoral no Brasil.
Claro, não só o dólar puro, mas também uma exposição direcional a ativos em países desenvolvidos, como nos EUA, parece positiva para o investidor local. Algo de 20% a 30% de sua carteira total do investidor pode ser um percentual adequado.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Para saber como se aprofundar em insights como este que acabei de passar, a leitura da nossa série best-seller Palavra do Estrategista pode ser interessante. Nela, nosso estrategista-chefe, Felipe Miranda, oferece suas melhores ideias para os mais variados perfis de investidores e nas horas mais distintas, na saúde e na doença. Vale conferir.
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