Felipe Miranda: o caminho para o crescimento de empresas de tecnologia é bem pavimentado, mas é preciso mais cuidado com as ‘fake techs’
Moacyr Scliar contava uma história divertida: “Um psiquiatra tinha dois filhos, um otimista incorrigível e outro pessimista incorrigível. Para lhes dar uma lição de vida, certo Natal o psiquiatra encheu o quarto do seu filho pessimista com as mais fabulosas prendas e o do filho otimista com bosta de cavalo. Ao acordar, o pessimista inspecionou […]

Moacyr Scliar contava uma história divertida:
“Um psiquiatra tinha dois filhos, um otimista incorrigível e outro pessimista incorrigível. Para lhes dar uma lição de vida, certo Natal o psiquiatra encheu o quarto do seu filho pessimista com as mais fabulosas prendas e o do filho otimista com bosta de cavalo. Ao acordar, o pessimista inspecionou os pacotes embrulhados em papel colorido com olhos de desconfiado, perguntando a si próprio onde estaria a tramoia. O otimista, pelo contrário, saltou da cama e, ao ver os montes de bosta de cavalo, exclamou: ‘Com tanta bosta, certeza que há aqui um cavalinho!’”.
Investigando alguns balanços e demonstrações de resultados, sobretudo de uma parcela de empresas recém-listadas em Bolsa, fico convicto de que, percebendo ali aqueles montes de coisas, uma série de investidores está procurando um cavalinho.
Em determinados momentos, parece acontecer um alinhamento improvável dos astros capaz de conferir ao mercado certa disposição a aceitar coisas, digamos, estranhas. Se o juro é zero, chegamos a aberrações em que mais de 100% do valor de uma companhia está em sua perpetuidade — sem querer ficar muito técnico, em um DCF em dois estágios, ela queima caixa em todo horizonte de projeção e, milagrosamente, passa a vomitar caixa lá na frente.
Você junta palavras bonitas tipo “adressable market”, “software as a service”, “sense of community”, contrata um bom banker (alguns já se especializaram na listagem de bancas de jornal e carrinhos de pipoca; esses são os melhores), conhece dois ou três amigos em bons — e grandes — fundos de investimentos, os constrange a participar de seu IPO e… bingo! O quarto do nosso amigo otimista está listado em Bolsa valendo alguns bilhões de reais.
Mas a verdade é filha do tempo — e dos juros mais altos
Nada resiste a duas ou três divulgações de resultados. O ajuste acontece rápido e logo aparece alguém para publicar alguma cartinha pesada, ao melhor estilo “IRB, a missão” — se você acha que a turma é boazinha, espere só pelo seu próprio batismo (de sangue). Sufixos importam e se o “adressable” não vira “adressed” em algum momento, o particípio se impõe, com o investidor ocupando o lugar de sujeito da frase: você está acabado.
Leia Também
Um passo de cada vez: início da temporada de balanços e pesquisa Quaest mexem com os mercados hoje
O sol é o melhor detergente
A luz dos números penetra promessas obscuras. Não há saída. Se você quer viabilizar uma empresa com responsabilidade financeira, não cresce a base de clientes. Se quer crescer a qualquer custo, queima caixa em excesso e as centenas de milhões de reais levantadas no IPO, cedo ou tarde, serão insuficientes. Recém-listado em Bolsa com o tique-taque para o próximo follow-on já no horizonte. O LTV/CAC fica menor do que 1, quando não negativo — e não é por conta do denominador.
Se Warren Buffett nos ensina que não há negócio bom com pessoa ruim, o que, aliás, aprendi na prática, permito-me uma ligeira adaptação: difícil haver investimento bom com empresa ruim.
Some a isso a escalada dos yields (taxas de juro de mercado) no exterior ou mesmo no Brasil. Se a Selic é 9% e o custo do equity é, sei lá, 15%, sua perpetuidade não pode valer bilhões. Somos todos hidrocarbonetos e, portanto, até no médio prazo todos estaremos mortos. A mudança de paradigma de juros, ao menos taticamente, exige maior peso às ações e títulos cujos fluxos de caixa estão no presente.
Essa é uma lição geral. Mas arrisco aqui também outra por indução, partindo do particular para o global.
Caso específico
A compra de Mosaico por Pan é emblemática. Primeiro, o comentário idiossincrático: acho a notícia boa para as duas empresas.
Pan faz um movimento estratégico brilhante, acelerando sua importante transformação digital. Dá um salto duplo carpado na sequência de mudança de um puro-sangue de representante bancário, com grande expertise de crédito e muito bem tocado pelo Cadu, para um banco digital de fato, unindo uma plataforma rica de e-commerce e tecnologia, com um time muito dedicado e alinhado no upside.
Se pararmos para pensar, é o único banco digital de fato, porque tem agora o tech embarcado, mas também tem carteira de crédito relevante, um pequeno detalhe por vezes esquecido pelos bancos digitais da moda. Mudou o jogo — e deveria também mudar o valuation, passando por re-rating. Por falar em detalhe, vale observar que o GMV da Mosaico é superior ao do Inter. Então, quem é o verdadeiro market place da história a partir de agora?
Para a Mosaico, é um way out muito interessante depois da performance ruim das ações desde o IPO e das dificuldades com maior competição em seu nicho de atuação, conferindo a seus acionistas um potencial único por meio desta rara combinação de e-commerce, tech e banking, com liquidez.
E qual a lição geral? O caminho para essas techs recém-listadas, praticamente startups sob promessas muito agressivas de crescimento, é mais difícil do que parece. Ou essa turma se junta com alguém ou terá uma vida dura à frente. O mercado é uma lição de humildade diária, para seus investidores, gestores e empreendedores — e, claro, para os analistas também.
PLANO A
Caça às bruxas: os fundos de previdência caros e pouco rentáveis que nós não recomendamos
18 de outubro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Em busca do eletroposto mais próximo e das ações que vão se dar bem na temporada de balanços; veja o que mexe com seu bolso hoje
16 de outubro de 2026 - 8:16SEXTOU COM O RUY
A bolsa subiu na expectativa, mas a realidade segue difícil. O que esperar da temporada de resultados?
16 de outubro de 2026 - 7:05O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A volta do fantasma dos distratos, o peso dos juros para o desempenho da bolsa e tudo o que mexe com o seu bolso hoje
15 de outubro de 2026 - 8:35EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: O empurrão que faltava para o Novo Keynesianismo
14 de outubro de 2026 - 19:45O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Brasileiros à prova da teoria financeira, ‘Pix MEI’, o renascimento do Magalu e o que mais mexe com o seu bolso hoje
14 de outubro de 2026 - 8:28O MELHOR DO SEU DINHEIRO
As propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para as PMES, o sumiço das LCIs e LCAs que pagavam 95% e o que agita os mercados hoje
13 de outubro de 2026 - 8:19O MELHOR DO SEU DINHEIRO
É o fim dos aplicativos de banco? Os gerentes de IA e as notícias mais importantes para o seu bolso neste feriado
12 de outubro de 2026 - 8:01TRILHAS DE CARREIRA
Ter lado sem perder o eixo: o que está em jogo no trabalho quando você se posiciona politicamente em tempo de eleição
11 de outubro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A conta que você não pode atrasar, os encantos da China e o que mais mexe com seu bolso hoje
9 de outubro de 2026 - 8:47O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A guerra do delivery pelo seu restaurante, o fim do ‘aceita VR?’ e o que esperar dos mercados hoje
8 de outubro de 2026 - 8:54EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: Upside de 50% à frente, mas nunca vem de graça
7 de outubro de 2026 - 19:51O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A bolsa desanimou, mas os juros não: ativos para um mundo com a Selic menor e o que mais mexe com seu bolso hoje
7 de outubro de 2026 - 8:38O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A dívida pública, a dívida do condomínio e a euforia dos mercados: entenda o que você precisa saber antes de investir hoje
6 de outubro de 2026 - 8:42INSIGTHS ASSIMÉTRICOS
Eleições: o pêndulo virou e o fiscal entrou no preço
6 de outubro de 2026 - 7:22O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A ação que aguenta o tranco do segundo turno e o que esperar dos mercados hoje
5 de outubro de 2026 - 8:19O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O ESG na análise de risco, o impacto das eleições na Petrobras (PETR4) e o que mais move o mercado hoje
2 de outubro de 2026 - 8:24SEXTOU COM O RUY
Por que você deveria ter Petrobras (PETR4) na carteira — independentemente de quem ganhar as eleições?
2 de outubro de 2026 - 7:20O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O risco do aluguel atrasado, o candidato favorito do mercado e os preços do petróleo: o que mexe com a bolsa hoje
1 de outubro de 2026 - 8:31EXILE ON WALL STREET