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A caravana da corte portuguesa, falida, dependente do erário e dos favores do príncipe regente, tinha o tamanho da máquina burocrática americana.
“O Dom João que chegou ao Brasil em 1808 usaria para governar outro atributo fortíssimo da Monarquia: o da imagem do rei benigno, que tudo provê e de todos cuida e protege. Dom João passaria à história como um monarca bonachão, sossegado e paternal, que recebia pacientemente seus súditos no Palácio de São Cristóvão para o ritual de beija-mão. (..) A corte e o poder real fascinavam-se como uma verdadeira atração messiânica, era a esperança do socorro de um pai que vem curar as feridas dos filhos.”
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Esse é um trecho do livro “1808”, de Laurentino Gomes, que narra a chegada da família real portuguesa ao Brasil, como forma de escapar das guerras napoleônicas em meio ao bloqueio continental. Entre 10 mil e 15 mil portugueses atravessaram o Atlântico com Dom João — é aproximadamente o mesmo número de pessoas transferidas para Washington, a nova capital, pelo presidente americano John Adams. A caravana da corte portuguesa, falida, dependente do erário e dos favores do príncipe regente, tinha o tamanho da máquina burocrática americana.
Como resumiu o historiador John Armitage, “um enxame de aventureiros, necessitados e sem princípios acompanhou a família real. (…) os novos hóspedes pouco se interessavam pela prosperidade do país: consideravam temporária sua ausência de Portugal e propunham-se mais a enriquecer à custa do Estado do que a administrar justiça ou a beneficiar o público”.
Segundo o historiador Luiz Felipe Alencastro, naquele tempo, além da família real, 276 fidalgos e dignatários régios recebiam verba anual de custeio e representação, paga em moedas de ouro e prata retiradas do Tesouro Real do Rio de Janeiro. Havia cerca de 2.000 funcionários reais e indivíduos exercendo funções relacionadas à Coroa, 700 padres, 500 advogados, 200 praticantes de medicina e entre 4.000 e 5.000 militares. O cônsul inglês James Henderson resumiu bem a questão: “poucas cortes europeias têm tantas pessoas ligadas a ela quanto a brasileira, incluindo fidalgos, eclesiásticos e oficiais”.
A chegada da corte portuguesa marca, basicamente, o início de um processo de transformação que culminaria na superação do Brasil-colônia para sua independência em 1822. Foi um período de muita mudança e modernização. A forma, porém, da apropriação de elementos da cultura europeia e a maneira da constituição da nossa elite mostram a dependência do Estado, as relações de dependência dos “amigos do rei”. Em bom “brasileiro”, as famosas mamadas nas tetas do Estado.
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A elite brasileira nasceu e cresceu sem erudição, profundidade intelectual e capacidade empreendedora, escorando-se nos favores da realeza para se sustentar e expandir. Era uma situação bem diferente daquela observada nos EUA, onde floresceu uma classe alfabetizada, habituada a decisões comunitárias e informada sobre as fronteiras do conhecimento e as invenções do mundo, disposta à atividade empreendedora e acostumada com a assunção de riscos.
Até aí, sejamos sinceros, nenhuma novidade. Mais papo de historiador do que de economista. Mas encontrar raízes históricas ajuda a entender o presente e, quem sabe, projetar o futuro.
Na natureza da sociedade brasileira, não se encontra a disposição ao risco, ao novo, ao desconhecido, ao empreendedorismo. Estamos, desde o começo, deitados em berço esplêndido, no colo do pai português bonachão e benevolente ou nos braços do Estado.
Talvez isso até poderia ser uma explicação antropológica para nossas taxas de juro historicamente tão altas. Para toparmos o financiamento público, precisamos ser remunerados agressivamente. Claro que não é a única justificativa. O passado de muita inflação e as dúvidas sobre a capacidade de o Estado honrar seus compromissos financeiros futuros diante da nossa trajetória fiscal estão entre as principais. Mas, pensando bem, não seria a mesma coisa? O Estado gasta muito e gera dúvidas sobre sua capacidade de financiamento; ao mesmo tempo, com seus gastos perdulários, alimenta uma sociedade muito dependente dos favores do Estado, num círculo vicioso aparentemente inquebrável.
Eis que agora, porém, os juros estão baixos. E por mais que devam subir em 2021, continuarão baixos na comparação com os níveis históricos. As pessoas, para não terem seu patrimônio corroído em termos reais e poderem preservar poder de compra, precisarão, cada vez mais, investir em ativos fora da renda fixa convencional. Por bem ou por mal, precisarão lidar com o risco. E não há melhor forma de aprender e conviver com algo a partir da própria convivência com esse algo. Como se aprende a andar de bicicleta? Como se aprende a cozinhar?
Os otimistas acreditam que o juro baixo vai revolucionar o mercado de capitais brasileiro, fazendo com que as pessoas passem a aumentar o duration de suas aplicações em renda fixa, a ter uma poupança de longo prazo grande em ações e a diversificar geograficamente e entre moedas seus investimentos.
Eu concordo com isso, mas tenho uma perspectiva ainda mais ambiciosa: o “financial deepening” como instrumento de transformação de toda a sociedade brasileira, em que passamos a entender que a vida não é de não se correr risco, de termos de nos escorar na segurança, mas, sim, de saber ponderar entre risco e retorno. Isso seria ainda mais transformacional, de entendermos que podemos mudar de emprego, mudar de cidade, mudar de opinião… conhecer o novo, empreender, romper relações destrutivas, abraçar um teste sem necessariamente saber seu resultado, calibrando a perda potencial.
Talvez seja uma utopia. A verdade, porém, é que, enquanto não tivermos a propriedade de conviver com o risco e a romper com o paternalismo, jamais conseguiremos caminhar efetivamente com as nossas próprias pernas. O Brasil do financial deepening pode ser de uma sociedade finalmente independente, mais confiante em si e na capacidade de conviver com a incerteza e o risco. Será somente um sonho?
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